quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ebola, bioética e racismo no século XXI: a procura de cura para os brancos?

Wlaumir Souza

Historicamente, a maior parte das atrocidades cometidas na área médica foram/são direcionadas contra as pessoas que, genericamente, foram/são de denominadas de socialmente vulneráveis. Esta expressão, politicamente correta, oculta que o alvo fácil das pesquisas, da exclusão da profilaxia, diagnóstico e terapêutica são os sujeitos históricos que não se enquadram no estereótipo do dominante vencedor tradicional: homem, branco, heterossexual, mentalmente "competente" e economicamente privilegiado.
Assim, mulheres, negros, pobres e pessoas com algum nível de debilidade mental foram utilizadas das mais diferentes formas inescrupulosas para os avanços da área médica. O maior alarme soou com o Nazismo e seus campos de concentração com atividades de pesquisa denominadas médicas. Mas, não foi apenas no regime nazista que tais aventuras inescrupulosas ganharam asas. Nos EUA, por exemplo, de 1930 a 1970, tem-se o Caso Tuskegee, no Estado da Alabama. Neste caso, aproximadamente 400 pessoas negras foram deixadas sem tratamento de sífilis para se compreender a história natural da doença. Isto em uma época onde já te tinha tratamento comprovado e, sem que as pessoas envolvidas soubessem que participavam de um estudo. Assim, países denominados livres podem utilizar-se da ciência e da tecnologia sem levar em conta princípios éticos ou morais fundamentais a dignidade do ser humano com vista ao lucro científico.

Pior que isto, em meio ao processo histórico de legitimação do poder supranacional dos EUA na segurança e ordem do mundo, após a derrota dos nazistas e descobertas as atrocidades contra a humanidade, incluso as questões de saúde, foi publicado o Código de Nuremberg, no ano de 1947, pelo Tribunal Internacional, no afã de proteger as pessoas de/nas pesquisas médicas e demais procedimentos.
Todavia, o desafio não parou neste ponto. Anos depois, outros documentos históricos e fundamentais foram publicados na ampliação da concepção e alcance da bioética: Declaração de Helsinque, em 1964 e atualizada de tempos e em tempos; Informe Belmont, de 1978, entre outros instrumentos lapidares da ética na defesa da dignidade humana, animal e ambiental.
Porém, tudo isto não foi suficiente para por termo a exclusão profilática, diagnóstica e terapêutica ou a possíveis abusos em pesquisa ancoradas na exploração e dominação. O melhor exemplo para ilustrar isto é o vírus HIV e o Ebola, frutos das relações humanas com a natureza no século XX.
A pesquisa história do vírus HIV desenvolvida pelas Universidades de Osford e Leuven demonstraram que o mesmo surgiu no início do século XX, pelo uso de carne de chimpanzés, na região de Camarões e até a década de 1921, quando chegou à capital do Congo Belga, atual República Democrática do Congo, foi uma infecção regional. Depois disto, nos anos 1980 iniciou a ser diagnosticada nos EUA e tornou-se uma pandemia que já infectou mais de 75 milhões de pessoas. No momento que deixou de ser uma preocupação com negros e pobres africanos a ciência capitalista se envolveu com ardor na pesquisa de possível cura e/ou tratamento. A razão instrumental se fez sentir com sua força nos países livres.
No caso do Ebola, a situação histórica não é totalmente diferente. Foi identificado pela primeira vez no norte da República Democrática do Congo, em 1976, e foi contido pelo isolamento da população controlada pelo exército local e Organização Mundial de Saúde. Outros surtos se seguiram nos anos de 1995, 2003, 2007, 2012, e o maior número de pessoas envolvidas não ultrapassou a 220 doentes por surto, sendo todos restritos a área da África subsaariana. Todavia, aquilo que foram surtos com negros e pobres tornou-se epidemia e chegou à Europa e EUA. Hoje somam mais de 8000 pessoas que foram infectadas e mais de 3000 mortes.

