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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ebola, bioética e racismo no século XXI: a procura de cura para os brancos?

Wlaumir Souza

Historicamente, a maior parte das atrocidades cometidas na área médica foram/são direcionadas contra as pessoas que, genericamente, foram/são de denominadas de socialmente vulneráveis. Esta expressão, politicamente correta, oculta que o alvo fácil das pesquisas, da exclusão da profilaxia, diagnóstico e terapêutica são os sujeitos históricos que não se enquadram no estereótipo do dominante vencedor tradicional: homem, branco, heterossexual, mentalmente "competente" e economicamente privilegiado.
Assim, mulheres, negros, pobres e pessoas com algum nível de debilidade mental foram utilizadas das mais diferentes formas inescrupulosas para os avanços da área médica. O maior alarme soou com o Nazismo e seus campos de concentração com atividades de pesquisa denominadas médicas. Mas, não foi apenas no regime nazista que tais aventuras inescrupulosas ganharam asas. Nos EUA, por exemplo, de 1930 a 1970, tem-se o Caso Tuskegee, no Estado da Alabama. Neste caso, aproximadamente 400 pessoas negras foram deixadas sem tratamento de sífilis para se compreender a história natural da doença. Isto em uma época onde já te tinha tratamento comprovado e, sem que as pessoas envolvidas soubessem que participavam de um estudo. Assim, países denominados livres podem utilizar-se da ciência e da tecnologia sem levar em conta princípios éticos ou morais fundamentais a dignidade do ser humano com vista ao lucro científico.

Pior que isto, em meio ao processo histórico de legitimação do poder supranacional dos EUA na segurança e ordem do mundo, após a derrota dos nazistas e descobertas as atrocidades contra a humanidade, incluso as questões de saúde, foi publicado o Código de Nuremberg, no ano de 1947, pelo Tribunal Internacional, no afã de proteger as pessoas de/nas pesquisas médicas e demais procedimentos.
Todavia, o desafio não parou neste ponto. Anos depois, outros documentos históricos e fundamentais foram publicados na ampliação da concepção e alcance da bioética: Declaração de Helsinque, em 1964 e atualizada de tempos e em tempos; Informe Belmont, de 1978, entre outros instrumentos lapidares da ética na defesa da dignidade humana, animal e ambiental.
Porém, tudo isto não foi suficiente para por termo a exclusão profilática, diagnóstica e terapêutica ou a possíveis abusos em pesquisa ancoradas na exploração e dominação. O melhor exemplo para ilustrar isto é o vírus HIV e o Ebola, frutos das relações humanas com a natureza no século XX.
A pesquisa história do vírus HIV desenvolvida pelas Universidades de Osford e Leuven demonstraram que o mesmo surgiu no início do século XX, pelo uso de carne de chimpanzés, na região de Camarões e até a década de 1921, quando chegou à capital do Congo Belga, atual República Democrática do Congo, foi uma infecção regional. Depois disto, nos anos 1980 iniciou a ser diagnosticada nos EUA e tornou-se uma pandemia que já infectou mais de 75 milhões de pessoas. No momento que deixou de ser uma preocupação com negros e pobres africanos a ciência capitalista se envolveu com ardor na pesquisa de possível cura e/ou tratamento. A razão instrumental se fez sentir com sua força nos países livres.
No caso do Ebola, a situação histórica não é totalmente diferente. Foi identificado pela primeira vez no norte da República Democrática do Congo, em 1976, e foi contido pelo isolamento da população controlada pelo exército local e Organização Mundial de Saúde. Outros surtos se seguiram nos anos de 1995, 2003, 2007, 2012, e o maior número de pessoas envolvidas não ultrapassou a 220 doentes por surto, sendo todos restritos a área da África subsaariana. Todavia, aquilo que foram surtos com negros e pobres tornou-se epidemia e chegou à Europa e EUA. Hoje somam mais de 8000 pessoas que foram infectadas e mais de 3000 mortes.

