domingo, 23 de agosto de 2015

O poder da crise ou “apesar da crise”

Não nos enganemos. O capitalismo é um sistema de crises e as atuais crises política, econômica, elétrica e hídrica, entre outras, cumprem o papel fundamental do sistema de concentrar capital ou extrair capital do cidadão consumidor e trabalhador.
Uma das frases mais citadas nos últimos noticiários tem sido que ocorre investimento das grandes fortunas privadas “apesar da crise”. Não é apesar da crise e sim devido a crise. A crise gera as oportunidades de investimentos com alto retorno devido ao baixo índice de empregabilidade que possibilita menores salários e menos direitos sociais. Maiores vantagens em acordos com o Estado, como isenções e financiamentos a maior prazo e com menores juros, existência de capital a ser aplicado por investidores sedentos por lucros imediatos, entre outros fatores que favorecem o capital privado e esgarça o sistema de proteção social, de direitos trabalhistas.
Exemplo típico deste “apesar da crise” é o 11 de setembro dos EUA. Enquanto muitos choravam seus mortos, outros tantos a perda do emprego, muitos mais temiam os impactos da “doutrina do medo” ancorada no terrorismo; alguns poucos planejavam e efetuavam lucros multibilionários com a previsão da ascensão do mercado de armas, ouro e petróleo. Assim, em frações de minutos algumas economias evaporaram e fortunas se consolidaram.
O cassino do capital não para; mudam os jogadores e até os edifícios que sediam os jogos, mas, a febre alucinada por mais lucro não cessa. Isto o que ocorre agora com o Brasil. Após anos de avanços sociais, políticos e econômicos chegou a hora do grande capital apresentar a fatura e recolher os lucros vendendo ações, clamando por redução de custos e ampliação da idade de aposentadoria sem maiores ganhos monetários para mantê-los ativos no mercado. Até a família vê ceder seus direitos com a redução da parte a ser paga ao pensionista. Nada fica de fora do lucro, da concentração de renda.

Neste ponto a crise política no Brasil cumpre o papel de reduzir direitos sociais e trabalhistas, entre outros, da seguridade social, em nome da empregabilidade, da redução do custo Brasil, em outros termos, em nome da ampliação da extração do lucro do trabalho assalariado para maior competividade no planeta em condições semelhantes aos dos piores países socialmente falando.
As crises hídrica e elétrica retiram do cidadão comum parte fundamental de seu salário e com isto subsidia as grandes empresas que podem fazer acordos para manter-se no Estado ou no município com  redução de custos. E, com isto, “apesar da crise” não se expande o direito ou se incentiva a produção de energia solar nas residências pois retiraria o consumidor do papel passivo de ficar sem recursos e colocaria como agente do mercado e ampliador de seu renda, ou seja, inverteria o papel da crise que é concentrar o capital e ampliar a exploração.
A crise política por sua vez escamoteia o sentido das ações políticas ao grande público tentando ocultar o poder das engrenagens econômicas no comando da política que é financiada pelas grandes fortunas durante a campanha e, por vezes, mesmo depois. Neste ponto, nota máxima, a manifestação da FIESP e FIRJAN pelo fim da “crise política” ao lado de uma das maiores redes de comunicação conclamando pela governabilidade de Dilma acenam para o fato máximo: os objetivos imediatos de ampliação dos mecanismos de lucro e controle social foram atingidos cabendo ao Estado retornar ao ponto de ampliação da produtividade e consumo.