Neste ponto, HIV e Ebola tem uma história em comum. Enquanto “surtos”, que dizimavam negros e pobres africanos, as medidas eram paliativas e os investimentos mínimos. Uma vez que adentra nos principais países capitalistas de população majoritariamente branca faz soar o alarme e novos fármacos iniciam o avanço para uma lacuna de experimentação, em especial na África.
Fica a questão, quantos documentos mais serão necessários para que a saúde enquanto profilática, diagnóstica, terapêutica não excluam os socialmente vulneráveis da sua dignidade humana e urgência no direito ao tratamento eficiente e eficaz? Quanto tempo ainda será necessário para que os surtos façam soar o alarme mesmo quando atinge "apenas" pessoas pobres, negras e mulheres? Parece que a lição ainda não foi aprendida apesar dos avanços documentais e quem mais uma vez pagará o preço será, no século XXI, a África transformada em laboratório a céu aberto para curar os brancos recém contaminados?







sábado, 2 de agosto de 2014

Educação e ética

Wlaumir Souza

                Escrever sobre educação e ética soa como eco para alguns iluminados. Todavia, a cada dia o desafio da explicitação dos valores na educação cresce. Se até a década de 1980, aproximadamente, a presença da esposa-mãe no lar se traduzia em um acompanhamento diuturno do que e como as crianças faziam e, portanto, se estava de acordo com os valores representados por aquela família, no terreno da moral; hoje, pelo contrário, a redução da renda do tradicional provedor – o pai;  e mesmo as famílias compostas por mãe e filho ou pai e filho entre tantas outras configurações de laços de sangue e de amor – obrigou o cônjuge ou parceiro a ingressar no mercado de trabalho para dar conta das demandas do lar.
                Isto posto, fez com a escola enfrentasse dois novos desafios. Primeiro, a democratização do acesso à escola. O que abriu as portas das salas de aula para crianças que não representavam o cotidiano burguês e seus valores. Segundo, mesmo a criança com valores burgueses não encontrava mais no lar a possibilidade educativa dos valores e regras como a geração anterior.

                Paulo Freire atento a estas questões demonstrou com sabedoria e conhecimento que não era mais possível à escola apenas ensinar os tradicionais conteúdos escolares, mas, que urgia à escola também educar e, assim, assumir mais um compromisso com a sociedade que ia para além da explicação de fórmulas, datas, elementos e passar a compor o cenário de tradutora dos valores aceitos pela sociedade.
Este feito é de uma complexidade sem precedentes. Outrora o educando chega a escola com valores morais razoavelmente acentuados e passa a discuti-los do ponto de vista ético com a comunidade educativa e educadora. Agora, não. A moral é perpassada pelos meios de comunicação, pela família, pela vizinhança e sobretudo por uma escola com parcos recursos humanos e materiais.

Se desejamos e aspiramos e trabalhamos por uma sociedade melhor, precisamos do implemento disciplinas de Ética e para além deste que o cotidiano escolar possa traduzir em ações os valores éticos assumidos pelo humanismo na busca da paz, da solidariedade à diversidade e a pluralidade. Sem isto, teremos cidadão cada vez mais atomizados e preocupados apenas com uma questão, a reprodução do capital para a própria subsistência o que equivale ao salve-se quem puder. E, nada mais imoral e antiético que isto.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O insulto como (por) elogio: postes e gratidão ou como o mandonismo sobrevive no Brasil.

Wlaumir Souza

                                                               A gratidão é um sentimento ancestral com laços na religiosidade e na política, com raízes profundas na cultura social e econômica, sendo típica das relações pessoais e privadas. Ser grato é uma das bases do mandonismo que vivemos na Terra Brasilis desde a Colônia e mantém Magalhães e Sarneys no poder... 
                                                               Leio aturdido, quase todos os dias nas redes sociais pessoas com grande notoriedade – inclusive intelectual – a alardear a importância da gratidão. Não notam a diferença entre gratidão e reconhecimento. A gratidão tem por séculos construído clientelas, apadrinhamentos e outras vertentes mais visíveis da corrupção. O ponto máximo nesta história de podre no Reino da Dinamarca foram os “religiosos” – em meio ao mensalão – serem gratos a Deus pelo espólio ilegal.


