segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A crise entre preços e valores

Nos países capitalistas, e mais acentuadamente nos periféricos como o Brasil, a confusão entre valor e preço é reiterada por mecanismos de controle e exploração social que vão da publicidade e propaganda passando pela novela até a configuração das eleições e o acesso ou não aos recursos de ponta do Estado e a prestação pública de contas.
As pessoas e a ciência (dentre estas a prima donna é a economia) no contexto capitalista contribuem para isto, tendem a não entender que preço é o pagamento em dinheiro, é a relação entre a quantidade das necessidades e a de bens disponíveis; já o valor é relativo à ética, – como um bastião de resistência aos avanços inumanos do capitalismo e outras formas de controle, domínio, exploração e exclusão contemporâneos, – significa as características que decidem a maneira de proceder, de escolher o modo de agir em conformidade aos princípios. A confusão linguística é reveladora das práticas.
Diante desta possibilidade palpável, no nosso cotidiano, fica a questão: quantos dos atores sociais, políticos, culturais, religiosos, entre outros, podem agir de modo a superar esta estrutura econômica que trabalha para reduzir tudo ao preço, ao cálculo dos rendimentos onde até o Recurso Humano é utilizado como instrumento de ampliação de lucros?
No terreno do político basta ver que a tendência é haver políticos profissionais que vivem da política e não para a política. Os cargos eletivos, ou de indicação política, tornaram-se um dos principais meios de ascensão econômica e social num país onde o salário dos pobres à classe média é uma piada de exploração internacional.
Baile de máscaras partidárias onde quase todos dançam as mesmas músicas neoliberais com diferentes tampões que alteram a dimensão do som, mas, ao final, todos se locupletam nos preços em nome da decadência do valor humano, mesmo dos direitos humanos. Ponto máximo nesta equação é pensar até onde se elegem representantes da democracia ou se escolhe os que liderarão a corrupção?
Mais que isto, muitos dos atores, de modo geral, são imaturos do ponto de vista dos valores segundo a análise de Lawrence Kohlberg e, assim, não conseguem ultrapassar as dimensões dos interesses que os rodeiam, da transformação de princípios universalizantes em religião, enquanto visão de valores. Um reducionismo que torna quase inviável a vida democrática em todo seu colorido, diversidade e pluralidade - típicas da realidade do século XXI. Assim, transformamos o Cristo em religião cristã, o Buda em budismo, e por este caminho trilhamos o mais do mesmo, sem grandes avanços fora das estruturas que nos controlam e contorcem em favor do sofrimento que purifica a alma e escarnece a carne.
Muito da atual crise política no Brasil, uma entre as muitas do capitalismo que tem como meta ampliar lucros e reduzir custos, ou ampliar o preço do produto e baixar o preço do salário – o ajuste ocorre em termos de perdas salariais, – é a transformação dos valores pessoais-religiosos em querer universalista. Assim, não aparecem as reais causas do conflito entre os dirigentes dos cargos eletivos mais importantes da nação.

De um lado, os que defendem os valores humanos universais e universalistas em favor de uma pluralidade e diversidade prática; de outro, os que desejam moldar o valor universal a partir de sua própria concepção de mundo, não raro religiosa, numa abstração onde a maior parte da humanidade não se enquadraria a não ser por meios autoritários. De tudo fica um fato, se o Sr. da vertente religiosa dominante no ocidente voltasse hoje, Cristo, ele se negaria a conviver com muitos dos que pregam em seu nome mas pervertendo a noção de perdão, de caridade, de solidariedade e emancipação que tem como meta “fazer o bem sem olhar a quem”.
Em termos explícitos, a questão de gênero – pedra de toque nos fundamentos das hierarquias explorativas e de excludência – não vêm à tona nos discursos, mas move as práticas onde a ponto do iceberg foi a disputa ao redor da questão nos planos municipais de educação e a cereja do bolo hoje seria a exoneração do ministro da Educação - Renato J. Ribeiro. A bancada da bala e da bíblia unida preferem ver a derrocada dos corpos via “choro e ranger de dentes” – desemprego e fome, resseção e crise política gerada na base da seletividade das denúncias e apurações – do que aprovar medidas que legitimem o atual governo rumo a liberdade dos corpos e das mentes.

