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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Bolsonaro e a revolta do senso comum e religioso


A cada nova eleição é renovada a esperança de tempos melhores. De uma economia estável e próspera sem inflação e juros baixos, de uma sociedade mais participativa, de um congresso mais ético e representativo da vontade nacional, entre tantas outras questões da fé política, como o fim da corrupção de um mandato para outro.
Quando se elegeu Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Sivla, Dilma Rousseff e agora Jair Messias Bolsonaro todas estas questões de fé política estavam presentes. E, cada vez com maior vigor a busca de um representante que tivesse um governo onde não houvesse corrupção. Recordando que este ciclo democrático iniciou-se sob o lema das cores da bandeira na busca do fim dos marajás. Seria o fim da Nova República?
A busca do povo por um governo e um Estado honestos é legitima e, mais que isto, demonstra que a crise sucessiva, e até aqui infinda, que se vive neste País tem esgarçado cada vez mais o tecido social que viabiliza a solidariedade social. E, contradiz, o complexifica o dito popular de que o governo é a cara do povo. Ao menos na busca da honestidade parece divergir nos anseios.
Todavia, se no passado a dependência de instituições para organizar movimentos era premente o que equivalia a dizer que se veria mais do mesmo na política. Agora, com as redes sociais altamente popularizadas no Brasil, elas se tornaram um veículo que podem fazer eclodir insatisfação generalizada por movimentos de ação direta cada vez mais reais no cotidiano. O que remete ao fato de que ao sistema econômico capitalista que se alimente de crises somou-se a crise constante na política.
Em boa medida isto se faz pelo desgaste das instituições que deveriam representar o povo ou interpretar sua vontade: os três poderes. Interessante notar que a insatisfação que seria dirigida principalmente aos políticos por não representarem a nação tem se movimentado contra o judiciário e , agora, também, os professores pelo discurso mesmo da política partidária.
E isto faz parte do processo histórico de transformação do projeto burguês que teve na origem a cumplice da ciência e da filosofia. A ciência com seu saber prático, metódico, testado e validado desbravou o mundo para o avanço do lucro burguês e desmistificou o poder da religião e da metafísica que legitimavam as monarquias, eram as raízes da razão instrumental. A Filosofia, por sua parte, elaborou todo o discurso para legitimar a propriedade privada e a representação social via eleições (de burgueses) e da tripartição dos poderes democráticos e republicanos.
Assim, se o projeto burguês se contrapunha ao monárquico, logo o projeto burguês faria emergir o seu contraditório. E isto se deu para além do povo, isto ocorreu sobretudo no século XX com a popularização da ciência que saiu do privilégio burguês e se espraiou pelo subproduto do capitalismo, as classes medianas, de onde a conscientização constante deste grupo que os interesses burgueses não eram os seus.
Boa parte destas classes medianas dedicam-se aos ramos da ciência que permanecem cumplice, e por isto mesmo mais bem remuneradas, com o projeto burguês de ampliação do lucro a qualquer custo social.  As áreas técnicas e teconológicas líderes por excelência da manutenção e avanço da razão instrumental.
Contudo, as humanas, que outrora legitimaram o projeto burguês de democracia republicana, ampliou seus horizontes para perspectivas não gratas a burguesia. As questões sociais. Isto foi uma ruptura na interpretação da realidade que se aprofunda com as teorias críticas do sistema. Uma traição ao burguês que teve como principal aliado de seu projeto político e produtivo a ciência e a filosofia.
Isto posto, a burguesia reage àquela que seria sua matriz de pensamento e busca pôr freios a esta produção de saber e celebra seu casamento com a religião. É o coroamento do pensamento conservador. Mas, para cada tempo sua religião predominante é construída aos moldes dos interesses a legitimar. No nosso caso é o lucro o deus a ser contemplado encontra melhor espaço na teologia da prosperidade mais ampla entre evangélicos.

