domingo, 26 de abril de 2015

O caso do professor de Direito da PUCRS nos deixou algumas lições

- A história está aí para que nós a melhoremos e não para que imitemos seus erros. Pois vejam só, em outubro de 2012, um membro do governo espanhol, José Manuel Castelao Bragaño usou a frase “as leis são como as mulheres, existem para serem violadas” quando reivindicava a ata de uma reunião, na qual faltava um voto. Na ocasião, ele disse ter sido “mal interpretado”. Acabou pedindo demissão de seu cargo. No Brasil, uma frase parecida é atribuída ao ex-presidente Getúlio Vargas: “As Constituições são como as virgens, existem para serem violadas”. Num país onde tantas mulheres são mortas e violadas, gerando caso de saúde pública, repetir numa aula de Direito Empresarial, em 2015, mesmo em tom de tom de brincadeira, a mesma frase de Bragaño é inaceitável;
- As relações desiguais de gênero atravessam classe, etnia, geração, etc, demonstrando a urgência de estudos e ações políticas, inclusive no interior das universidades. O DCE da PUCRS após a polêmica, pretende propor formações sobre diversidade sexual e gênero para os professores. A sugestão foi dada à vice-coordenadora do curso de Direito, para que seja construído “um espaço de debate entre alunos e professores em torno da temática que aborde os percursos do reconhecimento dos direitos das mulheres”, além de que seja publicada orientação clara a professores para não promoverem banalização da violência contra a mulher em sala de aula.
- Além da reunião com a vice-diretora e dos relatos no Facebook, estudantes e ex-alunos também elaboraram uma carta, encaminhada à coordenação do curso. “Entendemos, como acadêmicos de Direito, que para além dos inaceitáveis casos de assédio ocorridos no interior da faculdade, a violência também se perpetua de forma discursiva, especialmente se a mesma – como ocorre no presente caso – é proferida por indivíduos imbuídos de autoridade” defende o documento, assinado por mais de 400 pessoas.Os universitários solicitam, por meio da carta, que a Faculdade se comprometa a orientar os professores para que eles não estimulem, relativizem ou banalizem “comportamentos preconceituosos, discriminatórios, ou que instiguem qualquer forma de aversão à diversidade e à equidade entre os seres humanos”. O Coletivo de Mulheres da PUCRS também elaborou cartazes, que foram colocados no Centro Acadêmico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, em protesto contra o ocorrido.
- Pierre Bourdieu nos ensina que não basta ser mulher para que tenha uma visão libertária do feminino, porque as mulheres possuem uma visão colonizada de si mesmas, assumindo como seu o discurso do outro. Não foi diferente no caso da PUC. Um homem denuncia e diversas mulheres o defendem. Diz uma delas, no ato em desagravo ao professor, “não estamos defendendo a piada, longe disso, que foi infeliz. Sou mulher, achei a brincadeira infame, mas foi uma brincadeira. Estamos em defesa do professor, que é maravilhoso e querido por todos”.
- Finalizando, brincadeiras e piadas “inocentes” como “ moeda na mão e calcinha no chão, não contribuem de maneira alguma para a equidade de gênero e a liberdade das pessoas.

Ana Maria Colling

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Terceirização: a jornada rumo ao fim da Era Vargas

O Estado de Bem-estar social foi a resposta capitalista ao modelo da URSS. Assim, implementar o Estado-previdência era um meio para inviabilizar a crescente união dos trabalhadores na luta por direito  amalgamada pelos avanços do ideário comunista/socialista.
Finda a URSS, o ocidente liberal capitalista não precisava mais alocar tantos recursos econômicos para legitimar a ordem social do trabalho assalariado, via direitos trabalhistas, até então propalados como direitos sociais indissociáveis da cidadania. A exploração poderia ser mais explícita, todavia, com a cumplicidade típica da classe média com a classe dominante.
Neste ambiente de dissolução da URSS, e em meio à derrocada moral do sistema socialista e de seus mandatários, expostos em praça pública via televisão, ao vivo e em cores na forma de espetáculo, ofereceu-se, em bandeja de prata, às classes médias a cidadania enquanto direito de consumo em substituição ao bem-estar social.
Chegado o capitalismo a um dos pontos altos da reprodutividade, da produção em série, proporcionar o endividamento quase “infinito” via cartão de crédito e empréstimos e financiamentos outros, onde o alvo era fazer o cidadão feliz pelo consumo, passou a ser o diletantismo dos privilegiados do sistema.