E você acreditando que vivemos em uma democracia de Estado laico?

domingo, 6 de setembro de 2015

Carl Hart e a questão étnico-racial e classe

Há fatos que não precisam ocorrer para tornar-se realidade. Estes acontecimentos revelam as ações cotidianas de uma época, de uma nação, de uma classe, de um grupo,... . Maria Antonieta que o diga com a célebre frase sobre pães, cunhada pelos opositores da monarquia em busca de uma propaganda eficiente para mobilizar as massas. Nos tempos atuais a edição da notícia em escala industrial é o fenômeno mais corriqueiro desta construção do real pelo uso das mentalidades, de forma igualmente seletiva, em favor de um grupo ou fração de classe.
Com Carl Hart, 48 anos, Professor Titular em Nova York, não é diferente. A notícia que se espraiou pelo País, e até fora do Brasil, sobre ser barrado em Hotel sofisticado da capital de SP, foi aceita como real devido a fragrante discriminação étnico-racial cotidiana. A proibição de circulação de adolescentes por Shoppings - exatamente por aqueles que deveriam proteger seu direito de ir e vir com autonomia via Justiça – entenda-se pessoas da periferia, em sua maioria negra e parda, é apenas um dos sintomas. Tão só uma cena, em um roteiro que se expande sem constrangimento, da imposição da discriminação étnico-racial, por classe e gênero.
Embora ainda pairem pontos discordantes no enredo que envolveu o professor Carl Hart, a fala dele deixa claro que algum tipo de constrangimento ocorreu no hotel que hospedava um dos encontros realizados pelo Instituto Brasileiro de Ciências Criminais  (IBCCrim) – entre os mais seletos do Brasil, realizado em Hotel de elite, o Hotel Tivoli Mofarrej.
Se você, que lê este texto, for branco ou reconhecido socialmente como branco no Brasil, talvez não queira entender o que ocorreu com o professor da Universidade de Columbia. O enredo é muito comum nos espaços das frações de classe dominante, passando por shoppings, repartições e vias públicas onde se pensa encontrar apenas os socialmente brancos. Nestes espaços todos os nãos brancos são suspeitos. Basta fazer uma prova. Convide um amigo negro ou mulato para que ele vá a um destes espaços e observe de longe se ele é “discretamente” monitorado. Vigiado é a palavra correta. Ele é o suspeito por excelência, quer aqui ou nos EUA. Caso não tenha nenhum além de empregados, é uma demonstração cabal da situação de apartheid informal que nos rege.
Todavia, a posição de Hart, de negar quase veementemente tal acontecimento, demonstraria um problema muito maior? A aceitação do não branco nos espaços “reservados de fato, embora não por lei” ao tidos e havidos como brancos só é tolerada se  este embranquecer nas atitudes negando a consciência étnico-racial? Ou seja, a frase de Hart “um segurança iria me abordar” ou “É verdade, mas foi (algo) menor” são apenas correlatas desta situação?

“Algo menor” diante do que ocorre com os negros e pardos “apenas” pobres no Brasil e/ou nos EUA? E, assim, por esta via, Hart acabou prestando um desserviço ao grupo étnico-racial que poderia representar para além do discurso acadêmico. Terminou por dizer que é um problema “apenas”, como se pudesse ser apenas, de classe e não de racismo numa democracia formal.
O problema é de classe, de gênero e étnico-racial. Não afirmar isto é como temer o poder dos dominantes que poderiam dizer o anátema “Até aqui virá, e daqui não passará” em sua carreira Dr. Hart?
E, para ampliar a análise do professor em uma de suas análises, no Mofarrej, em meio ao encontro do IBCCrim, afirmou: “Apesar de os negros serem menos da metade dos usuários de drogas nos EUA, eles compõem muito mais da metade dos presos por causa de drogas. Um em cada três jovens negros americanos serão presos pelo menos uma vez na vida por causa da lei de drogas”.
Isto é revelador do fato de o “uso branco” ser “dependência” ou “doença” e o tráfico, crime? O pobre negro traficante é punido; o branco, em especial o das frações superiores de classe, é inocentado?
Ao invés de dizer: “(...) a guerra às drogas tem sido usada para marginalizar os pobres”, a frase não seria “a guerra às drogas tem sido usada para marginalizar os negros, no ocidente”? E, neste ponto, aluta pela descriminalização do tráfico seria uma luta pela igualdade étnico-racial? Sim, são os negros os mais assassinados, segundo a Anistia Internacional.