Todavia, nesta equação só não se contava com um aspecto surpreendente, a desvalorização da moeda chinesa. Um susto que pode tornar a crise espetáculo em crise de fato, mas, no ponto final, “apesar da crise” a crise para quem? Para o cidadão consumidor e trabalhadores que vive o choro e o ranger de dentes; aos donos do capital, apenas a rotina do cassino.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Questão de processo de acumulação

A sociedade humana tem se notabilizado pelas formas violentas de exclusão ao longo da história. Temos mais tempo de solução dos embates pelo uso da força que do diálogo. Temos mais tempo de abuso de poder do que de Direitos Humanos. Temos mais tempo de escravidão legal do que defesa da liberdade e da igualdade e da fraternidade para todos. Temos mais tempo de Direitos do Homem que de Direitos da pessoa (gênero e de diversidade e pluralidade). E assim segue.
                Não por acaso muitos são incapazes de compreender o mundo atual. Com uma educação formal de qualidade duvidosa a solução mais fácil para ser o engodo mais a antigo: o uso da força, do constrangimento, da perseguição, da exclusão social, da prisão.
                No que diz respeito a exclusão social vários países encontram problemas para escamotear sua distinção entre cidadãos de primeira, segunda ou sabe-se lá que fração de classe.
Este o caso da proibição de menores em Centros de Compras que por definição seriam espaços privados de uso público. Assistir  autoridades jurídicas que deveriam defender a criança e o adolescente acabam por primar pela defesa do capital excluindo tais cidadãos de direitos da cidadania - exclusão por classe.
Ler que um juiz amplia a diferença étnica da comunidade negra – e não só desta – ao negar ao candomblé o estatuto de religião chamando-a de seita é ápice de um pensamento positivista, há muito criticado por suas limitações e discriminações, em favor de um grupo que se pretende dominante e em detrimento dos os outros, os não brancos, os não cristãos.

Perceber que a configuração do crime de racismo é letra morta, pois, a maior parte dos juízes são brancos e aos crimes de etnia e raça atribui o qualitativo de injúria, fazendo assim que a lei não tenha o efeito necessário e urgente diante de séculos de escravidão e de abusos diante da cor da pele que não a europeia é vexame internacional nas terras verdes e amarelas.
Ler diariamente, na mídia social mais popular do planeta, que além de homens – fato reiterado no machismo de plantão – mulheres atacam a presidenta exatamente por ser mulher e atribuir a isto a sua incompetência é a evidência do quanto a mulher branca das frações dominantes tendem a ser a maior parceira do machismo, como dizia Heleieth Saffioti, e reproduz uma violência da qual também é vítima no espaço privado e por vezes público.
E, no topo desta lista, fica o anseio desmedido de grupos que diante da violência reiterada da sociedade defende o nazismo, a ditadura e a exclusão como motes à luz do dia com a conivência cúmplice de instituições regidas por pessoas com convicções pessoais nada democráticas ou humanitárias.

                Temos muito que trabalhar educando para transformar a visão de mundo excludente em inclusiva, de discriminadora para plural e diversa, de coação para emancipação. Enquanto falarmos “deveria” e tivermos dificuldade de expressar o “poderia”... a liberdade será uma conquista e não um direito, apesar do adiantado da história.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Embates e manifestações

