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sábado, 8 de fevereiro de 2025

Ética: razões e emoções

Ética: razões e emoções

 

Ética é uma área de estudos da filosofia que pesquisa a moral, os princípios e valores que regem a vida e o comportamento humano.

Desde a Filosofia, no seu nascedouro, quer no Egito Antigo ou na Grécia Antiga, a questão da reflexão dos valores e princípios foi questão fundamental para os embates e a ponderação intelectual, política, artística, social, cultural e econômica.

A Filosofia e a Ética não ficam restritas ao meditar sobre a vida. Elas se estendem para o mundo concreto das relações, interações, poder, coerção, libertação e autonomia. Atinge o cotidiano das pessoas que vivem e sentem no dia a dia. Conduz atitudes e percursos históricos vividos por todos.

Filosofia e Ética contribuem para questionar nossas ideias e conceitos sobre a vida e o viver, o trabalho e o trabalhar,  enfim, o saber, a arte, a ciência, a política, os conceitos fundamentais da existência na busca de construir sentidos. Com isso estimula a autonomia de pensamento crítico face a sociedade e suas ideologias propaladas como solução fácil e reprodutiva da vida em busca de liberdade que é condição humana preliminar.

Com isso, pode-se depreender que a Filosofia e a Ética são filhas da democracia e a ela sustentam nos princípios da busca da autodeterminação quer dos povos como dos indivíduos.



No campo da razão, pode-se dizer que a Ética é: 1) farol na tomada de decisões, simples, complexas ou controversas; contribuindo para as deliberaçoes face as opções possíveis e plausíveis na busca do justo comportamento; 2) aprimora o convívio social, e no ambiente de trabalho colabora para a harmonia ao instrumentalizar princípios como respeito, honestidade e responsabilidade, garantindo a confiabilidade de uns nos outros e tornando as relações mais positivas; 3) implementa o senso crítico que se apura progressivamente aos níveis mais elevados de aprendizagem e conduta, questiona os valores e normas estabelecidos pela moral ao identificar contradições, injustiças e parcialidades, neste instante busca soluções equitativas e justas para todos sem distinção ou privilégios; 4) aprimora a consciência moral dos indivíduos ao questionar os próprios valores e os da comunidade em direção a ação que tomam antecipando os impactos na vida real e emocional das pessoas o que colabora para buscar maior responsabilidade e integridade; 5) colabora para a construção de um mundo mais justo e igualitário indo em direção a equidade ao promover valores humanos e de trabalho que visam a solidariedade e a liberdade de decisão com responsabilidade e consciência para decisões e ações bem informadas e positivas para todos.

Longe de se analisar a Filosofia e a Ética como campo exclusivo da razão, há de se fazer as ponderações sobre as emoções no filosofar e na ética. Estas evocam emoções positivas e negativas, sendo uma experiência única e mediada pelas crenças, valores e experiências pessoais vividas pelos indivíduos, comumente chamadas de moral.

Quer sejam as emoções positivas ou negativas, elas movem o sujeito na busca de respostas éticas à existência pessoal, coletiva ou no trabalho ampliando seu senso crítico inclusive sobre o que sente e porquê sente desta ou daquela maneira.

Assim, sentimentos positivos como 1) curiosidade sobre o certo e o errado, o justo e o injusto, o moral, o imoral e o amoral; 2) empatia e compaixão aos outros face aos dilemas e as diferentes perspectivas; 3) inspiração à ação justa e feliz ao estudar as diferentes doutrinas filosóficas sobre a ética; 4) esperança de uma vida mais justa, feliz e equitativa face aos desafios da moral, da sociedade do ambiente de trabalho, se não no presente, no futuro próximo; 5) empoderamento na tomada de decisões balizadas numa informação de qualidade propiciadas pela história da filosofia e da ética

Por outro lado, sentimento que poderiam ser chamado, grosso modo, de negativo, nada mais é que o espanto, a admiração filosófica face ao mundo que se move e ao se mover nos leva juntos, não de modo passivo, mas ativo ao transformar o mundo na busca de valores e princípios que possam nos guiar numa vida justa, humana e feliz com equidade.

Assim, as emoções negativas nos movem face ao novo ao nos desafiar a refletir e a agir de modo ético, apesar dos contrapesos. Dentre estas pode-se destacar 1) o desconforto ao questionar a moral, as nossas próprias crenças e valores o que pode nos conduzir a um estado perturbado diante do imediatamente novo modo de viver e deixar viver; 2) frustração diante dos dilemas éticos que desfazem as armadilhas do senso comum de soluções simplistas e imediatistas, a impotência diante do real é a potência da reflexão diante de uma nova ação a se construir ou reconstruir o mundo e as pessoas; 3) ansiedade diante de nossa falibilidade face a ação da  moral e da ação ética e o desafio de construir novas normas e práticas; 4) indignação frente a injustiça e a desigualdade que podem parecer, em princípio, intransponíveis.