Passo a passo em meio a redes sociais que são o paraíso do senso comum vê-se a ciência e professores serem questionados por piadas e trocadilhos aparentemente pueris, mas que tem como pano de fundo deslegitimar a ciência humana em nome da religião. Uma melhor parceira para o projeto burguês, pois que desenvolve servos em meio ao que seria cidadão.
Assim, edifica-se uma contradição mais profunda no projeto burguês. A necessidade da aparente irracionalidade e do caos em seu devir aos olhos do povo. O espaço propício a revolta do senso comum diante do fracasso do projeto neoliberal em andamento.
É neste contexto que se inscreve o lema de Jari Bolsonaro – Brasil acima de tudo, Deus acima de todos; e o projeto “Escola sem partido”. É um lema que apaga as individualidades cada vez mais valorizadas pelas ciências humanas e professores,  e negada pela religião ao (in)por modelos para todos numa negação da contradição entre maioria e minorias.
O caldo está pronto. Veremos a que nos levará em meio ao senso comum e da religião em detrimento das ciências neste governo que se iniciará.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A palavra do ano de 2017: RETROCESSO

Enquanto para o senso comum, via votação pela internet, a palavra do ano é corrupção, defendo que a palavra do ano acadêmico é retrocesso, bem como para as políticas públicas, as relações de trabalho, a igualdade de gênero e de etnias tudo isto devidamente azeitado pelo pensamento e governo conservadores, para não dizer retrógrados. O atraso teima como parte de nossa matriz cultural política e um governo conservador do PMDB só fez crescer esta vertente cultural face aos progressivas quer na arte, na política(s) ou na economia.
Enquanto na Europa, do século XVI, o velho pacto entre Igreja Católica e Estado estava no início de sua lenta e progressiva decadência face ao secularismo e a laicização patrocinadas pelas raízes da ciência e até mesmo pela reforma protestante de Martinho Lutero, 31 de outubro de 1517; no Brasil, o velho modelo religioso de origem medieval era patrocinado via padroado. Este era um acordo político entre Roma e o Rei de Portugal onde caberia ao Estado o mando e o patrocínio sobre a Igreja local do Brasil.
Na Europa este tipo de acordo, que andava de mãos dadas com a compra de indulgências para salvar as almas, era criticado por aquilo que se chamaria depois, ao longo da história, por liberalismo construído em boa medida por burgueses e intelectuais laicos. A Europa mercantilista que se baseava no metalismo encontrou uma nova força para a sua prosperidade, a burguesia e o protestantismo, e iniciava o abandono das forças então retrógradas da nobreza aliada a Igreja e suas superstições que depreciavam o saber acadêmico, quando não o perseguiam.
A burguesia enquanto classe ainda não se fazia presente, mas seus germes eram em favor da dinamicidade econômica que se demonstrava cada vez mais viável via expansão marítima e da educação. Mas, para conseguir tal feito era necessária a aliança com a nobreza retrógrada, sobretudo no que tangia às colônias que deveriam ser profundamente exploradas em sua alma e corpo, e com as igrejas que controlavam os colégios via mosteiros e conventos. Mas, muito mais que isto, a burguesia precisava do que se chamaria depois de classe média – pessoas que sabiam ler, escrever e contar e para esta expansão o protestantismo foi fundamental ao defender a livre interpretação das escrituras que pressupunha o saber ler. Ou seja, em boa medida o protestantismo não se destinava aos mais pobres e ignaros.
Neste sentido, embora à burguesia europeia fosse mais proveitoso a aliança com intelectuais laicos e pesquisadores práticos, no Brasil a melhor aliança para a manutenção da ordem escravista e escravocrata era com a Igreja Católica, esta a mãe perfeita para o projeto explorador.
Não se abriram universidades no Brasil Colonial e os poucos afortunados que podiam enviavam seus filhos para estudos em Portugal onde conheciam as ideias burguesas que via de regra não colocariam em prática no Brasil consolidando nosso discurso metafísico do direito enquanto a política prática chafurda com os podres poderes da corrupção.
Para manter o atraso da Colônia o melhor caminho era a aliança com a Igreja que entrava em decadência na Europa, a Católica, face aos protestantes que flertavam em público com o Estado mercantilista, o metalismo, a matemática e o lucro da burguesia como práticas que evidenciavam as bênçãos de Deus. Invertia-se o discurso da Igreja Católica de usura e com isto protestantes colaboravam com os avanços do que se chamaria liberalismo econômico.
Da Colônia ao Império o padroado foi mantido e com ele todos os acordos com a Igreja Católica que garantiam os atrasos das gentes do Brasil e o controle via educação de conventos e mosteiros do pensamento das camadas favorecidas.
Apenas com a República e a tomada do poder por certos liberais e positivistas que a ciência passou a ter maior oportunidade no Brasil e, mesmo assim, apenas na década de 1930 inicia-se o projeto USP no Estado que se considerava a Locomotiva econômica e cultural, São Paulo, mas mantendo o acordo de educação de jovens nos colégios católicos, poucas eram as escolas laicas e secularizadas que poderiam fazer avançar a educação científica e suas práticas e valores.
Nestes moldes do projeto USP que se espraiaria lentamente pelo Brasil via universidades estaduais e federais, o liberalismo oligárquico branco e masculino mantinha-se como fundamento das ações e estratégias de poder da burguesia que fazia uma dicotomia entre a cultura de elite letrada e a popular de corpo religioso. Aos filhos dos bem nascidos economicamente ou mesmo intelectualmente estava destinada uma vida tranquila na academia mantida pelo Estado e na antessala da educação patrocinada pela Igreja Católica. Não por acaso que a única grande universidade privada do Brasil a conseguir fundos do Estado para educação foi a PUC.
Este projeto oligárquico de poder intelectual aliado ao poder econômico não fazia sombra ao velho projeto de dominação e controle social via religião recheada de preconceitos e discriminações implantados na Colônia, mantido no Império e dicotomizado na República. Mas a dicotomia entre os mais pobres educados pra fazer e obedecer e os melhores aquinhoados economicamente e educados para pensar e mandar apenas se aprofundou ao longo dos anos via saber universitário.
A sombra neste projeto de poder foi estabelecida pelo avanço sem precedentes da educação técnica e universitária sem no governo federal do Partido dos Trabalhadores. A expansão das vagas universitárias públicas fez avançar de modo reformado e reestruturado o projeto USP de uma elite intelectualizada e secularizada ultrapassar as fronteiras de classe e com isto vazar para a sociedade mais ampla, em especial, para os mais pobres, negros e LGBTTT.
Isto era e é um risco para o poder tradicional burguês do Brasil que via na religião seu modus operandi de controlar e explorar os mais pobres e o País. Para além das camadas médias que serviam de bom grado às elites em troca da vida tranquila e previsível economicamente, outras ascenderam à universidade e com isto ao pensamento laico e secularizado de padrão historicamente burguês, mas agora, sobretudo buscando romper os laços com o “colonialismo” tergiversado na República.