No caso do professor que se tornou uma referência, não poderia ao invés de “aliar-se” ao dominante explorador ao afirmar que no seu episódio foi um “caso menor”, asseverar que o seu caso foi exemplar do que ocorre aos milhares no cotidiano e esquecido ou abafado pela falta de projeção social dos envolvidos?

Não há caso menor em questão de racismo e isto deve ser compreendido pelo Dr. Hart ou pelo judiciário que sistematicamente desmonta e torna a lei que criminaliza o racismo em “letra morta” em nome da injúria racial. 

domingo, 23 de agosto de 2015

O poder da crise ou “apesar da crise”

Não nos enganemos. O capitalismo é um sistema de crises e as atuais crises política, econômica, elétrica e hídrica, entre outras, cumprem o papel fundamental do sistema de concentrar capital ou extrair capital do cidadão consumidor e trabalhador.
Uma das frases mais citadas nos últimos noticiários tem sido que ocorre investimento das grandes fortunas privadas “apesar da crise”. Não é apesar da crise e sim devido a crise. A crise gera as oportunidades de investimentos com alto retorno devido ao baixo índice de empregabilidade que possibilita menores salários e menos direitos sociais. Maiores vantagens em acordos com o Estado, como isenções e financiamentos a maior prazo e com menores juros, existência de capital a ser aplicado por investidores sedentos por lucros imediatos, entre outros fatores que favorecem o capital privado e esgarça o sistema de proteção social, de direitos trabalhistas.
Exemplo típico deste “apesar da crise” é o 11 de setembro dos EUA. Enquanto muitos choravam seus mortos, outros tantos a perda do emprego, muitos mais temiam os impactos da “doutrina do medo” ancorada no terrorismo; alguns poucos planejavam e efetuavam lucros multibilionários com a previsão da ascensão do mercado de armas, ouro e petróleo. Assim, em frações de minutos algumas economias evaporaram e fortunas se consolidaram.
O cassino do capital não para; mudam os jogadores e até os edifícios que sediam os jogos, mas, a febre alucinada por mais lucro não cessa. Isto o que ocorre agora com o Brasil. Após anos de avanços sociais, políticos e econômicos chegou a hora do grande capital apresentar a fatura e recolher os lucros vendendo ações, clamando por redução de custos e ampliação da idade de aposentadoria sem maiores ganhos monetários para mantê-los ativos no mercado. Até a família vê ceder seus direitos com a redução da parte a ser paga ao pensionista. Nada fica de fora do lucro, da concentração de renda.

Neste ponto a crise política no Brasil cumpre o papel de reduzir direitos sociais e trabalhistas, entre outros, da seguridade social, em nome da empregabilidade, da redução do custo Brasil, em outros termos, em nome da ampliação da extração do lucro do trabalho assalariado para maior competividade no planeta em condições semelhantes aos dos piores países socialmente falando.
As crises hídrica e elétrica retiram do cidadão comum parte fundamental de seu salário e com isto subsidia as grandes empresas que podem fazer acordos para manter-se no Estado ou no município com  redução de custos. E, com isto, “apesar da crise” não se expande o direito ou se incentiva a produção de energia solar nas residências pois retiraria o consumidor do papel passivo de ficar sem recursos e colocaria como agente do mercado e ampliador de seu renda, ou seja, inverteria o papel da crise que é concentrar o capital e ampliar a exploração.
A crise política por sua vez escamoteia o sentido das ações políticas ao grande público tentando ocultar o poder das engrenagens econômicas no comando da política que é financiada pelas grandes fortunas durante a campanha e, por vezes, mesmo depois. Neste ponto, nota máxima, a manifestação da FIESP e FIRJAN pelo fim da “crise política” ao lado de uma das maiores redes de comunicação conclamando pela governabilidade de Dilma acenam para o fato máximo: os objetivos imediatos de ampliação dos mecanismos de lucro e controle social foram atingidos cabendo ao Estado retornar ao ponto de ampliação da produtividade e consumo.

