quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Além do tempo - a arte enquanto drama do mundo

O tema central da novela “Além do Tempo”, da Rede Globo,  não é o amor romântico na sua interpretação da alma gêmea. Na doutrina espírita kardecista constam as almas afins, em mesma sintonia, em níveis semelhantes de aprendizados, de interesses, de saberes entre tantas outras modalidades de pluralidade de ser e estar no mundo dos encarnados ou desencarnados – este um tema não analisado (como foi outrora na novela “A viagem”).
                Lívia e seu conde não são o centro da trama, mas uma das relações possíveis entre os viventes (encarnados) deste mundo. Não são almas gêmeas como aspira ao amor romântico numa salada de frutas que envolvem de Platão aos platonismos passando por doutrinas outras espiritualistas e reencarnacionistas.
                Centro da questão ali posta é como o amor e seu oposto – o ódio, este uma das variantes das formas do amor doente – influenciam a vida dos que nos foram confiados, os filhos.
                 Sim! O tema central é como a vida amorosa ou de desamor dos pais influencia a vida dos filhos. A expressão mais acabada disto é Anita que nega o amor de casal em nome dos avanços da ciência pela concepção in vitro. Superado o trauma do desafeto dos pais retorna o amor em sua construção lúcida.
                Assim, são postas as relações de causa e efeito, tão típicas das ciências do século XIX – e ainda hoje nas ciências ditas da natureza e exatas – e que influenciaram o espiritismo kardecista  na demonstração das relações entre a vida anterior, entre o amor e a paixão – mais uma variante das formas de amar – enquanto (des)aventura que viveu com Roberto.
                A pergunta de fundo da trama evocada é “os filhos pagam pelos pecados dos pais”? Parece que sim! – segundo o folhetim televisivo. Mas, podem se libertar destas amarras e viver o esplendor do destino próprio em meio as suas interconexões de sentidos e trajetórias.
                No caso do menino Francisco, não é diferente. O tema é como o amor dos pais ou vivência da morte destes podem influir em seu destino, em sua trajetória de vida. O mesmo com Bianca e sua irmã Felicia e todas as demais crianças e adolescentes da trama. E, como cereja do bolo, o caso do menino Alex que sofreu em outra vida a desventura da perda dupla do pai. A primeira pela perda simbólica do pai incapaz de adotar o filho diante da calúnia de não ser fruto biológico.
             Desta maneira, é posta a trama que alcança muitos pais. A paternidade como a maternidade, exigem um ato de adoção daquele que nasce. Não basta ser biologicamente filho, tem de ser desejadamente filho para se ter um pai ou mãe presentes e afetuosos, é um movimento de adoção afetiva. Filipe, assim, não viveu a paternidade em plenitude na vida de Conde. Nesta, enquanto vinicultor, a vive independente da questão biológica – são as superações do amor entre pais e filhos – tema central da novela.
             A segunda perda do pai da parte de Alex foi o assassinato de Felipe por Pedro, o que lhe rende marcas vividas em sonho nesta vida. 
Por outro lado, a condessa que manipula o filho Bernardo em nome de um amor possessivo, onde só há espaço para o egoísmo do espelho – amo-te somente se fores igual ao que desejo, igual ao que me represento – e, neste ponto, o filho com sequelas mentais é inadmissível no convívio social e deveria ser sepultado em vida num manicômio – prática tão comum nas famílias abastadas ou medianas para esconder filhos gays, desvirginadas, e tantos outros outrora classificados como loucos. 
Mas, aquela que se pretende antítese da Vitória Condessa é o espelho de ponta cabeça da mesma realidade com Lívia nas duas vidas. Tanto em uma vida, como cigana artista, ou nesta, como abastada empresária de sucesso, Emilia é o reflexo da possessão dos filhos manipulados por dores próprias e mágoas outras dos pais.
Alberto se vingando da Condessa Vitória que lhe negou a paternidade no último suspiro, nesta, numa relação de causa e efeito produziu o ódio em Mili , negando àquela a maternidade em vida. Mas, quem paga todas as contas é a filha que precisará a tudo superar. Ou, nas palavras de Lívia – tudo pode ser perdoado. Heis a heroína.
Neste contexto, para iniciar os desfechos da novel,a o primeiro amor que se expande é o do capataz Bento, sendo nesta vida enteado de Vitória, se depara com a realidade dos erros do pai (des)herói que assassinou a mãe. Diante da realidade e do perdão tudo se resolve e os nós se desatam em uma trama de liberdades ilimitadas e de possibilidades novas para Bento.

