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sábado, 18 de outubro de 2014

Eleição presidencial ou a corrupção por mote?

Wlaumir Souza
O poder corrompe ou o poder revela? Estas são questões que remetem às questões, respectivamente, filosóficas, de Rousseau – nascemos bons e a sociedade nos corrompe – ou, em Hobbes, o Homem é o lobo do homem. Estas teses até hoje não chegaram a uma síntese que satisfaça o pensar e o viver, a teoria e a prática, o dominante ou o dominado.
Todavia, as eleições de 2014 colocaram em relevo um fato inequívoco. A corrupção graça à direita ou à esquerda, mesmo estando estes conceitos mais que esgarçados pelas alianças políticas que, do ponto de vista histórico, seriam impensáveis há pouco mais de uma década, devido ao grau de espúria que remeteria.

Assistir o PT unido a Fernando Collor, Paulo Maluf, José Sarney (entre outros); ou o PSDB unido a Marina Silva – que só perde em personalismo político, hoje, para LLulla e FFHH –,  Eduardo Jorge (entre outros); é no mínimo constrangedor para quem não abandonou o programático em nome do pragmático.
Mais que isto, evidencia que a corrupção no país atingiu um nível suprapartidário pela demanda do poder ou o nível suprapartidário atingiu a corrupção pela demanda do poder? Em outros termos, o corrompido e o corruptor se confundiram numa simbiose onde o colorido partidário perdeu qualquer acento possível?
A pasta rosa, o mensalão, o metrô paulistano, o mensalão, o nepotismo... e, infelizmente, quase que um etc faria sentido nesta frase .Se no primeiro turno vimos um desfilar de acusações mútuas entre os que ocuparam/ocupam cargos eletivos, no segundo turno, inimigos aparentemente irreconciliáveis, devido as denúncias que se fizeram e as bandeiras que agitavam,  se uniram numa amnésia estarrecedora das denúncias alardeadas em cadeia nacional e em horário nobre - onde o público alvo era a classe média em diante.
Estas denúncias de parte a parte parecem ter como fim a banalização da corrupção uma vez que nenhum dos denunciantes é visto às voltas com promotores e juízes demandando por justiça, salvo, o raro caso do mensalão. Mais que isto, parece uma discussão de compadres políticos em meio a possibilidade remota de uma cisão de fato e não só de direito.

Há um misto de mal estar na sociedade atônita com o fato de que tanta lama possa correr em meio a campanha e tão pouca justiça se veja cumprir – inclusive pelo sucateamento do aparato do judiciário que vem desde o Império – com cumplicidade singela ao pensamento e a prática dominante na conformação das consciências.
E, em decorrência da banalização do mal da corrupção organizada, vota-se quase apático nos membros das elites partidárias que representam o estereótipo do poder partidário, ao se candidatarem. Os candidatos e seus partidos são votados não devido a cumplicidade real do povo com a corrupção, antes pela ausência visível de candidatos com programas capazes de representar a demanda social por justiça e dignidade. A vertente explicativa que quer culpar a vítima do sistema pelo sistema diz que o povo tem o governo que merece, mas, muito pelo contrário, o governo que o povo tem é o que a elite permite ter, quer seja econômica e/ou partidária. Vergonha das vergonhas visto que todos, neste ponto, querem ser os meritocráticos da ética e da conduta ilibada.
Melancólico trópico onde a denúncia fica quase vazia gerando um tipo de denuncismo desconstrutor da democracia. Não visa a justiça ou a real representação das aspirações populares como aquelas advindas de julho de 2013, as denúncias.
Da maneira que andam os debates presidenciáveis – ter-se-á de escolher entre "meritocracia com corrupção” ou "distribuição de renda com corrupção”, pois, não há outro modo de votar. O sufragado será o mais votado visto que o povo não pode invalidar a eleição por maioria de votos brancos e nulos. O povo vítima, depois, será o culpado do sistema nos alardes da elite que controla as mídias e, em parte, as mentes dos corpos sofredores das conseqüências eleitorais, quer de um grupo pela "tolerância" com a inflação, quer de outro pelo "choque de desemprego".


A manifestação da indiferença (voto em branco) ou inconformismo (voto nulo) pode ocorrer, mas, o sistema foi criado para andar sem estes num arremedo de voto oligárquico onde, por vezes, a minoria envolvida por parentescos mil, apaniguados outros, aparelhamentos os mais diversos, interesses privados tantos, votam e tão poucos sustentam o devir democrático onde o saber permanece como poder.

sábado, 19 de outubro de 2013

Presidente ou Presidenta?

Presidente ou Presidenta?

Postado em 20 de Outubro de 2011 às 11:10 na categoria Caleidoscópio
Por Wlaumir Doniseti de Souza
Somos controlados por padrões culturais de comportamento, pensamento e sentimentos. Todavia, somos capazes de perceber essa dominância quando, por algum motivo ou razão, estamos em desacordo com a norma ou esta nos desprestigia, entre outros, confirmando-se, assim, que existe a possibilidade da liberdade e da superação dos modelos implantados.
femininofeminino

 A forma mais elaborada de dominação é a linguagem, falada ou escrita, mas com ênfase na segunda. Não é por acaso que o Estado detém o controle formal da gramática, cabendo a ele a possibilidade de reforma ortográfica entre outros privilégios no controle da norma. Todavia, a sociedade pode reagir a este controle por variados meios, como a criação de palavras e usos não regulamentados. Constitui-se então um embate aparentemente inofensivo, mas de alcances nada modestos.
Neste sentido poderíamos retornar à discussão 1) dos livros didáticos com linguagem coloquial; 2) o uso dos termos ocupação ou  invasão quando se borda a questão do MST e outros movimentos sociais; 3) quando diz-se que ocorreu um bate-boca ou discussão ou debate. O termo utilizado, mais do que relatar o que ocorreu no mundo, indica uma tomada de posição que pode ir do pessoal passando pelo partidário ao ideológico.



O problema maior é quando o ouvinte ou leitor não é capaz de refletir ou elaborar os significados neste campo de disputa dos sentidos e significados. Neste ponto a questão de gênero não fica de fora, pelo contrário, evidencia o quanto a mulher pode estar sob uma dominação que a constrange ao segundo lugar da cidadania. Um exemplo simples é o uso  do masculino para se falar englobando o masculino e o feminino. O simples fato de não existir tantas palavras de uso duplo, quando ao gênero, evidencia que o homem viria/vem em primeiro lugar na cidadania. Neste ponto, gostaria de salientar um desses embates lido ou ouvido todos os dias.

supremacia supremacia

No início – e não apenas ali – do Governo Dilma Roussef (PT) esta anunciou que preferiria ser chamada de presidenta. Era para ser algo simples, uma vez que previsto na norma erudita a forma presidenta da palavra, mas se complexificou a questão. O fato das mídias adotarem o termo presidente – no masculino – evidencia uma tomada de posição de mão dupla. A primeira de que está na oposição ao governo e, a segunda, e menos visível, é que os meios de comunicação estão acordes de que o feminino existe para ser controlado, dominado e explorado e não para presidir ou ser cidadã de primeira classe ou igualitária. Agora pense que palavra você usa – presidente ou presidenta – e veja de que lado você está, não só da questão partidária, mas, nas disputas por espaço, cidadania e ideologia.