Alguns embates são milenares. Outros seculares. Embates Milenares assumem diferentes variações ao longo dos séculos. Este o caso da legitimidade da posição social, do status.
Uma das formas mais longevas de status é o nascimento. Do mundo grego, passando pela monarquia, aos “bem nascidos do capitalismo” é uma constante que encontrou diferentes formas de legitimação histórico-social-político-cultural-científico.
Ao mundo antigo e às monarquias interessavam o nascimento divinizado. Quer o herói grego – um semideus –, ou o nascimento de origem divina das monarquias absolutistas – mas, não como casos únicos na história – o papel do sagrado foi lapidar para a detenção do poder que subjuga, controla e explora a maioria da população. Num contínuum histórico do mundo antigo ao moderno o papel da religião foi fundamental para o controle social tido e havido como legítimo pela maioria das consciências.
Legitimar um mundo organizado, para os gregos, criado, para os cristãos, pela(s) divindade(s) foi papel desenvolvido pelas religiões clássicas e depois pelo cristianismo, primeiro católico e, posteriormente, também, protestante. Neste terreno o papel educador era predominantemente realizado pelas igrejas e seus anexos – conventos, mosteiros, escolas religiosas...
Todavia, a este poder divinizado que se escorava na estabilidade das relações sociais, econômicas, políticas e, sobretudo, na produção do conhecimento que não escapava aos limites do legitimado pelo poder, encontraria a crise em sintonia ao final do mundo moderno.
A substituição progressiva da nobreza e da realeza por outras forças na economia, primeiro, e depois, no poder de Estado, precisaria de outra ideologia – enquanto ciência das ideias – para legitimar-se no poder.
Não é mero acaso histórico que a obra de Charles R. Darwin, A origem das espécies, de 1859, tenha sido produzida depois da Independência dos EUA, 1776 – data da Declaração da Independência – da Revolução Francesa, 1789, entre outras datas republicanas que substituíram a monarquia como forma de governo legítimo e nobreza enquanto grupo de privilégios. 
Aquele mundo natural de ordem estável universal eterna da explicação religiosa, já não contemplava os interesses políticos, econômicos e culturais da nova classe que assumia o poder e fazia construir e impor sua visão de mundo. Neste ponto, substituir a ordem divinizada de saberes de verdades eternas imutáveis pela ordem científica de saberes provisórios era fundamento da legitimidade do poder que controla e explora a ordem social no capitalismo de tem como mote a circulação das classes - mais na teoria que na prática.
A origem das espécies traz uma ideia, primeiro ridicularizada pela religião e pela burguesia, devido ao seu poder original e exemplar, todavia, com o tempo, a elite capitalista e política das repúblicas notam seu papel legitimador da nova ordem em substituição a ordem monárquica. Embora a igreja permanecesse no discurso defendendo que o melhor dos regimes era a monarquia, na prática, esta perdia espaço a cada década.
Legitimar este processo histórico de substituição do poder historicamente construído e instituído  encontraria sua pedra de toque na ideia da evolução. Assim, a história seria uma evolução onde a transformação realizada pelos mais apitos iria se impor por uma questão de razão. Deste prisma evolutivo da sociedade humana, numa transposição grosseira do biológico para o cultural – Darwinismo social – a burguesia encontrou uma âncora para o seu poder. Os mais ricos, os mais adaptados a ordem capitalista e a seu modelo civilizacional seriam os que permaneceriam no jogo e a circulação das classes garantiria a equação.
Estas ideias, mais que criticadas pela humanidades, permanecem nas mentes e nos corações de muita gente que quer se auto representar e se autocompreender como ápice da elite evolutiva social, cultural, econômica e política. Neste ponto, parte-se para a deslegitimação e desconstrução de qualquer outro discurso que possa trincar o edifício “científico evolutivo” que tantos serviços prestaram e presta ao capital na legitimação de uma circulação das elites que pouco existe no plano real.
O Estado de bem-estar social seria uma das trincas deste edifício legitimador da ordem de controle e exploração da maioria no capitalismo republicano e democrático. Este Estado de bem-estar social visto no Brasil na letra da lei, há décadas, é o pomo da discórdia na política contemporânea. Mais ainda quando viabiliza de fato, e não apenas por direito, a ascensão de  frações de classes.
Certo grupo que se autocompreende como “elite” – não passando quando muito de classe média – se exaspera por ver como políticas públicas bem elaboradas, com eficiência e eficácia aplicadas, podem não ampliar o nível de status de todos, mas, antes, entendida como redução do nível de status das "elites tradicionais". A preocupação não é com o bem-estar coletivo, mas, com o sentimento privado de sucesso individual e individualista que se vê limitado pela possibilidade de uma parte da sociedade, que era mantida na miséria como plataforma de exploração ad infinituam, ser minimizada em seu grau de aviltamento.
Neste ponto de disputa, qualquer ator social que possa parecer “trair” sua classe em nome do bem-estar é severamente punido. Os exemplos não são poucos: o advogado fotografado em camisa sem mangas e vilipendiado como se fosse mais um dos disponíveis ao clamor de uma distinção entre os que podem ou não estar no aeroporto e voar; Jô Soares ao entrevistar a Presidenta foi ameaçado de morte; o príncipe da Sociologia FHC destratado por defender a possiblidade de inocência evitando o pré-julgamento que tanto agrada aos defensores do Estado de exceção, da Ditadura e do autoritarismo.