Para avançar em direção ao remate da novela a pergunta do final do capítulo de Além do Tempo de hoje, 06 de janeiro de 2016, remete ao tema central e suas variações: pode o amor mais que o ódio? Ou, em outra palavras, o ódio, que é uma das variações do amor doente, pode ser superado a que empenho na relação entre pais e filhos? Quais os traumas que se poderá superar e sob que condições de experiência de vida?
Coroando estas relações Melissa traz a tona o drama das separações em todos os tempos, da visão do abandono feminino, típico até quase metade do século XX, ao desafio da mulher emancipada no século XXI. Mas, a resposta dela seria semelhante à de Medéia, da Tragédia Grega? 
Medéia assassinou os filhos para se vingar daquele que se separava dela – Jasão. O primeiro assassinato, do filho Alex, Melissa comete ao dizer que este não é filho biológico de Filipe - mais uma vez o assassinato simbólico do pai aparece na trama. Na continuidade realiza a desconstrução do pai ao filho em meio ao assédio moral nas relações familiares, neste caso, denominado e tipificado como alienação parental, no final do século XX. Mas, chegará Melissa ao assassinato material que já tentara fazer em outra vida com Lívia e consumado por Pedro,mas, agora contra o próprio filho?
Numa sociedade de tantos divórcios violentos ou com casamentos mantidos para não dividir o patrimônio o tema é no mínimo relevante, para não dizer de profundidade salutar para pais e mães e familiares e amigos refletirem sobre como as ações recaem sobre os destinos dos filhos e amigos. E, para além disto, diante de casos como o da Família Nardone – entre tantos outros noticiados em rede nacional de filhos assassinados por pais e vice-versa – o tema é urgente.
Nesta tramas das vidas intimas e pessoais, da vida privada e seus amores e dores as personagens femininas surgem como as mais poderosas e determinantes das histórias. Vitória do patriarcado ao dar a ela o espaço privilegiado do privado? Ao contar a história do amor e do desamor a matéria prima é o feminino diante de homens que circulam ao derredor das determinações sociais? Ou, pelas obsessões que a tantos corroê e muitos outros (des)mobiliza?

sábado, 14 de novembro de 2015

As hierarquias dos projetos ou dos ideais anacrônicos

As hierarquias dos projetos ou dos ideais anacrônicos

Diante de mais uma crise econômica que o País atravessa – e falar em crise no capitalismo é uma redundância – vemos o presidente da Câmara dos Deputados e seus seguidores e escudeiros defenderem projetos que fariam sucesso até a primeira metade do século XX e, assim mesmo, com ressalvas históricas. A marcha à ré nos direitos da mulher face ao estupro, na noção de família, no acesso ao STF de certas categorias religiosas, entre outros ,é de um anacronismo com poucos precedentes.
Isto poderia passar desapercebido se fosse apenas mais um legislador prestando contas a seus eleitores com projetos que atendem demandas específicas na contra mão da universalização de direitos sem a menor condição de viabilizar-se e ser aprovado. Mas, não é. É parte de um projeto antigo e dos mais tradicionais que se arvoram falar em nome de Deus para realizar os poderes do macho em detrimento dos femininos.
Participamos, no Brasil, de um processo de transformação nada silencioso na hierarquia dos projetos a serem atendidos. Apesar do alarido dos progressistas, as bancadas religiosas e da bala, entre outras possíveis designações de mesmo espectro político entre o reacionário e o saudosista lastreado numa pretensa representação da verdade sobrenatural, tem avançado em meio as massas eleitoras via igrejas e associações outras por elas fundadas como esteio de um povo que já retorna para a indigência em meio a crise do País. Os ganhos sociais de 10 anos de governos se evaporam em uma crise de dois anos.
Num arremedo da Syllabus errorum, de Pio IX, só que desta vez via Estado, pretende-se negar não mais apenas o mundo moderno, mas o pós-moderno com todos os avanços científicos que equipararam homens e mulheres e agora avança para o campo da homossexualidade – entre outras possibilidades.
Já Pio IX, em 1864, era um episódio anacrônico visto que se contrapunha as transformações do mundo moderno. O que participamos hoje, face a evangélicos e Bolsonaros, para não falar por hora do Estado Islâmico, demonstram o quanto a história não é evolutiva ou feita apenas de avanços e progressos. Se nas eleições municipais que se aproximam, mais uma vez o papel das igrejas for fundamental para garantir o sufrágio de pessoas que não contam com o apoio real da maioria, o pacto entre Estado e igrejas consolidar-se-á em detrimento da ciência pós-moderna. Pacto avantajado pelo PT que agora perde o “controle da história”.
Neste quadro o episódio do fechamento de escolas no Estado de São, via reorganização geográfica e etária; a possível reforma na carreira de professores das Universidades Estaduais, seguindo o norte dos Recursos Humanos neoliberais – onde não há espaço para todos serem pesquisadores e quebrando o modelo de carreiras estáveis para todos – demonstram o quanto o Estado democrático não consegue dar respostas universalizantes nas terras do Brasil, mesmo sendo o partido que se propõe dos intelectuais, o tucanato.
Assim, a exclusão escolar, a perca do pouco espaço ganho pelas “novas classes médias”, que de medianas quase nada tinham ou dispunham, o desmonte das carreiras universitárias encontra seu casamento perfeito com igrejas que podem solucionar via ritual mágico as agruras da pobreza e da ignorância que o Estado não faz dissolver via política ou políticas.