Todavia, nenhum destes sentimento ditos negativos nos leva a desesperança, pelo contrário, o filosofar ético convida a reinventar a vida e a sociedade, bem como o mundo do trabalho. Este o sabor da admiração filosófica diante do mundo e da vida que se move, ainda que lentamente, mas move as ações no mundo e para o mundo justo, feliz, humano e equitativo.

Estas emoções negativas ou positivas nos lançam no processo complexo de aprendizado e reflexão contínuos do como é a vida, que além de intelectual e racional, é emocional e, por vezes, ambígua. Dando oportunidade de crescimento e aprendizado dignos do que conclama o filosofar ético.

Tudo isso colabora para desenvolvermos uma compreensão mais profunda de nós mesmo e do mundo ao nosso redor e nossa responsabilidade implícita ou explícita na ação no mundo, para o mundo e face ao mundo.

A ética é um campo de estudo essencial que nos ajuda a navegar no complexo mundo das decisões morais e a viver uma vida mais plena e significativa do ponto de vista humano, da justiça e da equidade.

O desafio está lançado e o tempo da demanda já e milenar.

Grato e atenciosamente,

 Prof. Dr. Wlaumir Doniseti De Souza

Graduado em Filosofia Pela PUC - BH e Pedagogia pela Faculdade São Luís de Jaboticabal

Mestre em História e Doutor em Sociologia pela UNESP. 

 Membro da Academia Luso-Brasileira de Artes e Poesias, cadeira 17. 

Membro da Academia Ribeirão-Pretana de Educação (ARE), cadeira 34. 

Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras (ARL), cadeira 28

Currículo da Plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/5216264437176590

"Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além" (Paulo Leminski) 

 

 

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Bolsonaro e a revolta do senso comum e religioso


A cada nova eleição é renovada a esperança de tempos melhores. De uma economia estável e próspera sem inflação e juros baixos, de uma sociedade mais participativa, de um congresso mais ético e representativo da vontade nacional, entre tantas outras questões da fé política, como o fim da corrupção de um mandato para outro.
Quando se elegeu Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Sivla, Dilma Rousseff e agora Jair Messias Bolsonaro todas estas questões de fé política estavam presentes. E, cada vez com maior vigor a busca de um representante que tivesse um governo onde não houvesse corrupção. Recordando que este ciclo democrático iniciou-se sob o lema das cores da bandeira na busca do fim dos marajás. Seria o fim da Nova República?
A busca do povo por um governo e um Estado honestos é legitima e, mais que isto, demonstra que a crise sucessiva, e até aqui infinda, que se vive neste País tem esgarçado cada vez mais o tecido social que viabiliza a solidariedade social. E, contradiz, o complexifica o dito popular de que o governo é a cara do povo. Ao menos na busca da honestidade parece divergir nos anseios.
Todavia, se no passado a dependência de instituições para organizar movimentos era premente o que equivalia a dizer que se veria mais do mesmo na política. Agora, com as redes sociais altamente popularizadas no Brasil, elas se tornaram um veículo que podem fazer eclodir insatisfação generalizada por movimentos de ação direta cada vez mais reais no cotidiano. O que remete ao fato de que ao sistema econômico capitalista que se alimente de crises somou-se a crise constante na política.
Em boa medida isto se faz pelo desgaste das instituições que deveriam representar o povo ou interpretar sua vontade: os três poderes. Interessante notar que a insatisfação que seria dirigida principalmente aos políticos por não representarem a nação tem se movimentado contra o judiciário e , agora, também, os professores pelo discurso mesmo da política partidária.
E isto faz parte do processo histórico de transformação do projeto burguês que teve na origem a cumplice da ciência e da filosofia. A ciência com seu saber prático, metódico, testado e validado desbravou o mundo para o avanço do lucro burguês e desmistificou o poder da religião e da metafísica que legitimavam as monarquias, eram as raízes da razão instrumental. A Filosofia, por sua parte, elaborou todo o discurso para legitimar a propriedade privada e a representação social via eleições (de burgueses) e da tripartição dos poderes democráticos e republicanos.
Assim, se o projeto burguês se contrapunha ao monárquico, logo o projeto burguês faria emergir o seu contraditório. E isto se deu para além do povo, isto ocorreu sobretudo no século XX com a popularização da ciência que saiu do privilégio burguês e se espraiou pelo subproduto do capitalismo, as classes medianas, de onde a conscientização constante deste grupo que os interesses burgueses não eram os seus.
Boa parte destas classes medianas dedicam-se aos ramos da ciência que permanecem cumplice, e por isto mesmo mais bem remuneradas, com o projeto burguês de ampliação do lucro a qualquer custo social.  As áreas técnicas e teconológicas líderes por excelência da manutenção e avanço da razão instrumental.
Contudo, as humanas, que outrora legitimaram o projeto burguês de democracia republicana, ampliou seus horizontes para perspectivas não gratas a burguesia. As questões sociais. Isto foi uma ruptura na interpretação da realidade que se aprofunda com as teorias críticas do sistema. Uma traição ao burguês que teve como principal aliado de seu projeto político e produtivo a ciência e a filosofia.
Isto posto, a burguesia reage àquela que seria sua matriz de pensamento e busca pôr freios a esta produção de saber e celebra seu casamento com a religião. É o coroamento do pensamento conservador. Mas, para cada tempo sua religião predominante é construída aos moldes dos interesses a legitimar. No nosso caso é o lucro o deus a ser contemplado encontra melhor espaço na teologia da prosperidade mais ampla entre evangélicos.