Estabilizada esta etapa do cidadão consumidor, via classes médias, e com a tendência histórica destes se aliarem com as classes dominantes, desfazer o Estado social seria passo seguinte para os avanços do liberalismo, denominado, na fase do neoliberalismo. Afinal, os recursos alocados para manter a ordem social, via investimento público, poderiam ser alcunhados de gastos desnecessários responsáveis pelo endividamento do Estado e formador de vasta clientela; agora desnecessária do ponto de vista estratégico e legitimador dos avanços do capital.
Não deixa de ser interessante notar que o bem-estar social, no Brasil, foi uma atividade típica do Estado Autoritário – Getúlio Vargas – e depois, de certo modo, avançou pela Ditadura Militar como meio de legitimar a ordem oferecendo à parte melhor remunerada da classe trabalhadora direitos que as desarticulassem e trouxessem a cumplicidade com os abusos de poder.  Todavia, como a redemocratização antecipou-se a derrocada da URSS, validar os direitos trabalhistas do Estado-previdência era fundamental no ambiente do Estado de direito.
Passadas estas etapas, ao capital, sem concorrentes ideológicos à altura do discurso moral que protegia(e) os dominantes  – e não por acaso, desde as manifestações de julho de 2013, e com mensalão em voga – a tônica foi a desclassificação moral das proclamadas “esquerdas”. Desmoralizar a esquerda como resposta legítima se fazia urgente para fazer avançar, sem grandes soluços, a agenda do capital.

Não conseguindo retirar a “esquerda” do poder via voto, no Estado democrático, e, com um projeto fundamental para os avanços da concentração de renda capitalista, a terceirização, se fazia urgente retomar as manifestações legitimadoras de uma nova ordem, sobretudo via redes sociais para parecer “insuspeito”, em tempos onde a grande mídia é assolada pelo descrédito da imparcialidade. Neste ponto, as “esquerdas”, mais atentas que em julho de 2013, não entraram no cadafalso para o baile de máscaras. Restou às direitas assumir o papel no jogo explicito pelo poder. E, como ponto alto, a publicidade em cadeia nacional da FIESP em favor da terceirização.
As “massas cheirosas” foram às ruas clamar por uma nova velha ordem contra a corrupção e com isto legitimar o poder dos reformadores, no primeiro quadrimestre de 2015. Não observaram que se espojavam com uma fração de classe que só viabilizou, historicamente, a origem das classes intermediárias, como meio de legitimação da exploração enquanto ascensão controlada. Ficando a produção restrita aos “poucos e bons”.
Deitaram-se num dia com direitos trabalhistas garantidos pelo modelo de Estado que condenavam e acordaram, no dia 23 de abril de 2015, tal qual os súditos do findo Império do Brasil, no ano de 1889, bestializados com os riscos que os direitos trabalhistas corriam; sem entender, ou perceber, que, da noite para o dia, foram igualados aos empregados domésticos no período quase anterior a PEC das domésticas.
Despertaram sem notar que às classes dos “poucos e bons” membros da FIESP, e seus pares ,foram apenas “massa de manobra cheirosa” nos avanços do lucro e da exploração em meio a precarização das condições de trabalho, crédulos de que o velho pacto implícito entre classes médias e os donos dos meios de produção permanecia em vigor.