Neste ponto, HIV e Ebola tem uma história em comum. Enquanto “surtos”, que dizimavam negros e pobres africanos, as medidas eram paliativas e os investimentos mínimos. Uma vez que adentra nos principais países capitalistas de população majoritariamente branca faz soar o alarme e novos fármacos iniciam o avanço para uma lacuna de experimentação, em especial na África.
Fica a questão, quantos documentos mais serão necessários para que a saúde enquanto profilática, diagnóstica, terapêutica não excluam os socialmente vulneráveis da sua dignidade humana e urgência no direito ao tratamento eficiente e eficaz? Quanto tempo ainda será necessário para que os surtos façam soar o alarme mesmo quando atinge "apenas" pessoas pobres, negras e mulheres? Parece que a lição ainda não foi aprendida apesar dos avanços documentais e quem mais uma vez pagará o preço será, no século XXI, a África transformada em laboratório a céu aberto para curar os brancos recém contaminados?







quarta-feira, 5 de março de 2014

As mazelas do carnaval ou como ser outro.

              Wlaumir Souza.     
A internet viabilizou a potencialização de vozes outrora silenciadas pelos meios de comunicação de massa e pelo Estado laico e amplificou o impacto de grupos organizados ou não na defesa ou ataque as mais diferentes questões sociais, políticas, culturais, econômicas e de gênero entre outras. O sinal mais visível desta mudança comportamental on-line com impacto direto no mundo do ser e estar no mundo são as manifestações que se proliferaram pelo mundo democrático ou não, mas, com acesso relativamente livre à internet.
Votos outrora granjeados, mas pouco ou nada atendidos após o pleito, tem sido uma tônica cada vez mais explicitada nos meios de massa de comunicação – facebook, twiteer, entre outras infinidades de ferramentas disponíveis a um clique e com baixíssimo investimento para os padrões anteriores da imprensa escrita, televisiva e de rádio, onde o rádio amador foi um dos precursores do “livre manifestar o pensar que conduz à ação com 'baixo investimento' ”.
Como podem se evidenciar enquanto excluídos do sistema e não sendo mais possível silenciá-los, atender as demandas tem sido o desafio de um Estado acostumado ao controle social de modo hierárquico com pactos históricos com as elites econômicas, políticas, sociais, religiosas e muitas mais, onde o pragmatismo que mudava a realidade do povo era trocado por projetos bem financiados ou títulos ou processos engavetados ad aeternum...
Na década de 2011 estes títeres da humanidade passaram a ter de compor o poder com atores pouco estrelados, o povo. Assim, para dar satisfação ao eleitorado conservador, e mesmo retrógrado, em número nada desprezível, tem crescido a propaganda de que o dinheiro do carnaval poderia ser revertido para outras atividades socialmente mais relevantes como a saúde e educação públicas.
Neste baile de máscaras a última coisa que se deseja, por parte das hostes do sistema, é serviço público realmente de qualidade que concorra com a iniciativa privada. Todavia, o jargão em ascensão de transferir os recursos públicos da maior festa de rua do Brasil tem aliados históricos: o racismo – que busca pelos meios mais discretos possíveis, após a lei antirracismo, anular a influência da etnia negra no país. Sonho compartilhado por algumas denominações religiosas onde a expulsão de morros tem sido apenas o sinal mais visível. Mas no embate das “crenças” o complicador tem sido o ataque quase sistemático a cemitérios com seus símbolos religiosos católicos, algo vivido há muito por judeus. Ou seja, estas gentes que “conversam” com Deus não se entendem.
Mas, politicamente, estas turbas discricionárias têm feito de tudo para maquiar o que de fato ocorre. Racismo excludente, onde for possível, da cultura negra em todas as suas vertentes do samba às músicas contemporâneas que descem do morro para o asfalto ou saem das favelas.


A reação tem sido a mais simples e com os olhos no espelho retrovisor. Os blocos se avolumam independente do poder público e com muito poder social organizados quer pela classe média, negros ou gays. Afinal, o povo canta e dança com os versos de “Não deixe o samba morrer” pois sabem da falácia de que os poucos milhões da cultura farão curativo na saúde. O remetido é outro, prestação de contas transparentes sem desvio de verbas de uma pasta à outra ao sabor da hora eleitoral.

https://www.youtube.com/watch?v=O85aPBh99P0&feature=kp