E, para não pensarmos que estamos sós neste episódio histórico que tende a tergiversar com o retrocesso, guardadas as devidas proporções, ao menos por hora, o Estado Islâmico enviou mensagem explícita de terror aos franceses de que a falta de escolas orientadas pelo lema que fundamenta o mundo ocidental contemporâneo – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – viabilizam mãos armadas incapazes de diálogo ou tolerância com a diversidade e a pluralidade laica pós-moderna, e nem mesmo moderna, onde o espaço da mulher e do feminino é a invisibilidade.


Ao caminhar dos debates e alianças políticas no Brasil, o que ainda chamamos de episódio – e que foi inaugurando pelo pastor chutando a Santa de Aparecida em cadeia nacional e condenado, ao menos naquela época, hoje em face ao “Somos todos Charlie Hebdo” e os avanços da interpretação laica, poderia ter resultados diferentes – a uma rotina onde terreiros de candomblé e igrejas católicas depredadas, ou pessoas “apedrejadas” serão uma realidade sancionada pelas novas maiorias, num contra fluxo da interpretação laica?
O aviltamento de uma educação de qualidade para a nação em conformidade aos cânones da ciência, entre elas com destaque para história, filosofia e sociologia, faz com que nem todos entendam que o ataque à França foi um ataque a todo o estilo de vida ocidental  onde ser livre é elemento constitutivo de cidadãos e não de fiéis seguidores doutrinados. O ataque a França é contra a liberdade da mulher e do feminino.  É contrário a ciência e sua liberdade de pesquisa. Em síntese, é o estopim que fez milhares migrar de seus países em busca do sonho europeu lastreado pelos Direitos Humanos, herdeiro e representante direto do lema da Revolução Francesa.
Que pese, e muito a tragédia do mar de lama em Minas Gerais que arrastou muitos à falência, outros à morte, e tantos outros à escassez de água –  e com ele a comparação do mar de lama que envolve os nossos políticos e políticas. É urgente e necessária uma resposta do Estado para além das providências da justiça. E, neste ponto não é isto ou aquilo. O local ou o global. É um e outro num contexto de complexidade pós-moderna.
Sem a França e o peso histórico de seus pensadores históricos, num futuro próximo tudo isto que ocorreu em Minas poderá ser explica pura e simplesmente como vontade de Deus em punição aos pecados. Ou, pior ainda, que o “Efeito estufa” é uma condenação Divina às condutas irreligiosas dos humanos e não resultado dos erros de política e políticas econômicas insustentáveis ecologicamente, mas muito rentáveis no plano dos capitais.
Assim, não deixa de ser contraditório que tantos solicitem orações à França e não atitudes, como as que os próprios franceses evocaram ao cantar o hino revolucionário: às armas cidadãos. A França fundadora do mundo contemporâneo sabe que orações não resolverão a questão, pelo contrário, pode e muito a tornar ainda mais complexa e menos tolerante as questões envolvidas em nome do poder do macho e de seu deus masculino que legitima o controle, da dominação e a explora excludente da mulher, do feminino, da liberdade, da ciência...
Por outro lado, a França da Liberdade, Igualdade e Fraternidade responde militarizando a sociedade para proteger a liberdade castrada ao se limitar o direito de reunião e ir e vir. Tristes tempos onde ainda se faz sentir os ecos  do dilema ético da frase histórica “para que haja paz, é necessária a guerra”?
Anacronismo, bem-vindo ao século XXI e bem na data que comemoramos, 15 de novembro, da Proclamação a República, aquela República que separou Igreja e Estado e fez avanças direitos civis, políticos e econômicos para homens e mulheres, masculino e feminino inspirado nos ideais franceses.


