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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

O fim da Era dos Direitos: Bolsonaro e o desmonte da classe média trabalhadora


Como excelentemente descreveu e analiso K. Marx, ao sistema capitalista mais que trabalhadores, interessa manter uma quantidade de trabalhadores sem trabalho para que não ocorresse pressão sobre salários e direitos. A isto ele denominou exército de reserva. Este seria de maior ou menor monta dependendo de ser um dos países centrais do capitalismo ou periférico, nesta ordem, crescente o número de pessoas atinentes ao exército de reserva para equilibrar o mercado de trabalho, em conformidade ao interesses capitalistas liberais.
Não por acaso o economista John M. Keynes, ao criticar o sistema liberal ancorado em Adam Smith, assevera que este não leva em consideração o desemprego na sociedade, pois, este faria parte do jogo em favor da classe capitalista.
Com a Quarta Revolução Industrial, a globalização e o neoliberalismo, todos em sintonia a ampliação da exploração do trabalhador em favor do capital, far-se-á ampliar o exército de reserva para além das demandas de equilíbrio do mercado de trabalho capitalista nos moldes liberais. O que se tem agora, é um excedente de trabalhadores que compõem, ainda, uma pressão para a não demanda de direitos e melhores salários, mas, para além disso, são os desempregados estruturais, que só fazem crescer na sociedade neoliberal globalizada da Quarta Revolução Industrial chegando a atingir parte das camadas médias.
Os avanços tecnológicos aliados á globalização da economia fizeram com que ocorresse uma competição, ainda mais acirrada, por investimentos de capital, e com isto os países periféricos, alinhados com o neoliberalismo, Caso de Bolsonaro, precisam depreciar o preço e o valor de seus trabalhadores, enquanto média salarial, sobretudo, pra se fazerem atraentes a este capitalismo em nível planetário.
A primeira etapa é o desemprego estrutural com o seu consequente número crescente de desalentados. Com isso sede a pressão nos salários e os direitos outrora defendidos passam a ser visto como risco à empregabilidade diante do discurso do medo propalado pelos neoliberais. Não por acaso Bolsonaro assevera que suas reformas – com destaque até aqui para  a previdência e a nova reforma trabalhista em tramitação, chamada de Reforma da “Liberdade econômica”. Sim, liberdade econômica de explorar mais profundamente  o trabalhador sem que o trabalho detenha resquícios da era dos direitos trabalhistas. – são para que haja algum emprego.
A segunda etapa, e que entra em vigor com a Reforma da Previdência, é a efetivação do Estado do necropoder, a necropolítica. Os trabalhadores indesejados são empurrados para a morte precoce pela ausência de direitos não só trabalhistas, mas sociais e de políticas públicas como saúde e educação. Privatizar saúde e educação com o desmonte do SUS e da Universidade Pública são os passos seguintes. E, neste ponto o trabalhor realiza suas funções até a exaustão do corpo e sem meios de acesso a saúde e repouso remunerado tende a morrer mais jovem, assim, e como quase sempre na história do capitalismo, financia a aposentadoria dos mais ricos uma vez que pela necropolítica está condenado a morrer antes da expectativa de vida alongada pelas frações de classe mais privilegiadas.
Toda a estrutura de saúde montada pelas universidades públicas e pelo SUS é ainda mais precarizado e, depois, privatizados, conduzindo a morte de milhões de trabalhadores que não mais eram contabilizados nas estatísticas de desemprego por serem desalentados ou  desempregados estruturais. São os indesejáveis do sistema uma vez que não cumprem nem o papel de exército de reserva.