sexta-feira, 10 de abril de 2015

Todos contra a corrupção no Brasil ou somos todos honestos

Todos contra a corrupção no Brasil ou somos todos honestos

A cada época corresponde um modelo de legitimidade social, política e econômica.
Entre gregos e romanos a elite descendia, via heróis, dos Deuses e com isto validava-se todas as formas de exclusão e abusos do poder – visto do presente para o passado – que correspondiam a uma sociedade organizada dando origem ao modelo ocidental de Estado e de democracia.
Na Idade Média, mas não apenas nela, o mundo moderno incluso em período de transição, e de certa forma até os nossos dias, Deus era o garantidor da ordem social e seus representantes, a Igreja, depois, no mundo moderno, as igrejas, diziam o discurso legitimador do sistema. Assim, não se fez as grandes navegações apenas pelo vil metal, pelo lucro, e, sim, para se levar a palavra de Deus aos povos denominados de pagãos.
Apesar das transformações diversas, o discurso religioso permanece presente e forte, sobretudo em determinados países e classes sociais. Todavia, em especial no Ocidente, não se pretende mais revoluções e avanços sociais apenas pelas práticas discursivas religiosas. Acrescentou-se a este o discurso científico que pelo anterior é permeado.
Ficando apenas em um exemplo, enquanto para os gregos a “natureza” sempre existiu, embora caótica; para os monoteístas, em geral, Deus criou o mundo do nada. Esta premissa religiosa influenciando o pensamento científico faz os cientistas quererem saber a origem do universo e não como ele sempre existiu. Mudou a religião explicadora, transformou as perguntas.
A ordem hoje é acalentada pela questão da honestidade. Todos contra a corrupção é um mote fácil e de efeito rápido, embora de prática conturbada e tergiversada. A honestidade é o substituto histórico da vida sem pecado, sem macula, “inaugurada” pela Independência dos EUA, pela Revolução Francesa e pela monarquia constitucional. Estes trouxeram para o centro do palco um ator histórico social de peso econômico colocado em segundo plano no modelo anterior. A burguesia e seu discurso legitimador.
Se na democracia grega e na república romana antigas, os heróis semidivinos era o padrão de ordem; na idade Média, a Igreja e seus pares nobres de “poder divino”; no mundo moderno os reis e seus compromissos de expansão da fé.
No mundo contemporâneo a arma de legitimação do poder de Estado – e não apenas este – passou a ser a honestidade. Assim, e não por acaso, as revoluções que fizeram avançar o regime republicano e democrático estavam balizados pela denúncia da vida suntuosa da nobreza, da sua imoralidade e das denúncias de mau uso do dinheiro arrecadado pelos impostos.
A burguesia encontra no discurso da honestidade a sua ponte para o poder de Estado aliado aos avanços do pensamento denominado de racional-científico, um constructo em substituição da religião, que viabilizava mais lucros, maior produção e concentração da renda.
Destarte, não é por acaso que, nos dias que vivemos, “tudo” circula ao redor da busca da derrubada da corrupção, do abuso do poder, da busca de uma elite econômica e partidária ilibada. São as ilusões legitimadoras de nosso tempo. E neste ponto a busca por transparência, pelos avanços na democracia representativa, de prestação de contas dos eleitos, da visibilidade dos salários públicos e outras questões são essenciais para manter o regime e não desestabilizar o sistema econômico do ponto de vista formal.
Os atores burgueses não podem dizer, como não diziam seus antepassados, que tudo é apenas, como se fosse apenas, uma questão de poder e lucros. Não se escravizaram índios ou os dizimaram ou se povoou as Américas em nome do vil metal, antes, era uma obra de salvação das almas. Hoje, não se está disputando o poder de Estado e seu poder de legalizar e legitimar modelos sociais e econômicos – como a redução da maioridade, a terceirização entre outros –, mas, a urgência da honestidade.
Deste prisma, basta lembrar uma questão. Quanto custa uma lei ou uma vista em processo que retarda seu andamento? Quanto custa eleger um vereador, prefeito, deputado ou senador, governador ou presidente da república? E, sobretudo lembrar, não existe, de fato, doação de campanha, o que há é empréstimo, depois ressarcido na forma de “cargos de confiança”, manutenção de privilégios legais, obras públicas ou leis defendidas e aprovadas.
O preço de um vereador varia de município para município. Mas, o Congresso, em média, seria um investimento de seis milhões para ser eleito; e para a assembleia legislativa, a metade. Mas, se este é o primeiro passo, depois, temos a caminhada do mandato.