Estas vertentes de uso da força como meio de legitimar o poder, pensando que fazem parte da elite evolutiva que nunca existiu, apesar do nazismo que implica, é uma excrecência histórica no século XXI. Afinal, a democracia pode e deve conviver com o diverso, o plural, e neste incluso, o direito a vida e manifestação de nazistas, ditadores, autoritários e outros naipes ao mesmo estilo. O que a democracia não pode é permitir que estes grupos assumam o poder de legitimar a ordem e de tomar o poder. Mais que isto, a democracia precisa cumprir o papel de educar e evidenciar que por trás de nomes como “Brasil Livre” estão pontos de vistas duvidosos na referência democrática e um de seus baluartes, os Direitos Humanos.
Afinal, se o uso de termos belos à sociedade democrática – mesmo que evolutiva -  fosse garantia de bem-estar o lema do PCC poderia ser aplaudido em praça pública pelos incautos e desinformados: “Paz. Justiça. Liberdade”.

Ao sair as ruas nas próximas manifestações lembre-se, não pode os meios democráticos de participação, de liberdade, de expressão serem meios para legitimar a ausência de liberdade, de Direitos Humanos e do Estado Democrático de Direito. 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Justiceiros?


@ justiceir@ parte da ideia de que é capaz de fazer justiça tomando para a si a capacidade de decidir o que é justo, moral, injusto, imoral, criminoso ou ilícito em conformidade ao senso comum palatável a cada cultura em seu tempo e espaço em detrimento da função do Estado; considera que as instituições não são capazes de realizar a justiça com o mesmo rigor e urgência. Tomado pelo sentimento de injustiça toma para si a ação que seria do Estado e, à margem da lei, portanto, incorre em crime. Partem, @s justiceir@s para fazer justiça com as próprias mãos quer sejam civis ou representantes do Estado.
Fortalece-se o fenômeno do justiceiro na medida em que o Estado não reprime tais ações, por seus meios legítimos e legais, com eficiência e eficácia. É fenômeno que reflete a ineficiência ou ausência do Estado e, mais que isto, uma certa conivência silenciosa com o statu quo social, mesmo que ilegal, de fazer justiça com as próprias mãos da turba pouco educada – uma cumplicidade baseada em valores sociais que não são legitimados pela ordem legal e dos Direitos Humanos.
O Brasil tem assistido ao crescimento desta ação em diferentes campos sociais face a quase inoperância do Estado.
Do ponto de vista religioso a quebra ou desfiguração de imagens católicas, em praças públicas ou templos que são invadidos, tem a mesma raiz e tem se tornado rotina e tem sido ignorada a sua importância social enquanto deslegitimação do patrimônio histórico cultural e artístico do cristianismo católico em favor de outras visões religioas em franca expansão em número de votos e ausência de ecumenismo ou tolerância religiosa, nem escreverei sobre aceitação religiosa. Não é preciso evocar que se aproximam, tais ações, do justiçamento realizado pelo Estado Islâmico que destrói imagens históricas milenares em nome da religião enquanto instrumento político de controle e exploração. São, na realidade, uma vergonha para o islã.