Todavia, nesta equação só não se contava com um aspecto surpreendente, a desvalorização da moeda chinesa. Um susto que pode tornar a crise espetáculo em crise de fato, mas, no ponto final, “apesar da crise” a crise para quem? Para o cidadão consumidor e trabalhadores que vive o choro e o ranger de dentes; aos donos do capital, apenas a rotina do cassino.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Questão de processo de acumulação

A sociedade humana tem se notabilizado pelas formas violentas de exclusão ao longo da história. Temos mais tempo de solução dos embates pelo uso da força que do diálogo. Temos mais tempo de abuso de poder do que de Direitos Humanos. Temos mais tempo de escravidão legal do que defesa da liberdade e da igualdade e da fraternidade para todos. Temos mais tempo de Direitos do Homem que de Direitos da pessoa (gênero e de diversidade e pluralidade). E assim segue.
                Não por acaso muitos são incapazes de compreender o mundo atual. Com uma educação formal de qualidade duvidosa a solução mais fácil para ser o engodo mais a antigo: o uso da força, do constrangimento, da perseguição, da exclusão social, da prisão.
                No que diz respeito a exclusão social vários países encontram problemas para escamotear sua distinção entre cidadãos de primeira, segunda ou sabe-se lá que fração de classe.
Este o caso da proibição de menores em Centros de Compras que por definição seriam espaços privados de uso público. Assistir  autoridades jurídicas que deveriam defender a criança e o adolescente acabam por primar pela defesa do capital excluindo tais cidadãos de direitos da cidadania - exclusão por classe.
Ler que um juiz amplia a diferença étnica da comunidade negra – e não só desta – ao negar ao candomblé o estatuto de religião chamando-a de seita é ápice de um pensamento positivista, há muito criticado por suas limitações e discriminações, em favor de um grupo que se pretende dominante e em detrimento dos os outros, os não brancos, os não cristãos.

Perceber que a configuração do crime de racismo é letra morta, pois, a maior parte dos juízes são brancos e aos crimes de etnia e raça atribui o qualitativo de injúria, fazendo assim que a lei não tenha o efeito necessário e urgente diante de séculos de escravidão e de abusos diante da cor da pele que não a europeia é vexame internacional nas terras verdes e amarelas.
Ler diariamente, na mídia social mais popular do planeta, que além de homens – fato reiterado no machismo de plantão – mulheres atacam a presidenta exatamente por ser mulher e atribuir a isto a sua incompetência é a evidência do quanto a mulher branca das frações dominantes tendem a ser a maior parceira do machismo, como dizia Heleieth Saffioti, e reproduz uma violência da qual também é vítima no espaço privado e por vezes público.
E, no topo desta lista, fica o anseio desmedido de grupos que diante da violência reiterada da sociedade defende o nazismo, a ditadura e a exclusão como motes à luz do dia com a conivência cúmplice de instituições regidas por pessoas com convicções pessoais nada democráticas ou humanitárias.

                Temos muito que trabalhar educando para transformar a visão de mundo excludente em inclusiva, de discriminadora para plural e diversa, de coação para emancipação. Enquanto falarmos “deveria” e tivermos dificuldade de expressar o “poderia”... a liberdade será uma conquista e não um direito, apesar do adiantado da história.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Embates e manifestações