domingo, 25 de outubro de 2015

A crise dos projetos éticos ou o assassinato público da ética

A ética só existe enquanto na teoria e/ou oposição? A situação teria razões de Estado que a cidadania  e a oposição desconhecem? Transparência é um artifício que visa minar os direitos individuais à privacidade e os desvios em cargo público? Os meios de dominação pessoal, o discurso histriônico dos populistas e/ou carismáticos, o formalismo jurídico da dominação racional legal que excluí as frações de classe controladas e garante a quase impunidade das frações de classe dominante, parecem ser o mote dos que se pretendem donos do poder e não representantes democráticos da nação?
Rachel Sheherazade, por exemplo, no uso de suas funções de repórter, em uma das emissoras mais populares do Brasil, disse que a democracia era o governo da maioria para a maioria. O SBT, uma emissora fundada por um dos judeus mais ricos e influentes do País, Silvio Santos, passou assim a legitimar meios antidemocráticos de poder onde as minorias, entre elas a d judaica, a exemplo da Alemanha, como homosseuxuais, Testemunhas de Jeová, portadores de necessidades especiais... poderão ser caçados em nome do direito da maioria?
A democracia, em especial a partir J.J. Rousseau, é o governo eleito pela maioria e que respeita a toda a população, incluso aí, as minorias quer elas sejam o que forem em conformidade aos Direitos Humanos: migrantes, mulheres, negros, homossexuais...
“Pela primeira vez na história do nosso país, na história republicana, a terceira maior autoridade do país, o presidente da Câmara dos Deputados, é um irmão nosso... o deputado Eduardo Cunha”, estas as palavras de Silas Malafaia ao apresentar o Presidente da Câmara dos Deputados. Num discurso que lembra o medieval, queria assegurar que por ser evangélico, estaria garantida a qualidade do representante e por consequência a salvação da nação.
Na sociedade honestos ou desonestos podem ser todo e qualquer ser humano independente das insígnias que se apregoam como superiores: católico, evangélico, espírita ou maçom, homem, branco, heterossexual, casado, pai de família e formado em universidade de excelência.
Se heterossexualidade, professar a uma religião e a crença em Deus, ser casado e pai de família fossem garantias de algo, para além dos emblemas distintivos do poder do macho, teríamos um Congresso Nacional da melhor qualidade e seríamos primeiríssimo mundo visto que a maioria ostenta tais requisitos.
Em meio as disputas entre oposição e situação, liberais e conservadores, progressistas e reacionários, assistimos ao assassinato da ética em praça pública com o uso indevido do bem público e da representação. A República em lágrimas vê diante de si projetos outros que para se legitimarem usam do discurso oco da ética, pois demandam na prática “os fins justificam os meios”, na pior interpretação possível de Machiavel que intentava com esta frase separar Igreja e Estado.

Num primeiro momento, o adormecer das consciências, em meio ao fora PT, identificados como únicos corruptos, não alcançavam mais os escândalos dos opositores que demandavam o impedimento da Presidenta. Numa tentativa de defesa, assistimos a evocação da banalização dos crimes de políticos durante o horário eleitoral, em especial no segundo turno, uma enxurrada de denúncias entre os candidatos,que não saíram do verbo e caíram no espaço oco da indiferença generalizada. 
No tempo atual, assistimos aos avanços judiciais que atingem apenas um partido e pouca o seus contendores. Seria o melhor dos mundos para a oposição se não se vissem em palpos de aranha diante das evidências que vêm da Suiça contra o deputado irmão evangélico terceira autoridade do Brasil que fica restrito ao território nacional por temer ser detido em outras terras.
O que vemos no Brasil é o assassinato da ética como banalização para efetivar-se projetos que se pretendem éticos para grupos específicos e atingindo em retrógrado os Direitos Humanos. Na mesa de negociações o desemprego de milhares, a retirada de direitos das mulheres, o fomento da religião nas escolas em detrimento do saber científico, a invisibilidade dos LGBTTT, 
A população estarrecida vê-se diante do rei nu, despido do falso discurso ético diante da realidade de que o juiz militante não pune aos crimes, mas a certos infratores num arremedo do antigo e tradicional PPP que evidenciam que no Brasil o racismo, a discriminação por classe e idelogoia podem guiar, por vezes e mais vezes, as mãos da justiça, transformada em garras,
Morre a ética e seu falso projeto de governo ético para uma nova ordem diante do fato de que ninguém quer cortar na própria carne. Estarrecido fica o povo como vítima de uma elite deletéria sendo culpado por eleger - mesmo quando não o quer, diante do modelo legal - os acusados de corruptos pelo plantão midiático.