Na mesma linha de conduta de justiceiro, Kailane Campos, com 11 anos de idade e iniciada no candomblé, foi alvo, no dia 14 de julho de 2015, de cristãos, numa denominação genérica de evangélicos, que denigriram e insultaram a jovem e a avó dela, a mãe de Santo Káthia Marinho. Segundo esta “O que chamou a atenção foi que eles começaram a levantar a Bíblia e a chamar todo mundo de ‘diabo’, ‘vai para o inferno’, ‘Jesus está voltando’" e, assim, com a Bíblia em uma mão e uma pedra na outra fizeram da menina alvo de “apedrejamento” em praça pública. O caso foi registrado como lesão corporal, provocada por pedrada, preconceito de raça, cor, etnia ou religião. Na prática assumiram o papel de justiceiros ao ressuscitar o apedrejamento bíblico, uma demonstração de questionamento da ordem do Estado Laico na firme certeza de que ficariam impunes. Afinal, no Brasil o crime de racismo não alcança os brancos sempre condenados por injúria racial, fazendo-se assim, cúmplice com a letra morta via judiciário.
O arcebispo do Rio de Janeiro atento ao que ocorre na sociedade  - e com sua Igreja em particular – e as repostas (ou seria a ausência desta) dadas pelo Estado aos crimes de depredação de imagens religiosas católicas, somou sua voz a de Kailane Campos e Káthia Marinho.
Em um outro vértice da mesma questão, no dia 6 de julho de 2015, foi espancado até a morte Cleidenilson Pereira Silva, em São Luís, no Maranhão, após tentativa de assalto. E, não é caso isolado no Maranhã ou no Brasil. É de se notar que o linchamento atingiu com vigor o “suspeito” negro e poupou a vida do indiciado “branco”.
A impunidade dos justiceiros é garantia de repetição em meio a uma população entre cúmplice e algoz, quando não vítima. Mais que isto, a fala contra os Direitos Humanos de tantos “ilustres” da mídia, neste campo minado de direitos, com redução da idade penal aplaudida por parte significativa da sociedade, faz surgir candidatos aos executivos municipais, eleição de 2016, onde este caráter justiceiro – uma releitura do caçador de marajás, só que voltando a ira secular das injustiças sociais e judiciais, agora, para os mais pobres – passa a ser tônica simbólica. Não por acaso nomes como Datena e Russomano, além de militares e delegados, vêm à baila com “notoriedade”.
 Ou, para além disto, nas manifestações contrárias ao governo federal de Dilma Roussef palavras de ordem pela ditadura – o que é crime – alardeiam-se ao calor do dia com a cumplicidade das autoridades que refletem o pensamento mais que secular de que política social é questão de política e não de política pública.
Tristes tempos onde o Estado é quase de exceção, onde a ausência da eficácia do direito suspende o Estado de Direito, e parte da população vibra com isto – diante da exploração que são submetidos vingam-se dos andares de baixo. Isto demonstra a nossa fragilidade enquanto nação democrática de direito.







domingo, 12 de julho de 2015

Cristiano Araújo na voz de Zeca Camargo: a questão da “crítica da arte”

Quanto Immanuel Kant (1724-1804) abordou a questão da estética e o papel do artista afirmou que o gênio artístico é original e exemplar, ou seja, é o formador de novas regras na arte que produz a tal ponto que se torna exemplo a ser observado pelos demais artistas da área em questão. Este o traço das contribuições originais. Cristiano Araújo passaria por esta peneira?
Pela peneira de Kant, possivelmente, passaria Aleijadinho, Oscar Niemayer, Machado de Assis, Heitor Villa-Lobos, Elis Regina, e alguns outros. Bem poucos outros!?
Zeca Camargo não errou ao analisar a produção artística de Cristiano Araújo. Equivocou-se no tempo que o fez. Não analisou a comoção popular como elemento do show business, da lucratividade da indústria cultural que pouco ou quase nada quer com o gênio ao estilo definido por Kant por propiciar pensamento e sentimentos livres e autônomos que podem tirar o povo da massa consumista.
Cristiano Araújo é fruto de seu tempo e espaço. Conhecido “nacionalmente” estava num terreno entre a cultura popular e a mídia de massa; num ponto onde o sucesso está marcado pela lógica do lucro e pela da exposição visceral. Onde o músico é produto temporário, mas, no emergir tem força suficiente para movimentar milhões pelas massas que o consomem no formato de shows, CDs e DVDs, conteúdo de jornais, revistas, sites, etc. Assim, e não por acaso, uma de suas maiores defesas foram a cifras que movimentou no país enquanto vivo e, para o lucro do espetáculo sua morte renderia ainda mais pela comoção que se ameniza pela via do consumo das “últimas lembranças”.
Zeca Camargo ao buscar fazer uma autocrítica, no sentido de viabilizar uma análise do meio do qual é fruto, a mídia de massa com sua lucratividade pela “arte” produzida em massa e quase unitemática – o alienante amor burguês individual e individualista que faz do outro objeto e não sujeito do amor, onde o “caipira enlatado em moldes semi-norteamericanos é o ápice da “sofrência” egoística – terminou por expor o quanto o público da mídia de massa é limitada pelo próprio meio que a (des)educou e vista diante do espelho ignaro se recuou a olhar o espelho o narciso Zeca se refletia.