Frear tais forças de transformação social demonstraram-se urgente ao projeto oligárquico que se esboroava. Deste prisma, precarizar para desmontar as universidades públicas e as escolas técnicas federais passou a ser urgente para evitar a circulação das elites no Brasil, ao mesmo tempo que se corta a subvenção das faculdades privadas via bolsas de estudos. Havia agora uma massa crítica de doutores capazes de criticar a dependência e a corrupção, a mesma que fez o projeto Dilma Roussef naufragar.
Para tanto foi-se de encontro as forças mais conservados disponíveis na religião de fundo tradicionalista e dos evangélicos, estes mais subproduto que herdeiros do protestantismo, mas, no Brasil, inversamente mais conservadores e menos liberais; e especializados em “vender indulgências”, agora, para salvar o corpo, em paralelo a tudo isto, a aliança com as forças do agronegócio.
Desmontar os avanços da educação crítica, laica e secularizada tornou-se urgente para a burguesia brasileira e seus políticos de plantão uma vez que com a pesquisa avançada via inteligência nacional desconstruíam o poder dominante. Para além disto desmontar a pesquisa de ponta realizada nos laboratórios do Brasil em favor das forças neoliberais a que servem no plano internacional.
Enquanto a Europa buscou e busca avançar na laicização, na secularização e na aliança entre ciência e burguesia, o Brasil parece fazer o caminho inverso tomando a burguesia a ciência como uma opositora ao seu  poder. Talvez, isto se dê pelas premissas diferentes de poder, enquanto os Europeus arduamente buscam manter sua autonomia e protagonismo global via unidade europeia e para isto o investimento na investigação científica é fundamental, o Brasil oligárquico e de caciques políticos parece não conseguir abandonar o colonialismo travestido de dependência. E, para isto a religião em seus moldes tradicionais é fundamental, pois, só acreditando que o sofrimento tem um papel fundamental na existência podemos continuar a nos submeter a super exploração.
Assim, dependência não no sentido defendido por Fernando Henrique Cardoso, mas, antes e sobretudo, no de Ruy Muro Mariane. Pois, enquanto na Europa nos momentos de crise se investe mais em ciência de ponta, por aqui o governo Temer e seus aliados desconstroem o espaço da ciência de qualidade em proveito da religião como forma de explicar o mundo e censurar da arte à escola.

Wlaumir Souza

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ebola, bioética e racismo no século XXI: a procura de cura para os brancos?