       Mais que isto, até a fração de classe média aliada sistemática da classe capitalista se vê abandonada a própria sorte uma vez que a Era dos Direitos não mais é necessária e as Universidades Públicas que lhes garantiam privilégios pelo saber é desmontada. São igualados assim a frações de classes mais subalternas pela perca de direitos históricos ao qual tendiam a se posicionar contra por pensar como capitalista embora não o sejam. A classe média é abandonada a própria sorte também, pois com a Quarta Revolução Industrial não mais é necessário um grupo numericamente significativo com pensamento crítico.
Por isto a primazia não estaria mais no Estado Democrático de Direito, mas, antes, pura e simplesmente no Estado Capitalista de Direito. Com isso juízes passam a julgar não em conformidade com a lei, mas, antes, orientados pelas decisões políticas calculadas em custas. Não por acaso o avanço da ausência de concursos para professores na Educação Básica, onde o concurso é substituído por Organizações Sociais e ONGs na prestação de serviço ao Estado, o que garante certo controle ideológico da atuação do professor precarizado e temporário, tem avançado sem que, até agora, o judiciário se posicione contra.
É o desmonte da sociedade na qual cresci e me eduquei. É o neoliberalismo selvagem que, por hora, faz seu discurso de que só há crescimento econômico se não houver direitos e, até aqui, só perdemos direitos trabalhistas, sociais e de cidadania sem que haja crescimento econômico que era esperado para julho, segundo o Ministro da Economia Paulo Guedes. Estamos em agosto.
Diante da realidade neoliberal de descontrução de empregos via Quarta Revolução Industrial e Globalização, já diz, o mesmo ministro que não será fácil a retomada econômica. Que retomada? Afinal para o sistema neoliberal selvagem, do qual faz parte o atual presidente, não se planeja ou prevê pleno emprego, como era almejado por Keynes, alcunhado no Brasil de Comunista, uma vez que foi implementado pelo Partido dos Trabalhadores.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

O palhacismo ou a tragicomédia de si mesmo: Bolsonaro


O palhacismo é uma técnica de controle de corpos e mentes que oculta, enquanto estratégia de poder, na operacionalização do gracejo e da pilhéria política. Ele se traveste de aparente ignorância generalizada, para se fazer de infantil e não temerária. A irresponsabilidade é sua nota de toque onde suas falas agressivas e depreciativas encontram respaldo no engodo dos limites intelectuais cada vez mais estreitos do personagem embasados em preconceitos e discriminações construídas na história do escravismo brasileiro.
No palhacismo de Bolsonaro, a disputa se faz em todas as áreas; até no controle do significado das palavras, que se distorcem e se desdobram com o passar dos embates intestinais mais primitivos do ser humano na busca de poder, controle e exploração. Assim, as falas-práticas desmedias são seguidas de explicações como não sei nada, ou seja, sou inofensivo, não causarei danos, não se preocupe comigo, sou apenas mais um palhaço para divertir a plateia egoísta que se vê no espelho da discriminação que subjuga social, econômica e politicamente.
O centro do palhacismo é a antintelectualidade, a negação da racionalidade propalada como elementos causadores de danos à humanidade. Risco no qual não se incorre na irresponsabilidade do palhacismo. Por isso, ministros são aparentemente atores, que vez ou outra, são depenados em público pelo grande palhaço que não quer o mal, embora o cause como centro de suas políticas.
Intelectual é o risco. O palhaço aliado ao pensamento mágico religioso a cura. A ingenuidade de má fé, que articula nos bastidores e encena o espetáculo via redes sociais, para asseverar sua irresponsabilidade intelectual que tantos danos causam à “liberdade, igualdade e fraternidade”. Destarte, foge da responsabilidade e a terceiriza como forma de escamotear um projeto bem articulado de militarização, exclusão, dependência, exploração, misoginia, racista, homofóbico e especista.

Se o palhacismo está no picadeiro do planalto é devido a seus sufragadores que se comportam de forma idêntica, agindo de forma irracional nas redes sociais, e dizendo que as ameaças articuladas de militarização, exclusão, dependência, exploração, misoginia, racismo, homofóbica e especista não passam de piadas, de força de expressão, de brincadeira. Envergonhados diante da plateia internacional que assiste assombrada o espetáculo da anti-democracia por vias aparentemente democráticas, ocultam-se na pilhéria e no gracejo.
Desta forma, não querem ser responsáveis pelos efeitos de seus votos, esta a essência do palhacismo, a irresponsabilidade com o todo social em nome dos particularismos, de frações de classe dominante, das maiorias de poder, controle e exploração.