Até hoje pesa a acusação, não investigada, de que FHC só pode se tornar FFHH depois da devida compra de votos para aprovação da lei da reeleição, hoje, acusada de ser um dos males do País.  O que é útil e legítimo enquanto situação; é entrave, quando na oposição.
O mensalão, por sua vez, devidamente julgado e aceito pela justiça como fato condenado, comprou votos de “modo sistemático” e com isto abalou-se a legitimidade do regime.
“Posto fim” a compra de votos pelos “senhores” dos  partidos, restou a distribuição de cargos de primeiro a terceiro escalão e de verbas. Mas, isto seria suficiente para manter o regime funcionando e a estabilidade do sistema econômico? Ao que parece, não.
As disputas entre a Presidenta e os legisladores podem demonstrar:
a)     A honestidade raiou em nosso país e a representatividade de interesses diversos é o novo mote?
b)    Se a presidência não compra mais votos nas atuais circunstâncias, quem estará pagando a conta de tantas leis aprovadas em tempo recorde?
c)     Em resumo, há alguém que paga a conta?

Com a resposta o cidadão, a polícia federal ou a história? Afinal, a Câmara aprovou número recorde de propostas desde o início do conturbado ano de 2015. É o maior volume em vinte anos. 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Entre a revolução e o golpe militar: a escolha é sua na democracia.



Ao capital o regime político de um país pouco importa desde que as condições sócias e legais viabilizem a reprodução de si. Todavia, o capitalismo é o regime de preferência por priorizar as condições institucionais e sócias para o lucro onde não há espetáculo melhor que a produção em série e o espetáculo do consumo. Mas, apesar da preferência explicita no próprio nome, isto não quer dizer que países com regimes políticos-sociais outros não possam com ele comercializar e tratar. A China, aliás, é um exemplo típico, e será o caminho para o qual Cuba se dirige.
Algumas das marcas/grifes mais consumidas no mundo são produzidas na China e seus territórios. Isto não é mero acaso. O “comunismo chinês” não reconheceu os direitos trabalhistas nos moldes dos direitos humanos, entre outros problemas, nos moldes ocidentais e com isto, sem leis trabalhistas a exploração pode ir ad infitum. Ou seja, para o capital melhor modelo não há, distribui-se a pobreza e concentra-se a renda. Seria comunismo de mercado? (sic).
Assim, o caso do Brasil, e com ele o da América Latina, enquanto “quintal dos EUA” não é diferente. Os países são livres para eleger quem bem desejarem desde que não se posicionem contra o capital ou o capitalismo ou  as formas intensificadas de exploração do trabalho e do trabalhador. Qualquer dúvida quanto a isto torna a “democracia” inviável para o grande protetor das liberdades capitalistas humanitárias.

Foi o que ocorreu no dia primeiro de abril com o golpe militar, ou seria, no dia 31 de março, com a revolução militar? Aproveite o momento, pois, na “democracia” você pode escolher de que lado está conceitualmente e do ponto de vista prática. Todavia, mesmo esta liberdade está sob controle tecnológico nos tempos atuais via redes sociais.
Se você considera que foi uma revolução ocorrida no dia 31 de março de 1964, você pode se alinhar com Bolsonaro e seus pares em favor do regime de exceção como regra naciconal. Mas, não se esqueça a mesma Igreja Católica e seus pares reacionários que se manifestaram a favor da “intervenção militar” que se transformou em “regime militar” se arrependeu em pouco tempo e faz o mea culpa até hoje – pelo menos no espaço público.
Por outro lado, se analisa como sendo o golpe ocorrido na madrugada do dia primeiro de abril de 1964, observe que os avanços retrógrados não são poucos. Ficarei apenas no ponto da “patrulha ideológica” contemporânea em que se transformaram as redes sociais para empresas e outras instituições, incluso jornalismo, segurança nacional ou estadual e tudo o que publicares poderá ser usado contra você.
Assim, as empresas capitalistas em nome dos “recursos humanos” patrulhas as “páginas” de seus funcionários em nome da ética. Todavia, não fazem campanhas educativas para o melhor uso da ferramenta para a não proliferação de preconceitos e discriminações. A “patrulha ideológica” hoje tem outro fim, a questão política e partidária e não poucos já começaram a ser demitidos por sua posição política e não é devido a defesa da “intervenção militar” afinal, ao capital só interessa o capital humano enquanto meio de reprodução e não de questionamento e construção de uma nova ordem social onde o lema “liberdade, igualdade e fraternidade” coloque em risco a propriedade privada e, em nome desta, vale tudo, inclusive, infelizmente, o vasculhar das redes sem se preocupar com o direito a livre manifestação e expressão, inclusive do voto.
Assim, se você recorda o 31 de março você também é contra a “China comunista”, para lembra a piada machista típica da ditadura. Mas, se você lamenta o primeiro de abril, lembre-se, isto não foi uma mentira como muitos quiseram acreditar.