Alguns embates são milenares. Outros seculares. Embates Milenares assumem diferentes variações ao longo dos séculos. Este o caso da legitimidade da posição social, do status.
Uma das formas mais longevas de status é o nascimento. Do mundo grego, passando pela monarquia, aos “bem nascidos do capitalismo” é uma constante que encontrou diferentes formas de legitimação histórico-social-político-cultural-científico.
Ao mundo antigo e às monarquias interessavam o nascimento divinizado. Quer o herói grego – um semideus –, ou o nascimento de origem divina das monarquias absolutistas – mas, não como casos únicos na história – o papel do sagrado foi lapidar para a detenção do poder que subjuga, controla e explora a maioria da população. Num contínuum histórico do mundo antigo ao moderno o papel da religião foi fundamental para o controle social tido e havido como legítimo pela maioria das consciências.
Legitimar um mundo organizado, para os gregos, criado, para os cristãos, pela(s) divindade(s) foi papel desenvolvido pelas religiões clássicas e depois pelo cristianismo, primeiro católico e, posteriormente, também, protestante. Neste terreno o papel educador era predominantemente realizado pelas igrejas e seus anexos – conventos, mosteiros, escolas religiosas...
Todavia, a este poder divinizado que se escorava na estabilidade das relações sociais, econômicas, políticas e, sobretudo, na produção do conhecimento que não escapava aos limites do legitimado pelo poder, encontraria a crise em sintonia ao final do mundo moderno.
A substituição progressiva da nobreza e da realeza por outras forças na economia, primeiro, e depois, no poder de Estado, precisaria de outra ideologia – enquanto ciência das ideias – para legitimar-se no poder.
Não é mero acaso histórico que a obra de Charles R. Darwin, A origem das espécies, de 1859, tenha sido produzida depois da Independência dos EUA, 1776 – data da Declaração da Independência – da Revolução Francesa, 1789, entre outras datas republicanas que substituíram a monarquia como forma de governo legítimo e nobreza enquanto grupo de privilégios. 
Aquele mundo natural de ordem estável universal eterna da explicação religiosa, já não contemplava os interesses políticos, econômicos e culturais da nova classe que assumia o poder e fazia construir e impor sua visão de mundo. Neste ponto, substituir a ordem divinizada de saberes de verdades eternas imutáveis pela ordem científica de saberes provisórios era fundamento da legitimidade do poder que controla e explora a ordem social no capitalismo de tem como mote a circulação das classes - mais na teoria que na prática.
A origem das espécies traz uma ideia, primeiro ridicularizada pela religião e pela burguesia, devido ao seu poder original e exemplar, todavia, com o tempo, a elite capitalista e política das repúblicas notam seu papel legitimador da nova ordem em substituição a ordem monárquica. Embora a igreja permanecesse no discurso defendendo que o melhor dos regimes era a monarquia, na prática, esta perdia espaço a cada década.
Legitimar este processo histórico de substituição do poder historicamente construído e instituído  encontraria sua pedra de toque na ideia da evolução. Assim, a história seria uma evolução onde a transformação realizada pelos mais apitos iria se impor por uma questão de razão. Deste prisma evolutivo da sociedade humana, numa transposição grosseira do biológico para o cultural – Darwinismo social – a burguesia encontrou uma âncora para o seu poder. Os mais ricos, os mais adaptados a ordem capitalista e a seu modelo civilizacional seriam os que permaneceriam no jogo e a circulação das classes garantiria a equação.
Estas ideias, mais que criticadas pela humanidades, permanecem nas mentes e nos corações de muita gente que quer se auto representar e se autocompreender como ápice da elite evolutiva social, cultural, econômica e política. Neste ponto, parte-se para a deslegitimação e desconstrução de qualquer outro discurso que possa trincar o edifício “científico evolutivo” que tantos serviços prestaram e presta ao capital na legitimação de uma circulação das elites que pouco existe no plano real.
O Estado de bem-estar social seria uma das trincas deste edifício legitimador da ordem de controle e exploração da maioria no capitalismo republicano e democrático. Este Estado de bem-estar social visto no Brasil na letra da lei, há décadas, é o pomo da discórdia na política contemporânea. Mais ainda quando viabiliza de fato, e não apenas por direito, a ascensão de  frações de classes.
Certo grupo que se autocompreende como “elite” – não passando quando muito de classe média – se exaspera por ver como políticas públicas bem elaboradas, com eficiência e eficácia aplicadas, podem não ampliar o nível de status de todos, mas, antes, entendida como redução do nível de status das "elites tradicionais". A preocupação não é com o bem-estar coletivo, mas, com o sentimento privado de sucesso individual e individualista que se vê limitado pela possibilidade de uma parte da sociedade, que era mantida na miséria como plataforma de exploração ad infinituam, ser minimizada em seu grau de aviltamento.
Neste ponto de disputa, qualquer ator social que possa parecer “trair” sua classe em nome do bem-estar é severamente punido. Os exemplos não são poucos: o advogado fotografado em camisa sem mangas e vilipendiado como se fosse mais um dos disponíveis ao clamor de uma distinção entre os que podem ou não estar no aeroporto e voar; Jô Soares ao entrevistar a Presidenta foi ameaçado de morte; o príncipe da Sociologia FHC destratado por defender a possiblidade de inocência evitando o pré-julgamento que tanto agrada aos defensores do Estado de exceção, da Ditadura e do autoritarismo.