O choque não poderia ser menor para um público colocado diante de uma crítica feita magistralmente pela Escola de Frankfurt. O trauma comovente uniu as massas, as mídias para a inquisição midiática do crítico que se rendeu penitente e pediu desculpas diante do fato, já assinalado pelo kant – que possivelmente poderia ter inspirado um Zeca Camargo crítico – a razão cria monstros que a própria razão desconhece! 

sábado, 27 de junho de 2015

Carta aberta ao LLulla ou as razões da decadência do PT

“Revolução vinda de cima” e adesismo são as duas das pragas políticas que acentuadamente marcam a História do Brasil, sem querer tocar no clientelismo e no mandonismo, por hora. E, estes os elementos que conduzem o Partido (que foi) dos Trabalhadores ao cadafalso do poder.
Ao ser sufragado à Presidência da República o Partido dos Trabalhadores rendeu-se a forma mais tradicional de poder, o personsalismo – e neste ponto da história o foco de quase tudo – o lulismo. Interessante como a substituição da monarquia não obliterou as razões de poder pessoal. Inicia-se neste ponto o conservadorismo do Partido dos Trabalhadores.
Ao lado do personalismo, uma das seduções do poder é aliar-se aos detentores do poder tradicional. Esta uma tendência história do domínio monárquico ou burguês republicano e/ou democrático. Aliar-se aos tradicionais detentores de poder político e econômico equivale ao adesismo dos partidos políticos. O rei está morto. Viva o Rei! Melhor dizendo: Viva o Presidente!
Neste enredo tradicional do poder o Partido dos Trabalhadores se aliou aos que se propuseram da fundação à campanha que os elegeu – mesmo diante da “Carta ao povo brasileiro”, de 2002 – se não combater, construir uma modelo alternativo de governo para viabilizar um novo modelo de sociedade pautada pela democracia na busca da tão propalada fórmula da justiça social.
Todavia, unir-se aos oponentes opulentos para viabilizar projetos de “justiça social” era o suicídio político retardado pela morfina do poder. Este adesismo partidário perpetuaria um poder onde as contas públicas roeria os lanços. Num acúmulo contínuo de desgaste de poder diante de um povo que assiste a “esperança que venceu o medo” ceder diante dos fatos: juros altos, desemprego, impostos, taxas, inflação, cortes de direitos trabalhistas, redução dos direitos de pensionistas, em suma, retorno, em um prazo de menos de um ano (2014-2015), a patamares semelhantes ao que era chamado de “herança maldita” do PSDB e piorando, em muito, a vida da classe média tradicional, até então uma sobrevivente histórica do financismo do Brasil.
Ao buscar uma “revolução vinda de cima”, no caso das elites partidárias e econômicas, o Partido dos Trabalhadores se afastou gradativamente de suas bases históricas para se refestelar com as bancadas religiosas, com os banqueiros e empresários que muito receberam do Estado e pouco, ou quase nada, fizeram de efetivo para além do financiado pelo dinheiro do povo – afinal, neoliberalismo bom é para o povo – ou sem avanços de políticas públicas de terceira geração –, aos empresários continua valendo o financiamento público em longo prazo e com juros subsidiados pelo suor alheio.
Face a esta cesta de elementos – onde Cleópatra colocou a mão e morreu para manter a coroa mesmo perdendo o reino – realizar o suicídio, para fazer como Vargas “saio da vida para entrar na história”, no caso, da vida político-partidária, seria o golpe mais vil. Posar de bom moço, de defensor do projeto histórico do partido e da ética quando fez aliança de Collor a Maluf, passando pelo isolamento de Suplicy e outros aliados críticos que se mantiveram no projeto contra as razões pragmáticas do poder, é construir um castelo com areias movediças que conduzirão o lulismo e o petismo – num abraço de afogado – para onde a direita e o capitalismo sempre sonharam e trabalharam para atingir: o desabono.