Passo a passo em meio a redes sociais que são o paraíso do senso comum vê-se a ciência e professores serem questionados por piadas e trocadilhos aparentemente pueris, mas que tem como pano de fundo deslegitimar a ciência humana em nome da religião. Uma melhor parceira para o projeto burguês, pois que desenvolve servos em meio ao que seria cidadão.
Assim, edifica-se uma contradição mais profunda no projeto burguês. A necessidade da aparente irracionalidade e do caos em seu devir aos olhos do povo. O espaço propício a revolta do senso comum diante do fracasso do projeto neoliberal em andamento.
É neste contexto que se inscreve o lema de Jari Bolsonaro – Brasil acima de tudo, Deus acima de todos; e o projeto “Escola sem partido”. É um lema que apaga as individualidades cada vez mais valorizadas pelas ciências humanas e professores,  e negada pela religião ao (in)por modelos para todos numa negação da contradição entre maioria e minorias.
O caldo está pronto. Veremos a que nos levará em meio ao senso comum e da religião em detrimento das ciências neste governo que se iniciará.

sábado, 19 de outubro de 2013

Um filósofo entre nós

Um filósofo entre nós

Postado em 06 de Outubro de 2011 às 09:10 na categoria Caleidoscópio
Por: Carla Mimessi

A principal proposta do blog “Devaneios Culturais” é justamente abrir espaço a diferentes olhares: olhares voltados às mais variadas facetas do homem e suas manifestações, voltados à história que ele tem escrito e àquelas que ele rascunha em seu dia a dia, às vezes com os gestos, com o contato, com a tolerância ou seu avesso, a generosidade ou antônimo, enfim, nos pequenos atos em que construímos um amanhã para nós mesmos ou para aqueles que nos cercam, ainda que de forma imperceptível.
A partir dessa semana, teremos no blog um novo tema para reflexão: a sociedade e o gênero, assunto que tem norteado as notícias semanalmente, sobretudo em sua face mais agressiva — a intolerância diante da diversidade.
No século passado, uma nova mulher se teceu lentamente: ela rompeu amarras, se liberou, ganhou o mercado de trabalho e, sem perceber, abriu uma lacuna, subverteu os fios e as tramas de uma rede social até então segura e aparentemente bem-acabada. Mais uma vez, o rearranjo social terá que ser repensado, refeito, diante dessa nova realidade, que automaticamente reflete no gênero masculino que, como ela, terá que se reinventar.
É exatamente sobre esse tema tão rico e inquietante que Wlaumir Doniseti de Souza, filósofo também graduado em Pedagogia, mestre em História e doutor em Sociologia vai discorrer semanalmente no blog “Devaneios Culturais”. Wlaumir já publicou o livro "Anarquismo, Estado e pastoral do imigrante" pela Editora da UNESP, pesquisou imigração, igreja e partidos e eleições e, atualmente, estuda as relações de gênero e é membro do Grupo de Trabalhos de Gênero da ANPUH (Associação Nacional dos Professores Universitários de História).
Wlaumir: é um grande prazer tê-lo por aqui!
Fico feliz em poder contar com sua contribuição literária, sobretudo com o foco em um tema tão rico e necessário, como a questão dos gêneros nessa nossa incipiente e tumultuada sociedade pós-moderna. Tenho certeza que seus textos serão fundamentais para fundar um novo espaço de pensamento sobre o tema e incitar a reflexão.