terça-feira, 13 de outubro de 2015

A tragédia dos costumes em meio à crise político-econômica no Brasil

Como era de se esperar a trajetória de Renato J. Ribeiro foi breve no MEC. Homem das letras e das ideias críticas e emancipatórias não tinha como sobreviver em meio a um legislativo federal composto majoritariamente por conservadores de todos os naipes; alguns beirando e atuando de modo reacionário.
O Brasil legislativo acostumado a ministros que alteram a forma do ensino e quase nada faz no debate e discussão do conteúdo, se assustou diante de um ministro do vulto de Ribeiro que, entre outros temas, colocou no centro do debate público, sem subterfúgios que escamoteiam as intenções mais profundas, as questões do ensino de gênero e de religião na Educação.
Era o objetivo do ministro que estes conhecimentos e saberes ficassem à luz das ciências e das filosofias e não do prisma criacionista que tanto tem movido votos e falas reacionárias. Algo hercúleo visto que o modus operandi do Brasil desde a ocupação portuguesa foi a educação abaixo da fé quando se implementou por estas terras o que pela Europa era criticado: a cristandade e o padroado. Este modelo colonizador fincou raízes profundas que se evidenciam até hoje nos embates públicos do que deveria ser laico.
Como já havia escrito em “A crise entre preços e valores”, em 14/09/2015, a exoneração de Renato Janine Ribeiro era previsível em meio às demandas que têm como representante máximo o Presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e seu séquito de ideias carcomidas e com práticas postas sob suspeita em meio as denúncias vindas da Suiça. Mais um “salvador da pátria” que cai em descrédito diante da sociedade laica das mídias sociais?
Outrora a voz mais alardeada neste embate entre o secular e o sagrado na política partidária era a de Feliciano, por São Paulo, entre outros tipos de igual naipe reacionário espalhados pelo Brasil e sufragados para o legislativo. Todavia, estes, de certo modo, caíram no ridículo social pelo conteúdo e forma do que defendiam. Era reacionário demais para uma sociedade que se aventura no mundo pós-moderno a contragosto dos conservadores e reacionários.
A queda de uns é a ascensão de outros. Evidenciou-se uma nova estrela do pensamento reacionário, o Deputado Eduardo Cunha eleito, em tese, principalmente via voto religiosa da Igreja Assembleia de Deus – que, segundo a acusação, teria lavado dinheiro de propina do mesmo. Não por acaso este não entra em querelas diante de repórteres da tradicional indústria cultural, pois seu discurso tenderia a cair em descrédito diante da maioria da população. O Estatuto da Família, a (de)(re)forma eleitoral contrária a opinião publica são aapenas o início de um projeto político-ideológico muito maior e, por isto, para evitar os erros dos similares Feliciano, Bolsonaro, entre outros apela-se para o discurso profissional de advogados.
Assim, ficamos diante de um fato, a crise política que arrasta o país para uma de suas maiores crises econômicas é fruto do desejo de reformar os costumes dos outros via modelo religioso, onde, talvez, nem Jesus Cristo se encaixaria como família; sobretudo se utilizássemos a contraversão como teoria explicativa: teria Jesus Cristo sido concebido por um soldado romano que estuprou Maria de Nazaré?
Esse projeto político-religioso que não tergiversa com a pluralidade e a diversidade real da humanidade, e defendida pela ciência contemporânea, em nome de doutrinas idealizadas que só são reais nas mentes de seus aliados, às vezes, por motivos eleitorais e ou eleitoreiros, terminaria por tornar legal preconceitos e discriminações que reduzem os direitos de cidadania dos outros contrários a identidade forjada pelas doutrinas conservadoras e/ou reacionárias. Assistimos isto no ocidente recentemente no nazismo e no fascismo que ainda encontram condições sociais para se reproduzir com uma educação formal limitada de racionalidade e emancipação em favor do pensamento mágico de muitos professores com pouca ou nenhuma formação acadêmica sobre as ciências das religiões.
Neste contexto, barrada a votação dos vetos presidenciais, restava à Presidenta da República laica demitir o ministro pós-moderno em um País que resiste a entrar na modernidade com discurso científico e práticas e teorias críticas no que dia respeito a religião – um dos maiores cabos eleitorais na contemporaneidade. E, para fazer mais do mesmo, lançou mão do loteamento de cargos típica das velhas políticas. Neste modus operandi quase se desfez em uma noite quase tudo que levou o país ao descrédito internacional e a uma onde de desemprego até agora sem fim previsto. Afinal, o que são corpos famintos diante da salvação da alma? Apenas uma parte do purgar diante das escolhas de outros que nada sofrem com crises econômicas no cotidiano.

A laicidade republica tergiversa ao fazer acordo com o Vaticano pelo ensino religioso, foge ao (em)debate ao substituir um ministro crítico e emancipador aclamado pelos progressistas de todos os naipes, até mesmo por parte da oposição “ilustrada”, em nome de um ministro que colocará tudo nos eixos eleitorais ao atuar nas questões quantitativas e não qualitativas.