Neste ponto – e não por acaso – na véspera de embarcar para os EUA (27 de junho de 2015), a Presidenta DDillmma acenou com força para seus aliados históricos – as mulheres, em especial, e para os grupos discriminados – ao pautar a questão de gênero e poder, no caso o dela mesma como quem esperava comoção. - “Você já ouviu alguém dizer que um presidente homem se intromete em tudo? (...) Acredito haver um pouco de víeis de gênero. (...) Você tem de conviver com as críticas e com os preconceitos.”
Não haja dúvida presidenta que a questão de gênero pese, mas, foi o seu governo um dos que mais compactuo com os aliados que trabalham contra o que chamam, os oponentes, de "ideologia de gênero". Agora colhe o amargor de ser cúmplice do machismo, do patriarcado, tudo devido ao fato de ser branca. 
No mesmo dia, 26 de junho de 2015, a Suprema Corte dos EUA decidiu pela legitimidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E, neste ponto, acenando para os aliados históricos do PT, do Planalto ao Ministério das Relações Exteriores, passando pelo Ministério da Educação, palco doa maiores embates dos combatentes contrários aos estudos e ensino de gênero, foram iluminados pelas cores do arco-íris – símbolo da diversidade humana.
Para um bom entendedor, um ponto é letra?
DDillma deseja romper com as alianças espúrias de LLulla - o grande patriarca do PT. A criatura chegou a maioridade e deseja ir para além do que os olhos do mestre possam enxergar ou pretenda controlar. A mulher quer emancipar-se via feminino. Novos ventos virão a tona, entre elas, o alvoroço dos adesismos que tanto minaram o projeto do PT com as feministas e os LGBTs.
Basta de “Revolução vinda de cima”? A Presidenta terá disposição para enfrentar as bancadas reacionárias que controlam o Congresso? Ou, foi tudo festim - as cores do arco-íris nas fachadas e nos facebook das instituições Estatais - numa manifestação do que o oponente FFHH chamaria de "dependência" e os mais críticos de herança do colonismo como inclinação do dorso para Obama que a receberia no mesmo dia?

sábado, 20 de junho de 2015

As comoções do século XXI: com a palavra Boechat “contra” Malafaia.