                                                               O esgarçamento da gratidão nas camadas mais populares tem se contra posto ao crescimento desta palavra nas frações de classe média. Também, esta se vê contra a parede face a uma população que tem despertado para o fato de que a gratidão é um dos móveis do imobilismo de classe, educacional e político. Diante das manifestações do “Não é só por R$0,20”, a camada média quer a gratidão, o beija mão e não o reconhecimento. O reconhecimento é público, profissional e em sua vertente mais pura seria impessoal.
                                                               A gratidão tem se arrastado pelo terreno do político e sua chama máxima tem sido a modernização conservadora desta via Partido dos Trabalhadores que pelo seu mandatário máximo – que se tornou personalista e o partido é apenas uma legenda como outras para suas decisões pessoais – fez eleger postes. Estes apareciam como a renovação e nada mais eram que dependentes pessoais. Eleitos postes pela ânsia da população de inovação, de reconhecimento de novas competências que nada mais eram que apadrinhados, em alguns casos, vazios.
                                                               Passado quase dois anos destes postes, a população os rejeitam – e isto vale da Presidência à vereança. Os desgastes são múltiplos: alinharam-se ao que tem de mais retrógrado em questão de moral e costumes, mas querem ser os modernos libertadores. Bandeiras tradicionais foram encapadas para facilitar o financiamento de tudo e todos. A resposta vem pela queda na aprovação dos governos e a possibilidade cada vez mais tangível da oposição se fazer eleger.


                                                               A população não quer mais gratidão. Quer reconhecimento. Reconhecimento de direitos e competências. Postes inúteis que reverberam em favor da inflação; dos costumes ultrapassados defendidos por religiosos ignaros do poder da história – inclusive em seu discurso caquético. A população sabe que a ingratidão é feita a cada mandato: algo igual ao que fizeram as velhas elites e que as novas parecem não se diferir.
                                                               Triste escolha a deste ano: entre a gratidão confessa e a dependência manifesta. Afinal, a gratidão pura e simples reconhece a ausência de méritos próprios e na dependência da gratidão vão de roldão todos os valores republicanos e democráticos em favor do familismo.


                                                               Para ser explicito: ficamos entre o mensalão que supera o familismo ou o tucanato com tradição familiar que perverte a República em linhagens que se pretendem ideologicamente profissionais?


sábado, 14 de junho de 2014

Abertura da Copa e o machismo, racismo e elitismo: Dilma vai tomar...

Wlaumir Souza
A abertura da copa lembrou o fato de quando a situação ouve mais a oposição que seus aliados e neste plano apóia mais a derrota que a vitória do projeto de origem do Partido. E, pior, isto em um país onde o governo federal controla uma bancada de aliados, da primeira e da última hora, capaz de promover uma reforma na Constituição Federal.
                Quando Lula e o Partido dos Trabalhadores e aliados escolheram a vertente de coalizão com o projeto FIFA de Copa do Mundo e o das Olimpíadas – como mecanismos para incrementar obras de infra-estrutura, em especial as viárias e turísticas, e mais que isto, fazer a empregabilidade crescer apesar dos transtornos da economia nacional e internacional, – não esperavam que este alvo histórico na trajetória do PT no governo federal pudesse ser uma das alavancas das oposições.