Nossa crise é de projetos e valores que se traduzem em preços? O preço da propina com oração agradecendo a Deus pela “benção recebida”? Os políticos que se revelam cada vez mais caso de polícia e não de política ou políticas, mas com poder para esmagar os projetos outros? Enquanto no estrelato da fortuna política de salários e gratificações e privilégios típicos da “nobreza de Estado” a crise não os alcança, nos andares bem abaixo, um em cada cinco lares há desemprego total. Mas, em comum, muitos, dos lados todos, com as mãos molhadas? Passados mais de cinco séculos do início do padroado na Terra Brasilis os embates entre fé e razão, crença e ciência ainda movimenta os bastidores da política mesmo que os corpos paguem em benefício da alma e a educação seja a imolada?

sábado, 19 de setembro de 2015

Sobre postes e criadores: Desafios para a sobrevida do governo Dilma

Não apenas Dilma foi reeleita em uma das disputas mais acirradas da história eleitoral do Brasil democrático, como isto era um prenúncio dos tons de cinza que poderiam predominar em sua gestão. Embora no discurso da vitória, no dia 26 de outubro de 2014, ela afirmasse não acreditar “que essas eleições tenham dividido o país ao meio.”; foi o que de fato ocorreu e ocorre.
Aécio obteve 48,36% dos votos válidos e Dilma, 51,64%. Uma diferença de quase 3,5 milhões de votos. Como se esta baixa diferença não fosse o suficiente para fragilizar a sufragada, ocorreu aproximadamente 20% de abstenções, 6% de votos nulos e 4% de votos brancos. Ou seja, aproximadamente 30% do eleitorado não aprovavam Aécio ou Dilma.
“São” estes 30% que emitem opiniões nada fáceis de analisar, decifrar ou equalizar no mapa político e no espectro do poder, até hoje, em meio a manifestações com mensagens entre o confuso e o contraditório, indo do impeachment ao pedido de volto dos militares. Do com partido ao sem partido, do “fora corrupção” à volta da monarquia.
Pelo país afora a oposição, liderada pelo PSDB e aliados, que obteve aproximadamente 51 milhões de votos, contra os 54,5 milhões de votos que sufragaram a presidenta, tenta cooptar o movimento, ainda amorfo, dos descontentes - somados aos seus eleitores, de onde a acusação de se pleitear ganhar a eleição na base de um “golpe”; afinal, apesar da aprovação da presidenta estar em menos de 10% nem todos concordam com a expulsão da mesma do Palácio do Planalto.
De todas as tentativas da oposição fazer parar o atual governo, e conduzi-lo à renúncia ou impeachment, o lema do combate a corrupção tem sido o mais alardeado e o que mais tem surtido efeito, todavia, na prática, a que mais tem aturdido o governo e atingido a população são as “pautas bombas”. Todavia, as bases das denúncias, no que tange a presidenta, ainda carecem de provas. Mas, mesmo assim, a operação “Lava-Jato”, quase uma continuação do “Mensalão”, gera um desgaste progressivo mesmo naqueles 51,5 milhões que reelegeram Dillmma onde o plano é a tempestade perfeita: o povo na rua numa representação maior que os eleitores do PSDB e dos descontentes com os partidos que votaram nulo ou em branco – que ainda não ocorreu apesar dos clamores para que o povo vá para as ruas indignados.
Assim, os 51,5 milhões de eleitores passam a se polarizar entre manter a legitimidade do governo sufragado ou não. Mais que isto, apesar de concordar com a permanência de Dilma no poder, esta se relativiza por não considerar a forma de governar legítima diante das promessas eleitorais recentes da presidenta e históricas do Partido dos Trabalhadores. Assim, quanto mais o PT se alinha no centro-direita, onde Kátia Abreu e Joaquim Levy são apenas os sintomas mais visíveis da quinada à direita, mais perde apoio de suas bases históricas e parlamentares e causa escândalo ao propor uma reforma ministerial onde os principais atingidos são os temas históricos dos trabalhadores pela demanda da igualdade, da pluralidade e da diversidade, entre outros.
Situação difícil a de Dilma que diante da Lava-Jato e do Mensalão viu esboroar, em tese, um dos mecanismos mais tradicionais de governabilidade do País, a “compra de votos” e o financiamento empresarial via “doações ao partido”. E, como se isto não fosse o bastante, desalinhou o movimento crescente do capitalismo que se viu sem as estruturas do Estado para permanecer ascendente via obras públicas. Posto isto, surge mais uma hipótese, acaso é possível lucro sem corrupção e fraude? Ou, para complicar ainda mais o quadro da governabilidade, acaba por clamar a certa “política dos governadores” para sobreviver e fazer votos em seus projetos que só fazem reeditar o já dito e não cumprido.

Neste campo minado da ética, não poucos históricos defensores dos princípios da administração pública – legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade, eficiência – tergiversaram diante da realidade bruta dos fatos e passaram a acusar a operação “Lava-jato” de responsável pela crise econômica, para além da política. Honestidade não rimaria com crescimento econômico quando se está no poder, apenas quando se está na oposição?
Nesta guerra de Ciclopes, enquanto a Lava-jato não se encerrar haverá muitos políticos sedentos por justiça que poderão acabar “enjaulados”, ainda que muito temporariamente, apesar da seletividade na informação às massas via indústria cultural que só publica as notícias contra os oponentes. Desonestidade do próprio grupo não é crime, mero deslize a ser perdoado em confissão privada.