As comoções – virtuais ou presenciais – têm papel catártico na população, algo de primevo que as religiões contemporâneas perderam em nome do mercado capitalista salvo no último instante pela teologia da prosperidade. Assim, apenas o capital puro e simples é pouco. Faz-se necessário associá-lo ao intangível prestígio distintivo para além da classe social, mas que demonstre a classe do sujeito. O merecimento. O salvo conduto. O carisma.
As manifestações de junho de 2013 tiveram certo caráter de comoção nacional no Brasil. Muitos foram às ruas pelos mais diferentes motivos – do direito de ir e vir sem restrições econômicas à liberdade de imprensa passando pela demanda de uma política mais transparente e, por conseguinte, honesta, além dos subgrupos (naquele contexto) que se fizeram representar. “Não nos representa” foi um lema que exacerbava a distância entre o eleitor e o sufragado. Denunciava a distância entre a campanha político eleitoral e a prática legislativa e administrativa.
Não por acaso, meses depois Nelson Mandela (1918 – 2013) ao morrer teve sua memória aclamada publicamente no Brasil em todas as redes sociais. A internet – meio democrático de acesso e transmissão da informação, e, por conseguinte dos significados do mundo – fez com que a imprensa corresse atrás para fazer juz ao eco virtual do reconhecimento do valor humano-histórico-social-político-cultural de Mandiba. A comoção deu-se diante de uma história de sofrimento – aquela típica dos deuses – e que, apesar de todos os percalços, saiu-se vitoriosa na representação de patê considerável das aspirações da população negra sul-africana. Simbolicamente, vitória do povo oprimido, pré-conceituado, que aprendera o papel discriminador e segregador do apartheid na África do Sul. Uma vitória dos valores humanos, dos direitos de igualdade e liberdade – tão caras ao mercado, também.
Outra comoção nacional ( ou melhor duas, a dos acusadores e das defensores) irrompeu em meio ao julgamento do Mensalão (2005-2006) que se arrastou, no STF, de 2013 a 2014 e teve os primeiros mandatos de prisão expedidos em 15 de novembro de 2013. José Genoino e José Dirceu, ao serem presos, apresentaram-se como mártires da perseguição política da direita, apesar do STF ser composto principalmente por indicados ao longo da Presidência do PT. De punhos erguidos e cerrados fizeram o discurso silencioso da derrota pessoal enquanto vitória de uma causa. O Partido dos Trabalhadores foi na mesma linha e os manteve filiados. Erro histórico e irreparável até o presente. Nada mais portador de descrédito que arvorar-se como senhores da história e auto proclamarem-se injustiçados. Este o papel da história e não dos atores em questão – apesar de poderem se manifestar como inocentes. E, para manter os ânimos acirrados deflagrou-se em março de 2014 a Operação Lava Jato.
Neste ambiente acalorado de denúncias e demandas por um País mais honesto, justo e, de certo modo igualitário, embora estes três elementos nem sempre se conjuguem em uníssono pelos lados envolvidos, o Brasil assiste a catarse nacional realizar-se em meio a manifestações públicas na rua ou no espaço virtual. Aliviados por poderem dizer o que bem querem e onde e quando puder, a população realiza o ritual emotivo, num misto de revolta nas ruas e motim popular virtual, pelo choque que se pode causar aos atores detentores do poder numa quimera de se alterar a estrutura do poder.

Neste ambiente de construções de comoções – entre as quais as vividas diante do espetáculo da intolerância religiosa ao candomblé, ao túmulo do espírita Kardecista Chico Xavier e aos inúmeros casos de invasão dos templos, praças e cemitérios com símbolos católicos depredados – que possam apaziguar as gentes da Terra Brasilis é que ouvimos, no dia 19 de junho de 2015, a resposta entusiasmada de Ricardo Boechat a Silas Malafaia – “O Malafia, vai procurar uma rola”.
A frase é machista, falocentrica, patriarcal. É como dizer que tudo se revolve com o “poder do macho” na base do líquido seminal. Todavia, a expressão alcançou tamanha projeção não, apenas, por refletir o sexismo transnacional multimilenar, mas, antes, pelo seu poder de comoção de expressar o que muitos desejariam dizer, enquanto, condenação a um tipo de prática discursiva discriminatória e preconceituosa. A dimensão de comoção foi tão ampla que mesmo algumas feministas de renome internacional não se contiveram e compartilharam da ânsia. Quase um estupro coletivo do Malafaia em nome do combate ao machismo, a homofobia e outros tantos elementos. 
O braço erguido cerrado é também um símbolo fálico.
Isto mostra as raízes profundas do sexo como dominação, controle e exploração a tal ponto que não conseguimos nos livrar das amarras ancestrais, que tanto criticamos no verbo, mas, de n maneiras compactuamos na prática, afinal, o que é comoção para uns; é terror, para outros.