                No governo federal, o PT passou de partido que defendia e viabilizava a democracia participativa a ser o que todos os demais eram; partidos de representação eleitoral bem ao modo criticado por Marx e denunciado pelos anarquistas como a realidade de todos que se dizem de esquerda, mas querem o poder de Estado. A guinada do Partido dos Trabalhadores – que alguns já apelidaram de Partido dos Traidores – não é nova e nada inovadora em questão de teoria ou de prática.
E, para compor tal bancada no Congresso e viabilizar a realização do projeto Copa do Mundo e Olimpíadas aliaram-se os trabalhistas, desde o primeiro governo Lula e de forma ainda mais lapidar para eleger Dilma R., com forças retrógradas do País que não só foram oponentes históricos da agenda partidária de origem do PT como são, até o presente, negadores de viabilizar tais processos que transformariam os rumos políticos, sociais e culturais do Brasil.
Estes aliados de última hora seguem o conselho antigo: seja amigo de seu inimigo para controlá-lo. O preço a pagar foi sacrificar as prendas históricas das classes médias: o fim crescente do vestibular pelo ENEN, as cotas, as “bolsas”. E, o PT por sua vez colocou na pira do sacrifício alguns de seus aliados históricos desde a primeira hora ou quase isto: feministas, gays e reformas estruturais. Assim, paulatinamente, o PT, fecunda os germes de sua própria destruição eleitoral.

Dando tiro no próprio pé, o PT do governo Dilma, mas não só este, abandonou a questão de gênero em nome de uma bancada retrógrada. O maior sinal disto é o Plano Nacional de Educação (PNE) que atendeu as demandas religiosas contra o que denominam, equivocadamente, mas proposital do ponto de vista do marketing, “ideologia de gênero” e das etnias.
Neste ponto unem-se a trajetória das escolhas partidárias com a abertura da Copa. Esta evidenciou as mazelas do percurso em favor do machismo - inclusive de fundo religioso - do classismo e do elitismo. Ouviram demais as críticas e economizaram onde não poderiam: na festa e na educação a partir dos princípios norteadores da educação nacional na defesa de uma educação evolucionista, racional, diversa e plural na questão de gênero e de etnias e de classes. A ovação inversa que sofreu a presidenta demonstrou na platéia o que se via na arena do partido: machismo, racismo e elitismo “abençoado por Deus”.
De outro modo, enquanto Angelina Jolie em meio a uma organização mundial faz uma ofensiva ao machismo, ao racismo e ao elitismo que viabiliza estupros com impunidade garantida pela cultura, a Presidenta e seu partido e aliados virando as costas aos seus aliados históricos e não fazendo a transformação cultural que poderiam realizar, via educação formal pelo PNE, ouviram o que, no dia a dia, ouvem mulheres, gays, negros e outros diversos dos modos mais plurais e sintetizados na frase: Dilma vai tomar...


Dilma vai tomar... foi um clamor machista pelo estupro coletivo da presidenta em arena de esportes, ou seja, enquanto diversão masculina acompanhada pelo apoio da massa branca que se sente, devido as cotas, as bolsas e outras estratégias de "divisão" de renda aturdida; quer sejam homens ou mulheres. Nesta demonstração de poder retrógrado seus oponentes são seus aliados e o que se viu na abertura é apenas uma amostra grátis do que a Presidenta finge não ver no cotidiano de gays e mulheres e negros em favor de uma aliança espúria que sacrifica o laico e o secular como lições histórias de um poder democrático e republicano. Não por acaso, a presidenta já goza de um apelido entre parte dos militantes de gênero suprapartidário – Dilmá. 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Copa do Mundo no Brasil: Não vai ter copa, cozinha, almoço, jantar, segurança, mobilidade, saúde, educação...

Wlaumir Souza
“Não vai ter copa” é a expressão mais forte do “Movimento não é só por R$0,20”, que em alguns dias passará a ser “Não vai ter Olimpíada” e que ecoará por muito tempo em nossos ouvidos e livros.
“Não vai ter copa” é um símbolo da realidade dos Brasis. Um “grito de guerra” convocando para o despertar diante do fato de que enquanto um grupo restrito se regozija, esbanja e se esbalda em meio aos quitutes dos boleiros, o outro Brasil se manifesta pelo investimento precário em educação, saúde, mobilidade, moradia, segurança, salários dignos em meio ao País que é a sétima economia do globo e fraco na distribuição de renda.