 E, não se esqueça “Entre a revolução e o golpe militar: a escolha é sua na democracia”, mas, não o é no regime militar.

domingo, 22 de março de 2015

Identidade de classe e as manifestações partidárias no Brasil: em questão a circulação de classes

As manifestações dos dias 13 e 15 de março de 2015, no Brasil, foram o que o capitalismo previa de longa data. Capitalistas tradicionais de um lado e os neófitos do consumo capitalista de outro. Uns a favor a circulação de posição de classe e outros defendendo o privilégio de uma sociedade estática no que diz a circulação do poder e das elites.
De lado a lado os preconceitos e estereótipos rasos que discriminam e inviabilizam o diálogo. De coxinhas a petralhas, passando por tucanalhas a corruPTos tudo o que se faz é ampliar a estigmatização, a estereotipização e a discriminação que não favorecem a cidadania plena de todos os cidadãos, mas, antes, mantém os agentes do capital e os detentores do poder de Estado – seja da pretensa esquerda ou da direita – em unidade contra os avanços das questões que interessam ao povo.
A estigmatização, como a história demonstrou, sempre foi mais eficiente contra as minorias construídas em cada contexto cultural. Assim, na URSS era fácil preconceituar alguém que defendesse o capital; no ocidente capitalista, por sua vez, foi simples desmoralizar a esquerda. O controle dos meios de comunicação são os mesmos, embora as técnicas e os recursos diferentes no socialismo e no capitalismo.
Seja como for, as manifestações foram as esperadas. Os neófitos do consumo capitalista, no dia 13, via apoio do Estado sob o comando do PT, saíram enfileirados sufragando a confiabilidade do governo, única maneira de se manterem no consumo, no atual modelo político-econômico, asseverando que há recursos para todos desde que o Estado realize a redistribuição. Os capitalistas tradicionais por sua vez, no dia 15, receosos por considerarem que não há recursos para todos e o que acumularam é o fiel da balança de sua existência confortável e de seus filhos e que a exploração das outras frações de classe é inevitável, de outro. E, neste ponto, a circulação de classes seria o seu fim.
Interessante notar que os quebra-quebras, a destruição ou a violência foram casos isolados, afinal, todos estavam a serviço da ordem e do progresso, embora cada um a seu modo. Todavia, todos com raiva e ódio do outro oponente ao modelo que defendem. De parte a parte, todos brandiam pela justiça – uns a social, outros a institucional de Estado tradicional capitalista – contra corrupção. Apesar de que os pequenos atos corruptos do cotidiano não entrassem em voga como o silenciar do outro, como elemento negador da democracia, ou a catraca livre do metrô em favor dos defensores do capital que não foram favoráveis ao “Movimento não é só por R$0,20”.