Fica um fato, o criador diante de sua criatura poste que pretendeu ter luz própria, não passou de uma metáfora efêmera do personalismo solar onde a lua acabou eclipsada e se quiser sobreviver terá de render homenagem ao grande patriarca nordestino estabelecido nas terras paulistas?

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A crise entre preços e valores

Nos países capitalistas, e mais acentuadamente nos periféricos como o Brasil, a confusão entre valor e preço é reiterada por mecanismos de controle e exploração social que vão da publicidade e propaganda passando pela novela até a configuração das eleições e o acesso ou não aos recursos de ponta do Estado e a prestação pública de contas.
As pessoas e a ciência (dentre estas a prima donna é a economia) no contexto capitalista contribuem para isto, tendem a não entender que preço é o pagamento em dinheiro, é a relação entre a quantidade das necessidades e a de bens disponíveis; já o valor é relativo à ética, – como um bastião de resistência aos avanços inumanos do capitalismo e outras formas de controle, domínio, exploração e exclusão contemporâneos, – significa as características que decidem a maneira de proceder, de escolher o modo de agir em conformidade aos princípios. A confusão linguística é reveladora das práticas.
Diante desta possibilidade palpável, no nosso cotidiano, fica a questão: quantos dos atores sociais, políticos, culturais, religiosos, entre outros, podem agir de modo a superar esta estrutura econômica que trabalha para reduzir tudo ao preço, ao cálculo dos rendimentos onde até o Recurso Humano é utilizado como instrumento de ampliação de lucros?
No terreno do político basta ver que a tendência é haver políticos profissionais que vivem da política e não para a política. Os cargos eletivos, ou de indicação política, tornaram-se um dos principais meios de ascensão econômica e social num país onde o salário dos pobres à classe média é uma piada de exploração internacional.
Baile de máscaras partidárias onde quase todos dançam as mesmas músicas neoliberais com diferentes tampões que alteram a dimensão do som, mas, ao final, todos se locupletam nos preços em nome da decadência do valor humano, mesmo dos direitos humanos. Ponto máximo nesta equação é pensar até onde se elegem representantes da democracia ou se escolhe os que liderarão a corrupção?
Mais que isto, muitos dos atores, de modo geral, são imaturos do ponto de vista dos valores segundo a análise de Lawrence Kohlberg e, assim, não conseguem ultrapassar as dimensões dos interesses que os rodeiam, da transformação de princípios universalizantes em religião, enquanto visão de valores. Um reducionismo que torna quase inviável a vida democrática em todo seu colorido, diversidade e pluralidade - típicas da realidade do século XXI. Assim, transformamos o Cristo em religião cristã, o Buda em budismo, e por este caminho trilhamos o mais do mesmo, sem grandes avanços fora das estruturas que nos controlam e contorcem em favor do sofrimento que purifica a alma e escarnece a carne.
Muito da atual crise política no Brasil, uma entre as muitas do capitalismo que tem como meta ampliar lucros e reduzir custos, ou ampliar o preço do produto e baixar o preço do salário – o ajuste ocorre em termos de perdas salariais, – é a transformação dos valores pessoais-religiosos em querer universalista. Assim, não aparecem as reais causas do conflito entre os dirigentes dos cargos eletivos mais importantes da nação.

De um lado, os que defendem os valores humanos universais e universalistas em favor de uma pluralidade e diversidade prática; de outro, os que desejam moldar o valor universal a partir de sua própria concepção de mundo, não raro religiosa, numa abstração onde a maior parte da humanidade não se enquadraria a não ser por meios autoritários. De tudo fica um fato, se o Sr. da vertente religiosa dominante no ocidente voltasse hoje, Cristo, ele se negaria a conviver com muitos dos que pregam em seu nome mas pervertendo a noção de perdão, de caridade, de solidariedade e emancipação que tem como meta “fazer o bem sem olhar a quem”.
Em termos explícitos, a questão de gênero – pedra de toque nos fundamentos das hierarquias explorativas e de excludência – não vêm à tona nos discursos, mas move as práticas onde a ponto do iceberg foi a disputa ao redor da questão nos planos municipais de educação e a cereja do bolo hoje seria a exoneração do ministro da Educação - Renato J. Ribeiro. A bancada da bala e da bíblia unida preferem ver a derrocada dos corpos via “choro e ranger de dentes” – desemprego e fome, resseção e crise política gerada na base da seletividade das denúncias e apurações – do que aprovar medidas que legitimem o atual governo rumo a liberdade dos corpos e das mentes.