Negar o papel fundamental das Universidades e do saber científico é apenas uma gorjeta deste projeto de subjugar as classes trabalhadoras ao modelo de capital neoliberal onde as percas de direitos conquistados arduamente, sobretudo no último século, é a  meta. A intento final é retirar da Constituição da função social do Estado e da propriedade.  Salve-se quem puder diante deste contrato social altamente excludente.
É um baile de máscaras o palhacismo de Bolsonaro e seus seguidores incontestes onde o que é encenado é a farsa de si mesmo, afinando os acordes da regência de interesses ocultos ou inconfessos na esfera pública. Assim foi ao assumir o cargo de Presidente da República quando, a Primeira Dama, encenou a centralidade da mulher e do discurso de libras. Como se fosse um aceno para as minorias em questão. Pouco tempo depois acabou com a institucionalização dos interesses das pessoas especiais. O mesmo vemos agora com a educação superior e básica pública que sofreram cortes que podem inviabilizá-las.
Esta encenação de contenção de gastos oculta interesses típicos do neoliberalismo, única faceta que obliteram: reduzir investimos nos serviços públicos para os sucatear e justificar o avanço do capital privado nesta área. O mesmo capital privado que apoio todo o processo de impedimento de Dilma Rousseff e que agora querem avançar em áreas estratégicas na construção da autonomia da nação.
Que siga o baila de máscaras na Democracia Republicana, posto que foram legitimamente eleitos. Resistam os que não fazem parte da festa, pois, calar é consentir com a orquestração do poder que se quer dissimular em palhacismo para não alardear os incautos eleitores do dividir para governar.
Almeja-se o conflito de instituições, ocultas pelo palhacismo do ator principal e seu asseclas , para esgarçar a democracia e justificar a ampliação do autoritarismo, uma vez que se diz em público que o Brasil é “ingovernável fora de conchavos”. Não os conchavos da democracia, mas, antes e sobretudo, os do autoritarismo militarizado talvez, até sem Congresso, para viabilizar as reformas – dentre elas sobretudo a da previdência e avanço da restrição os direitos do trabalhador –  que nos colocarão de joelhos ao capital internacional financeiro e industrial 4.0. Mas, tudo ao som de uma boa piada discriminatória e preconceituosa ao gosto do palhacismo que já tem dólar a mais de quatro reais, queda em dois meses seguidos de bolsa de valores e crescimento econômico negativo, o que nos coloca mais uma vez à beira da estagnação inflacionária.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A tragédia dos costumes em meio à crise político-econômica no Brasil