Todavia, neste embate previsível que usa o não a corrupção como mote para fortalecer o lado a que pertencem, sem esperar com isto grandes transformações e, mesmo que ocorram, os embates permanecerão devido ao não reconhecimento da derrota eleitoral, o que faz que a campanha permaneça nas ruas como modo de desgaste do governo com vistas a futuro pleito vitorioso em construção contínua. E, neste ponto, a alarde da campanha que não cessa é mais importante que uma oposição fiscalizadora e séria.
Neste embate, mais do que a denúncia da corrupção e da cooptação, estava em praça pública a disputa por mudanças redistributivas ou a concentração da renda mesmo que sob Ditadura. Não por acaso um dos alvos fora Paulo Freire que pretendia via educação garantir a circulação das elites.
Paulo Freire ao trabalhar por toda a vida por uma educação transformadora queria mais do que um “fora corrupção partidária” onde um lado acusa o outro sem purgar os próprios desvios – afinal o que para um lado é "reforço de caixa" para outro é "dinheiro não contabilizado".
Paulo Freire em seu amadurecimento intelectual e moral-ético é intragável a parcelas das populações nacionais que tendo em sua Corte – quer algo mais reacionário que isto, o termo corte, nobre colega? – Suprema, o STF, que é de composição política por via constitucional, o modelo mais conciso da não circulação do poder e das classes. Afinal, interessa STF de nomeação política só quando o controle do Estado é total de direita, quando tem um mínimo de posição de esquerda é golpe? 
Vamos crescer Brasil... e a educação transformadora de qualidade é o caminho dos avanços éticos! Mesmo que para os privilegiados na nação a transformação educacional materialize o seu maior medo, a circulação das classes numa sociedade de classes via competência profissional. Amadurece Brasil... Circulação de posição de classe é capitalismo, mas é mordenizador demais para uma país acostumado ao quase estamento de classe "herdado do Império" num mundo que se diz Contemporâneo.

sábado, 7 de março de 2015

Novela Império no Brasil da Corrupção

A novela Império no quesito como o Brasil é corrupto tem vencido no quesito demonstração do quanto a arte imita a vida.
Estou às vésperas de completar 45 anos dois são os maiores componentes em minhas reminiscências sobre o Brasil: carnaval e corrupção.
Ainda menino ouvi certa história – não me lembro de quem e de onde e sobre quem – em que em certa cidade, à época da Ditadura Militar, um dado prefeito foi buscar na capital do Estado de São Paulo uma verba e a trouxe para o seu município em dinheiro vivo em uma maleta no carro. Ao chegar á cidade, parou primeiro na sua residência, o prefeito, e foi descansar enquanto deixou o carro, com a mala de dinheiro, parado a sua porta. Todavia, havia esquecido os vidros abertos devido ao cansaço. Quando voltou ao  carro deu-se conta de que a bolsa com o dinheiro havia desaparecido para nunca mais ser vista. Ou seja, as histórias de malas de dinheiro público e seu desaparecimento são de longa data.
Neste ano, em entrevista, no ano de 2015 ao Manhattan Connection, o porta voz neoliberal da classe média brasileira, Zélia Cardoso de Mello narrava a decisão pelo uso de cartão de crédito no exterior da parte de brasileiros e, mais do que isto, dizia que a medida visava colocar fim às viagens dos nacionais com dinheiro escondido na lingerie masculina e feminina. Ou seja, dinheiro na cueca, na calcinha e nas meias, entre outras possibilidade, faz parte da história do país.
Outras histórias poderiam ser arroladas e, infelizmente, apenas tenderiam a comprovar o grau histórico da corrupção, da fuga de capitais, e de infindos problemas com a Receita Federal. Todavia, me deterei na imagem televisionada na novela Império.
José Alfredo personifica o velho adágio: por trás de toda grande fortuna tem assassinato ou roubo, e não raro, os dois. Assim, em meio a trafico de gemas, remessas ilegais de dinheiro ao exterior, sonegação, entre outros delitos que ampliaram sua fortuna legitimada pelo casamento com uma “quatrocentona” assistiu-se no capítulo do dia 06 de março de 2015, o Comendador, nadando em uma piscina de dinheiro de origem duvidosa.