Wlaumir Souza

Historicamente, a maior parte das atrocidades cometidas na área médica foram/são direcionadas contra as pessoas que, genericamente, foram/são de denominadas de socialmente vulneráveis. Esta expressão, politicamente correta, oculta que o alvo fácil das pesquisas, da exclusão da profilaxia, diagnóstico e terapêutica são os sujeitos históricos que não se enquadram no estereótipo do dominante vencedor tradicional: homem, branco, heterossexual, mentalmente "competente" e economicamente privilegiado.
Assim, mulheres, negros, pobres e pessoas com algum nível de debilidade mental foram utilizadas das mais diferentes formas inescrupulosas para os avanços da área médica. O maior alarme soou com o Nazismo e seus campos de concentração com atividades de pesquisa denominadas médicas. Mas, não foi apenas no regime nazista que tais aventuras inescrupulosas ganharam asas. Nos EUA, por exemplo, de 1930 a 1970, tem-se o Caso Tuskegee, no Estado da Alabama. Neste caso, aproximadamente 400 pessoas negras foram deixadas sem tratamento de sífilis para se compreender a história natural da doença. Isto em uma época onde já te tinha tratamento comprovado e, sem que as pessoas envolvidas soubessem que participavam de um estudo. Assim, países denominados livres podem utilizar-se da ciência e da tecnologia sem levar em conta princípios éticos ou morais fundamentais a dignidade do ser humano com vista ao lucro científico.

Pior que isto, em meio ao processo histórico de legitimação do poder supranacional dos EUA na segurança e ordem do mundo, após a derrota dos nazistas e descobertas as atrocidades contra a humanidade, incluso as questões de saúde, foi publicado o Código de Nuremberg, no ano de 1947, pelo Tribunal Internacional, no afã de proteger as pessoas de/nas pesquisas médicas e demais procedimentos.
Todavia, o desafio não parou neste ponto. Anos depois, outros documentos históricos e fundamentais foram publicados na ampliação da concepção e alcance da bioética: Declaração de Helsinque, em 1964 e atualizada de tempos e em tempos; Informe Belmont, de 1978, entre outros instrumentos lapidares da ética na defesa da dignidade humana, animal e ambiental.
Porém, tudo isto não foi suficiente para por termo a exclusão profilática, diagnóstica e terapêutica ou a possíveis abusos em pesquisa ancoradas na exploração e dominação. O melhor exemplo para ilustrar isto é o vírus HIV e o Ebola, frutos das relações humanas com a natureza no século XX.
A pesquisa história do vírus HIV desenvolvida pelas Universidades de Osford e Leuven demonstraram que o mesmo surgiu no início do século XX, pelo uso de carne de chimpanzés, na região de Camarões e até a década de 1921, quando chegou à capital do Congo Belga, atual República Democrática do Congo, foi uma infecção regional. Depois disto, nos anos 1980 iniciou a ser diagnosticada nos EUA e tornou-se uma pandemia que já infectou mais de 75 milhões de pessoas. No momento que deixou de ser uma preocupação com negros e pobres africanos a ciência capitalista se envolveu com ardor na pesquisa de possível cura e/ou tratamento. A razão instrumental se fez sentir com sua força nos países livres.
No caso do Ebola, a situação histórica não é totalmente diferente. Foi identificado pela primeira vez no norte da República Democrática do Congo, em 1976, e foi contido pelo isolamento da população controlada pelo exército local e Organização Mundial de Saúde. Outros surtos se seguiram nos anos de 1995, 2003, 2007, 2012, e o maior número de pessoas envolvidas não ultrapassou a 220 doentes por surto, sendo todos restritos a área da África subsaariana. Todavia, aquilo que foram surtos com negros e pobres tornou-se epidemia e chegou à Europa e EUA. Hoje somam mais de 8000 pessoas que foram infectadas e mais de 3000 mortes.

Neste ponto, HIV e Ebola tem uma história em comum. Enquanto “surtos”, que dizimavam negros e pobres africanos, as medidas eram paliativas e os investimentos mínimos. Uma vez que adentra nos principais países capitalistas de população majoritariamente branca faz soar o alarme e novos fármacos iniciam o avanço para uma lacuna de experimentação, em especial na África.
Fica a questão, quantos documentos mais serão necessários para que a saúde enquanto profilática, diagnóstica, terapêutica não excluam os socialmente vulneráveis da sua dignidade humana e urgência no direito ao tratamento eficiente e eficaz? Quanto tempo ainda será necessário para que os surtos façam soar o alarme mesmo quando atinge "apenas" pessoas pobres, negras e mulheres? Parece que a lição ainda não foi aprendida apesar dos avanços documentais e quem mais uma vez pagará o preço será, no século XXI, a África transformada em laboratório a céu aberto para curar os brancos recém contaminados?