E você acreditando que vivemos em uma democracia de Estado laico?

domingo, 6 de setembro de 2015

Carl Hart e a questão étnico-racial e classe

Há fatos que não precisam ocorrer para tornar-se realidade. Estes acontecimentos revelam as ações cotidianas de uma época, de uma nação, de uma classe, de um grupo,... . Maria Antonieta que o diga com a célebre frase sobre pães, cunhada pelos opositores da monarquia em busca de uma propaganda eficiente para mobilizar as massas. Nos tempos atuais a edição da notícia em escala industrial é o fenômeno mais corriqueiro desta construção do real pelo uso das mentalidades, de forma igualmente seletiva, em favor de um grupo ou fração de classe.
Com Carl Hart, 48 anos, Professor Titular em Nova York, não é diferente. A notícia que se espraiou pelo País, e até fora do Brasil, sobre ser barrado em Hotel sofisticado da capital de SP, foi aceita como real devido a fragrante discriminação étnico-racial cotidiana. A proibição de circulação de adolescentes por Shoppings - exatamente por aqueles que deveriam proteger seu direito de ir e vir com autonomia via Justiça – entenda-se pessoas da periferia, em sua maioria negra e parda, é apenas um dos sintomas. Tão só uma cena, em um roteiro que se expande sem constrangimento, da imposição da discriminação étnico-racial, por classe e gênero.
Embora ainda pairem pontos discordantes no enredo que envolveu o professor Carl Hart, a fala dele deixa claro que algum tipo de constrangimento ocorreu no hotel que hospedava um dos encontros realizados pelo Instituto Brasileiro de Ciências Criminais  (IBCCrim) – entre os mais seletos do Brasil, realizado em Hotel de elite, o Hotel Tivoli Mofarrej.
Se você, que lê este texto, for branco ou reconhecido socialmente como branco no Brasil, talvez não queira entender o que ocorreu com o professor da Universidade de Columbia. O enredo é muito comum nos espaços das frações de classe dominante, passando por shoppings, repartições e vias públicas onde se pensa encontrar apenas os socialmente brancos. Nestes espaços todos os nãos brancos são suspeitos. Basta fazer uma prova. Convide um amigo negro ou mulato para que ele vá a um destes espaços e observe de longe se ele é “discretamente” monitorado. Vigiado é a palavra correta. Ele é o suspeito por excelência, quer aqui ou nos EUA. Caso não tenha nenhum além de empregados, é uma demonstração cabal da situação de apartheid informal que nos rege.
Todavia, a posição de Hart, de negar quase veementemente tal acontecimento, demonstraria um problema muito maior? A aceitação do não branco nos espaços “reservados de fato, embora não por lei” ao tidos e havidos como brancos só é tolerada se  este embranquecer nas atitudes negando a consciência étnico-racial? Ou seja, a frase de Hart “um segurança iria me abordar” ou “É verdade, mas foi (algo) menor” são apenas correlatas desta situação?

“Algo menor” diante do que ocorre com os negros e pardos “apenas” pobres no Brasil e/ou nos EUA? E, assim, por esta via, Hart acabou prestando um desserviço ao grupo étnico-racial que poderia representar para além do discurso acadêmico. Terminou por dizer que é um problema “apenas”, como se pudesse ser apenas, de classe e não de racismo numa democracia formal.
O problema é de classe, de gênero e étnico-racial. Não afirmar isto é como temer o poder dos dominantes que poderiam dizer o anátema “Até aqui virá, e daqui não passará” em sua carreira Dr. Hart?
E, para ampliar a análise do professor em uma de suas análises, no Mofarrej, em meio ao encontro do IBCCrim, afirmou: “Apesar de os negros serem menos da metade dos usuários de drogas nos EUA, eles compõem muito mais da metade dos presos por causa de drogas. Um em cada três jovens negros americanos serão presos pelo menos uma vez na vida por causa da lei de drogas”.
Isto é revelador do fato de o “uso branco” ser “dependência” ou “doença” e o tráfico, crime? O pobre negro traficante é punido; o branco, em especial o das frações superiores de classe, é inocentado?
Ao invés de dizer: “(...) a guerra às drogas tem sido usada para marginalizar os pobres”, a frase não seria “a guerra às drogas tem sido usada para marginalizar os negros, no ocidente”? E, neste ponto, aluta pela descriminalização do tráfico seria uma luta pela igualdade étnico-racial? Sim, são os negros os mais assassinados, segundo a Anistia Internacional.

No caso do professor que se tornou uma referência, não poderia ao invés de “aliar-se” ao dominante explorador ao afirmar que no seu episódio foi um “caso menor”, asseverar que o seu caso foi exemplar do que ocorre aos milhares no cotidiano e esquecido ou abafado pela falta de projeção social dos envolvidos?

Não há caso menor em questão de racismo e isto deve ser compreendido pelo Dr. Hart ou pelo judiciário que sistematicamente desmonta e torna a lei que criminaliza o racismo em “letra morta” em nome da injúria racial.