Estas vertentes de uso da força como meio de legitimar o poder, pensando que fazem parte da elite evolutiva que nunca existiu, apesar do nazismo que implica, é uma excrecência histórica no século XXI. Afinal, a democracia pode e deve conviver com o diverso, o plural, e neste incluso, o direito a vida e manifestação de nazistas, ditadores, autoritários e outros naipes ao mesmo estilo. O que a democracia não pode é permitir que estes grupos assumam o poder de legitimar a ordem e de tomar o poder. Mais que isto, a democracia precisa cumprir o papel de educar e evidenciar que por trás de nomes como “Brasil Livre” estão pontos de vistas duvidosos na referência democrática e um de seus baluartes, os Direitos Humanos.
Afinal, se o uso de termos belos à sociedade democrática – mesmo que evolutiva -  fosse garantia de bem-estar o lema do PCC poderia ser aplaudido em praça pública pelos incautos e desinformados: “Paz. Justiça. Liberdade”.

Ao sair as ruas nas próximas manifestações lembre-se, não pode os meios democráticos de participação, de liberdade, de expressão serem meios para legitimar a ausência de liberdade, de Direitos Humanos e do Estado Democrático de Direito. 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Justiceiros?


@ justiceir@ parte da ideia de que é capaz de fazer justiça tomando para a si a capacidade de decidir o que é justo, moral, injusto, imoral, criminoso ou ilícito em conformidade ao senso comum palatável a cada cultura em seu tempo e espaço em detrimento da função do Estado; considera que as instituições não são capazes de realizar a justiça com o mesmo rigor e urgência. Tomado pelo sentimento de injustiça toma para si a ação que seria do Estado e, à margem da lei, portanto, incorre em crime. Partem, @s justiceir@s para fazer justiça com as próprias mãos quer sejam civis ou representantes do Estado.
Fortalece-se o fenômeno do justiceiro na medida em que o Estado não reprime tais ações, por seus meios legítimos e legais, com eficiência e eficácia. É fenômeno que reflete a ineficiência ou ausência do Estado e, mais que isto, uma certa conivência silenciosa com o statu quo social, mesmo que ilegal, de fazer justiça com as próprias mãos da turba pouco educada – uma cumplicidade baseada em valores sociais que não são legitimados pela ordem legal e dos Direitos Humanos.
O Brasil tem assistido ao crescimento desta ação em diferentes campos sociais face a quase inoperância do Estado.
Do ponto de vista religioso a quebra ou desfiguração de imagens católicas, em praças públicas ou templos que são invadidos, tem a mesma raiz e tem se tornado rotina e tem sido ignorada a sua importância social enquanto deslegitimação do patrimônio histórico cultural e artístico do cristianismo católico em favor de outras visões religioas em franca expansão em número de votos e ausência de ecumenismo ou tolerância religiosa, nem escreverei sobre aceitação religiosa. Não é preciso evocar que se aproximam, tais ações, do justiçamento realizado pelo Estado Islâmico que destrói imagens históricas milenares em nome da religião enquanto instrumento político de controle e exploração. São, na realidade, uma vergonha para o islã.