Como era de se esperar a trajetória de Renato J. Ribeiro foi breve no MEC. Homem das letras e das ideias críticas e emancipatórias não tinha como sobreviver em meio a um legislativo federal composto majoritariamente por conservadores de todos os naipes; alguns beirando e atuando de modo reacionário.
O Brasil legislativo acostumado a ministros que alteram a forma do ensino e quase nada faz no debate e discussão do conteúdo, se assustou diante de um ministro do vulto de Ribeiro que, entre outros temas, colocou no centro do debate público, sem subterfúgios que escamoteiam as intenções mais profundas, as questões do ensino de gênero e de religião na Educação.
Era o objetivo do ministro que estes conhecimentos e saberes ficassem à luz das ciências e das filosofias e não do prisma criacionista que tanto tem movido votos e falas reacionárias. Algo hercúleo visto que o modus operandi do Brasil desde a ocupação portuguesa foi a educação abaixo da fé quando se implementou por estas terras o que pela Europa era criticado: a cristandade e o padroado. Este modelo colonizador fincou raízes profundas que se evidenciam até hoje nos embates públicos do que deveria ser laico.
Como já havia escrito em “A crise entre preços e valores”, em 14/09/2015, a exoneração de Renato Janine Ribeiro era previsível em meio às demandas que têm como representante máximo o Presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e seu séquito de ideias carcomidas e com práticas postas sob suspeita em meio as denúncias vindas da Suiça. Mais um “salvador da pátria” que cai em descrédito diante da sociedade laica das mídias sociais?
Outrora a voz mais alardeada neste embate entre o secular e o sagrado na política partidária era a de Feliciano, por São Paulo, entre outros tipos de igual naipe reacionário espalhados pelo Brasil e sufragados para o legislativo. Todavia, estes, de certo modo, caíram no ridículo social pelo conteúdo e forma do que defendiam. Era reacionário demais para uma sociedade que se aventura no mundo pós-moderno a contragosto dos conservadores e reacionários.
A queda de uns é a ascensão de outros. Evidenciou-se uma nova estrela do pensamento reacionário, o Deputado Eduardo Cunha eleito, em tese, principalmente via voto religiosa da Igreja Assembleia de Deus – que, segundo a acusação, teria lavado dinheiro de propina do mesmo. Não por acaso este não entra em querelas diante de repórteres da tradicional indústria cultural, pois seu discurso tenderia a cair em descrédito diante da maioria da população. O Estatuto da Família, a (de)(re)forma eleitoral contrária a opinião publica são aapenas o início de um projeto político-ideológico muito maior e, por isto, para evitar os erros dos similares Feliciano, Bolsonaro, entre outros apela-se para o discurso profissional de advogados.
Assim, ficamos diante de um fato, a crise política que arrasta o país para uma de suas maiores crises econômicas é fruto do desejo de reformar os costumes dos outros via modelo religioso, onde, talvez, nem Jesus Cristo se encaixaria como família; sobretudo se utilizássemos a contraversão como teoria explicativa: teria Jesus Cristo sido concebido por um soldado romano que estuprou Maria de Nazaré?
Esse projeto político-religioso que não tergiversa com a pluralidade e a diversidade real da humanidade, e defendida pela ciência contemporânea, em nome de doutrinas idealizadas que só são reais nas mentes de seus aliados, às vezes, por motivos eleitorais e ou eleitoreiros, terminaria por tornar legal preconceitos e discriminações que reduzem os direitos de cidadania dos outros contrários a identidade forjada pelas doutrinas conservadoras e/ou reacionárias. Assistimos isto no ocidente recentemente no nazismo e no fascismo que ainda encontram condições sociais para se reproduzir com uma educação formal limitada de racionalidade e emancipação em favor do pensamento mágico de muitos professores com pouca ou nenhuma formação acadêmica sobre as ciências das religiões.
Neste contexto, barrada a votação dos vetos presidenciais, restava à Presidenta da República laica demitir o ministro pós-moderno em um País que resiste a entrar na modernidade com discurso científico e práticas e teorias críticas no que dia respeito a religião – um dos maiores cabos eleitorais na contemporaneidade. E, para fazer mais do mesmo, lançou mão do loteamento de cargos típica das velhas políticas. Neste modus operandi quase se desfez em uma noite quase tudo que levou o país ao descrédito internacional e a uma onde de desemprego até agora sem fim previsto. Afinal, o que são corpos famintos diante da salvação da alma? Apenas uma parte do purgar diante das escolhas de outros que nada sofrem com crises econômicas no cotidiano.

A laicidade republica tergiversa ao fazer acordo com o Vaticano pelo ensino religioso, foge ao (em)debate ao substituir um ministro crítico e emancipador aclamado pelos progressistas de todos os naipes, até mesmo por parte da oposição “ilustrada”, em nome de um ministro que colocará tudo nos eixos eleitorais ao atuar nas questões quantitativas e não qualitativas.

Nossa crise é de projetos e valores que se traduzem em preços? O preço da propina com oração agradecendo a Deus pela “benção recebida”? Os políticos que se revelam cada vez mais caso de polícia e não de política ou políticas, mas com poder para esmagar os projetos outros? Enquanto no estrelato da fortuna política de salários e gratificações e privilégios típicos da “nobreza de Estado” a crise não os alcança, nos andares bem abaixo, um em cada cinco lares há desemprego total. Mas, em comum, muitos, dos lados todos, com as mãos molhadas? Passados mais de cinco séculos do início do padroado na Terra Brasilis os embates entre fé e razão, crença e ciência ainda movimenta os bastidores da política mesmo que os corpos paguem em benefício da alma e a educação seja a imolada?