Não por acaso as elites e as classes médias (reais e não aquelas propagandeadas pela campanha político-partidária de nova classe média que é uma camada do proletariado devidamente endividada com o crédito fácil e quase irresponsável que mantém o crescimento interno de modo um tanto quanto artificial) odeiam os programas de distribuição de renda, pois lhes nega o privilégio enquanto “elite local” de explorar, dominar e excluir ao bel prazer da insensibilidade para com os mais pobres – com a meritória(?) exceção da caridade que alivia as consciências e nada muda nas estruturas sociais deixando o dominador com aura de benfeitor e não apenas de feitor de fazenda ou de curral eleitoral ou de apadrinhados dos dominantes.
“Não vai ter copa” expressa que esta se realizará de fato, mas, antes, que não ocorrerá como de costume: com quase todos cantando o hino “vamos todos, pra frente Brasil”. Ou seja, assim como os senhores de escravos dormiam atônitos com a possibilidade do levante da senzala na madrugada que a todos os brancos livres poderia matar, nos nossos dias a “senzala”, todos os tipos de dominados e excluídos, manda lembrança via manifestação social e diz que não se desfrutará da ideologia do brasileiro bonzinho, cordial e outros adjetivos fabricados por uma elite que inculca a submissão como padrão sem que haja resistência pública ao modelo hegemônico.

Copa haverá, mas, não mais como dantes no País da bola com a favela calada e os anarquistas nas algemas do regime do capital (des)humano. À insensibilidade dos dominantes se somará os gritos – contidos pela repressão via monopólio legítimo da violência(?) pelo Estado – nas praças, nas avenidas e onde for possível dizer além da copa a população deseja cozinha, almoço, jantar, segurança, mobilidade, saúde, educação... Desnudando um governo que se propôs como de esquerda e que para todos os lados se enreda com os partidos e elites mais tradicionais e, em alguns casos, mais suspeitos da República Democrática. As denúncias abundarão com a idílica esperança de haja liberdade de expressão na mídia nacional e internacional sem o controle dos interesses transnacionais da FIFA  ou dos anunciantes e patrocinadores.

“Não vai ter copa”, por outro lado, ao aliciar parte da burguesia liberal é uma clara denúncia de que esta acabou com o protecionismo local aos direitos dos abusos dos nacionais contra a sua própria nação e a todos colocou como sujeitos da espoliação internacional em nome de um dos eventos mais lucrativos para os de fora e a revelia da elite verde amarela e do próprio Estado que o isentou de impostos.

 Boa copa a tod@s quer seja com quitutes ou com gritos que vença a democracia e a justiça com gols de um placar há muito equivocado.
Imagina na Olimpíada!!!

domingo, 25 de maio de 2014

X-men: dias de um futuro esquecido - a sociedade cosmopolita da paz perpétua


Wlaumir Souza
Tempo e espaço são determinantes inexoráveis da existência humana e enquanto tal da história e da geografia que vivemos e construímos cotidianamente? Esta parece ser a questão fundamental do filme X-men: dias de um futuro esquecido.  Paralelo a este tema, segue a temática comum a todos os filmes da série: o direito a diferença, ao singular, a diversidade, a pluralidade humano/existencial.

Note-se que o velho embate entre o socialmente correto e o incorreto, ou o binário – quase eterno – do bem e do mal faz parte de todas as tramas de modo a evidenciar que humanos mutantes ou humanos sapiens não são neste quesito, como qualquer outro animal racional do planeta, como preferiria classificar Aristóteles, diferentes. Todos são passíveis de algum tipo de morte, todos têm desejos e aspirações, sonhos e amores e frustrações, desafios e aprendizagens e assim ad infinitum  nas características de ser e estar no mundo dos humanos. Para fechar este emblema da filmografia todos os episódios têm final feliz para a Humanidade. Interessante notar que neste quesito quase tudo que foi produzido pela humanidade na arte tange pelo mesmo rio ao entrar e sair das águas, exceto os Gregos com suas tragédias e alguns poucos ilustres da humanidade, para alívio de Heráclito e pesadelo de Parmênides.
Um silêncio, enquanto censura, se faz presente entre humanos sapiens e os mutantes: em nenhum dos episódios o amor entre iguais: dois "homens" ou duas "mulheres". A questão de gênero é petrificada nesta variedade mutante e sapiens da sétima arte. Um erro pueril visto que a demanda é pelo humano universal do planeta, sem tirar nem opor qualquer cizânia. E, este, possivelmente o maior limite desta série visto que o horror que descrevem face ao outro é mais vista no que diz respeito à mulher, ao negro e depois aos homossexuais em seu multicor de possibilidades sexuais e de sexualidades. Assim, não por acaso, Wolverini é o personagem principal – símbolo da masculinidade que tudo resiste e a tudo supera. O estoico face as mais dilacerantes experiências da carne e da mente. O negro é outro ser  quase esquecido – há uma exceção – mas, grosso modo, é mantido enquanto metáfora barata do mal travestida de controle do bem na busca de conter o obscuro mal.