Na mesma linha de conduta de justiceiro, Kailane Campos, com 11 anos de idade e iniciada no candomblé, foi alvo, no dia 14 de julho de 2015, de cristãos, numa denominação genérica de evangélicos, que denigriram e insultaram a jovem e a avó dela, a mãe de Santo Káthia Marinho. Segundo esta “O que chamou a atenção foi que eles começaram a levantar a Bíblia e a chamar todo mundo de ‘diabo’, ‘vai para o inferno’, ‘Jesus está voltando’" e, assim, com a Bíblia em uma mão e uma pedra na outra fizeram da menina alvo de “apedrejamento” em praça pública. O caso foi registrado como lesão corporal, provocada por pedrada, preconceito de raça, cor, etnia ou religião. Na prática assumiram o papel de justiceiros ao ressuscitar o apedrejamento bíblico, uma demonstração de questionamento da ordem do Estado Laico na firme certeza de que ficariam impunes. Afinal, no Brasil o crime de racismo não alcança os brancos sempre condenados por injúria racial, fazendo-se assim, cúmplice com a letra morta via judiciário.
O arcebispo do Rio de Janeiro atento ao que ocorre na sociedade  - e com sua Igreja em particular – e as repostas (ou seria a ausência desta) dadas pelo Estado aos crimes de depredação de imagens religiosas católicas, somou sua voz a de Kailane Campos e Káthia Marinho.
Em um outro vértice da mesma questão, no dia 6 de julho de 2015, foi espancado até a morte Cleidenilson Pereira Silva, em São Luís, no Maranhão, após tentativa de assalto. E, não é caso isolado no Maranhã ou no Brasil. É de se notar que o linchamento atingiu com vigor o “suspeito” negro e poupou a vida do indiciado “branco”.
A impunidade dos justiceiros é garantia de repetição em meio a uma população entre cúmplice e algoz, quando não vítima. Mais que isto, a fala contra os Direitos Humanos de tantos “ilustres” da mídia, neste campo minado de direitos, com redução da idade penal aplaudida por parte significativa da sociedade, faz surgir candidatos aos executivos municipais, eleição de 2016, onde este caráter justiceiro – uma releitura do caçador de marajás, só que voltando a ira secular das injustiças sociais e judiciais, agora, para os mais pobres – passa a ser tônica simbólica. Não por acaso nomes como Datena e Russomano, além de militares e delegados, vêm à baila com “notoriedade”.
 Ou, para além disto, nas manifestações contrárias ao governo federal de Dilma Roussef palavras de ordem pela ditadura – o que é crime – alardeiam-se ao calor do dia com a cumplicidade das autoridades que refletem o pensamento mais que secular de que política social é questão de política e não de política pública.
Tristes tempos onde o Estado é quase de exceção, onde a ausência da eficácia do direito suspende o Estado de Direito, e parte da população vibra com isto – diante da exploração que são submetidos vingam-se dos andares de baixo. Isto demonstra a nossa fragilidade enquanto nação democrática de direito.







domingo, 12 de julho de 2015

Cristiano Araújo na voz de Zeca Camargo: a questão da “crítica da arte”

Quanto Immanuel Kant (1724-1804) abordou a questão da estética e o papel do artista afirmou que o gênio artístico é original e exemplar, ou seja, é o formador de novas regras na arte que produz a tal ponto que se torna exemplo a ser observado pelos demais artistas da área em questão. Este o traço das contribuições originais. Cristiano Araújo passaria por esta peneira?
Pela peneira de Kant, possivelmente, passaria Aleijadinho, Oscar Niemayer, Machado de Assis, Heitor Villa-Lobos, Elis Regina, e alguns outros. Bem poucos outros!?
Zeca Camargo não errou ao analisar a produção artística de Cristiano Araújo. Equivocou-se no tempo que o fez. Não analisou a comoção popular como elemento do show business, da lucratividade da indústria cultural que pouco ou quase nada quer com o gênio ao estilo definido por Kant por propiciar pensamento e sentimentos livres e autônomos que podem tirar o povo da massa consumista.
Cristiano Araújo é fruto de seu tempo e espaço. Conhecido “nacionalmente” estava num terreno entre a cultura popular e a mídia de massa; num ponto onde o sucesso está marcado pela lógica do lucro e pela da exposição visceral. Onde o músico é produto temporário, mas, no emergir tem força suficiente para movimentar milhões pelas massas que o consomem no formato de shows, CDs e DVDs, conteúdo de jornais, revistas, sites, etc. Assim, e não por acaso, uma de suas maiores defesas foram a cifras que movimentou no país enquanto vivo e, para o lucro do espetáculo sua morte renderia ainda mais pela comoção que se ameniza pela via do consumo das “últimas lembranças”.
Zeca Camargo ao buscar fazer uma autocrítica, no sentido de viabilizar uma análise do meio do qual é fruto, a mídia de massa com sua lucratividade pela “arte” produzida em massa e quase unitemática – o alienante amor burguês individual e individualista que faz do outro objeto e não sujeito do amor, onde o “caipira enlatado em moldes semi-norteamericanos é o ápice da “sofrência” egoística – terminou por expor o quanto o público da mídia de massa é limitada pelo próprio meio que a (des)educou e vista diante do espelho ignaro se recuou a olhar o espelho o narciso Zeca se refletia.


O choque não poderia ser menor para um público colocado diante de uma crítica feita magistralmente pela Escola de Frankfurt. O trauma comovente uniu as massas, as mídias para a inquisição midiática do crítico que se rendeu penitente e pediu desculpas diante do fato, já assinalado pelo kant – que possivelmente poderia ter inspirado um Zeca Camargo crítico – a razão cria monstros que a própria razão desconhece!