A imagem é emblemática do País que vivemos. Não basta mais mostrar dinheiro na cueca, malas de dinheiro, vídeos de pessoas religiosas agradecendo o extravio de dinheiro público e de propina. Estas imagens são antiquadas diante das fortunas que temos vistos desaparecer do cofre público ou das empresas estatais. Assim, o autor evocou a velha imagem da elite que nada em dinheiro, literalmente.
A imagem é liricamente forte, mas, amedrontadora por demonstra a cara de parte das elites políticas e econômicas carcomidas pela corrupção. Além do mais, a piscina evoca o dinheiro lavado por processos aparentemente legais que perpetua no poder aqueles que não seguiram as regras do jogo legal, mas, vencem pelo uso dos costumes corruptos.
Há se um dia o Brasil passar a seguir o common Law iremos ver surgir em praça pública a cena que escamoteamos de nós mesmos...?
Veja aqui a cena da novela:

domingo, 1 de março de 2015

“Tucanalhas” e “Petralhas” e o lugar do público

Neste embate futebolístico da denúncia da corrupção de petralhas e tucanalhas todos querem ser honestos vendo apenas as irregularidades dos outros e não as nossas.
Se desejamos um país melhor temos de ir para além do partidário, ou seja, de uma parte apenas do país, e trabalharmos pelo todo. Sem com isto sair da exclusão para entrar no ditatorial. Necessitamos ir para além do ideológico de direita que acusa apenas a esquerda a vice-versa.
Sou favorável aos avanços da “Lava a jato” e, se for o caso, que se faça uma revisão das penas dos “mensaleiros” do PT em virtude das novas evidências que vierem a ser arroladas. Mas, também considero urgente que o processo contra os “mensaleiros” tucanos de MG avance.

Mas, igualmente, sou favorável a que a corrupção privada em uma de suas formas mais puras, as das denúncias contra o HSBC, tenham igual acusação pública e investigação. Os corruptores não podem passar ilesos em nome do discurso neoliberal que arvora as virtudes do privado em detrimento do público.
Necessitamos avançar para além do partidário sem entrar no jogo das Igrejas, dos Exércitos e dos militantes que se dizem uno, não o sendo, e quando o são, executam os outros em nome do “todos somos um” avessos a pluralidade e a diversidade.
A democracia exige que as virtudes democráticas e republicanas vão para além deste pueril jogo de cartas marcadas em favor do meu e contra o teu e que inviabiliza o Brasil que todos queremos.
E, neste ponto, precisamos de um judiciário que tal qual a mulher que representa a justiça e a liberdade a francesa supere as carcomidas certezas e não se faça vítima da cooptação do poder econômico ou cúmplice da corrupção do público passeando em praça pública com bens confiscados via processo judicial.
Sim, os problemas são mais amplos e requerem uma maturidade onde não mais sejamos tal qual o burocrata de Estado preocupado com os privilégios da carreira pública que lhe dá benesses que ao cidadão comum são negadas e, para garantir estas, esquecem as mazelas do passado.
Urge que as investigações pretéritas quanto a Petrobrás sejam feitas, afinal, um dos acusadores históricos destas mazelas fora o nome de um dos queridinhos da maior emissora do país, Paulo Francis.
O não retrogradar das denúncias levará o País ao porto seguro de sempre, o congraçamento das partes em nome da Estadania e em detrimento da cidadania. Ou, nos piores dos casos, para as elites da Estadania penas breves devidamente planejadas pelo arcabouço legal no que diz as condenações dos crimes de elite, para a elite e pela as elites.
Precisamos mais do que na hora da eleição escolher um candidato por certa ideologia, seja de direita ou de esquerda, tendo de escamotear seu passado sombrio. E, com isto, banalizando-se a corrupção da própria orientação ideológica e clamando apenas pela condenação do outro. Precisamos mais do que escolher entre um tipo de corrupção ideológica e outra.
O Brasil, terra onde acusa-se o outro partido em nome de mais do mesmo, afinal, desde a colônia aos membros das Elites, sobretudos a de Estado é ofertada a segurança acima do judiciário da estadania – enquanto o povo abre falência em nome dos privilégios dos banqueiros e dos rentistas que escamoteiam suas fortunas em paraísos fiscais que são nada fiscalizados.

Que vença a cidadania onde o público é capaz de pensamento crítico e moral avançado em detrimento dos particularismos sectários ingênuos e sistemáticamente legitimadores de outro modelo de opressão ao invés da cidadania plena para todos.