Nesta série sobre o bem e o mau o pano de fundo são os Direitos dos humanos ou melhor os direitos Humanos que servem a todos e em qualquer lugar no tempo após a sua declaração e sob qualquer circunstância e para qualquer humano mesmo que tenha negado para outrem esta dimensão. Em suma, a questão dos universais nos valores. Deste prisma, enquanto Batman sofreu uma mutação ética, visto ser o braço armado das elites onde o bem e o mal estão cristalizados; nos X-men, pelo contrário, é enfatizado o dever ético contra todas as perspectivas de extinção. Assim, a ética do dever tão cara a I. Kant sobrevive nos mutantes como retorno do futuro corrigindo o passado, quase uma situação de TOC – da qual Kant era uma vítima(?).
A ética do dever encontra seus opositores sistemáticos em nome da ordem, e não por acaso um anão. O anão representa várias metáforas: demonstrando que nenhum argumento, por menor que seja, pode ser desprezado. O menor pensamento, encontrando o tempo e o espaço adequado podem se tornar monstros criados pela razão e que se tornam maior que ela e que o humano. O anão, Doutor Bolívar Trask – metáfora da inquisição que sobrevive em moralistas, retrógrados, reacionários de todos os naipes (dos religiosos aos comunistas passando pelos capitalistas) – demonstra o quanto os saberes podem reconstruir práticas antigas de perseguição e execução em massa em motes hodiernos defendidos em nome do “bem comum”.
No que tange ao tempo – recurso explícito da trama  - o uso da imagem do rio com as ondas tenta demonstrar que o curso do destino está traçado mesmo que possa ser abalado momentaneamente. Ou seja, “o destino, o futuro e tudo” é determinado por uma corrente democratiana (o ser é) onde o devir (Heráclito) é apenas aparente ou momentâneo demais para ser considerado no curso da história, digo, do rio.
Os atores da história estariam determinados pelas estruturas sociais das quais nada poderiam fazer para serem de fato sujeitos da história? Esse o papel de Logan demonstrar que ao “super-homem” tudo é possível, inclusive superar a tragédia do destino em meio a angústia da possibilidade de ser livre. Ou, em outros termos, e num outro ponto, a busca da cosmopolita comunidade humana poderá se tornar um fato diante de grandes atores que superam os determinantes sociais, históricos, geográficos, biológicos, para constituir a “paz perpétua”. Ao leitor e cinéfilo atento deixo o convite para a reflexão.

Portanto,  “Dias de um futuro esquecido” não remete apenas às memórias únicas de Logan e Charles Xavier, o professor X. Antes, o futuro ao qual a Europa estaria destinada e que agora tem nos EUA seu principal representante: a paz é possível para todos os humanos e disto não se pode esquecer em momento algum da história, embora os oponentes desta diversidade possam dela fazer questão de defender como caos da humanidade “verdadeira”. OU, pior, os que defendem  a "paz cosmopolita" não perceberem que sacrificariam o que seria o melhor de todos, justamente todos numa sociedade cosmopolita e de paz.
O futuro esquecido é aquele planejado no passado e não vivido como a possibilidade que era. Ou, numa frase popularizada: o futuro já não é mais como era antes e cabe aos super-homens reconduzi-los ao destino “correto”: à “paz perpétua cosmopolita” Norte Americana. E, numa forma clichê – a criança e o velho em que te tornastes se orgulharia do “adolescente” que foras?



segunda-feira, 19 de maio de 2014

Do racismo institucional no Brasil? Em defesa da diversidade religiosa e em defesa da religião afro.

Wlaumir Souza
Quando penso que não pode ficar pior – este País ou mesmo o planeta, aparece um Feliciano, nos Direitos Humanos; uma Sherazade, no jornalismo; ou um Bolsonaro, nos holofotes do lucro da mídia – emerge a notícia de um juiz federal da Vara 17, Eugênio Rosa de Araújo, que afirmou “as manifestações religiosas afrobrasileira não se constituem em religiões”.

Vergonha e constrangimento são as reações mais simples ao tomar ciência desta postura inumana em meio a segunda década do século XXI. Num complexificando, nota-se que para esta gente parece que a antropologia, a sociologia e a psicanálise simplesmente nem nasceram; quanto a história , esta estaria na tradicional narração dos grandes feitos dos homens, brancos e heterossexuais; e como se isto não bastasse, retrogradam quase ao padroado numa inversão surreal do Estado Laico cristão católico em evangélico.

Em debate a liberdade de expressão em oposição a “incitação” do crime de ódio que terão como alvos os não brancos e suas religiões – na pontaria primeiro os mais vulneráveis e depois num crescendo “em Nome de Deus” toda e qualquer crença que não a defendida por eles como “a verdadeira” de um lado e, de outro, os alvos típicos dos Felicianos, Bolsonaros e Sherazades. Tudo, é claro, em nome da “justiça” ou seria justiçamento dos corpos para salvar as almas?
Há muito se faz um silêncio sobre o mero acaso de cemitérios, praças e outros, com os tradicionais símbolos católicos, serem depredados e não “simplesmente” roubados pelo bronze. Seria tudo isto obra do acaso ou padece o culto católico e seus símbolos de ataque menos frontal como as religiões afro, no Brasil? Na Alemanha pré-nazista judeus sofreram semelhantes atos com uma dócil transigência das autoridades – incluso o judiciário, a polícia e administradores públicos, com meritórias exceções até hoje lembradas.
No campo da memória, aliás, o debate não é menor. O Brasil que ostenta avenidas, escolas, bairros, ruas e tantos mais com nome de ditadores e, por vezes, até de torturadores – e aqui tanto faz se são capitalistas ou comunistas ou qualquer outra vertente – e no mesmo ramo de atitude, famílias que fazem questão de alardear a descendência de tais pessoas, é uma demonstração cabal de que não fizemos a lição de casa no dever da igualdade, da fraternidade, da pluralidade e da diversidade da qual somos signatários internamente pela Constituição e internacional pelos mais diferentes tratados e acordos via ONU.

Vindo para a vida privada que se imiscui com o público, não poucos difamam, perseguem, alienam, abusam do poder, constrangem de forma sistemática, sem qualquer constrangimento, e a isso dão o nome de “disputa de campo” numa equivocada incorporação do conceito de Bourdieu. E, para pasmar, o público em derredor se comove com o perseguidor – o qual comete os mais diferentes tipos de assédio moral – e numa histeria coletiva reproduzem o refrão solicitando a punição em praça como meio de consolidar os valores retrógrados de hierarquização que passa pela cor da pele, pela classe, pela etnia e agora, graças a um juiz federal – Fe-de-ral – a religião, retrogrando ao período anterior a independência dos EUA e ao fim do padroado no Brasil.

O Conselho Nacional de Justiça, a OAB, A OEA, a ONU precisam se manifestar e analisado o caso com todo rigor, e se couber, segundo as normas, que se faça a punição e não premiação via promoção de cargo para um departamento isolado do público ou aposentadoria, visto que a livre-expressão não é de ofender, caluniar, degradar ou induzir a perseguição, ainda que de modo subliminar.