terça-feira, 29 de março de 2016

As ideias fora da realidade ou a corrupção e fraude na excelência do impeachment

A tradição lusa relegou como herança ao contemporâneo algumas das características que tornaram o Brasil, Brasil: educação metafísica e patriarcado.
A primeira tornou-nos um povo dado a teorias, princípios em abstrato, a teses desencarnadas do plano do real, do material. Importa muito mais as “belas ideias” que suas possibilidades práticas, discursos efêmeros com poucas práticas eficientes e eficazes. O amor à teoria de belas explanações e possibilidades infinitas de um paraíso irrefletido nas práticas.
A segunda herança fez com que em nome dos ideais fossemos capazes de nos lançar aos mais algozes poderes do pai, do chefe, do branco, do homem, do heterossexual, do capital. Diante deste poder inconteste do patriarca e de seus desejos nos submetemos a ordem idealizada de família hierarquizada para sobreviver em meio a uma realidade múltipla e em devir majoritária no plano real e minoritária no plano das ideias; e aos negócios escusos do chefe em nome da ordem. Cativos do senhor de escravos o empresariado do grande capital tornou-se donos dos corpos e das mentes no lar e para além dele, nos remetemos a ideias e ideais que apenas amenizam nossas dores cotidianas de explorados e expropriados via legal e por corrupção.
Este o ponto onde o passado encontra o presente ou o futuro com o passado no atual embate entre liberais (PSDB, DEM entre outros) e os que tentam ser socialdemocratas (PT e outros mais) aflora a corrupção com listas que parecem metralhadora giratória que põe a nú a realidade da corrupção tornada rotina burocrática, como o fora o extermínio nazista da Segunda Grande Guerra.
Os fatos que nos cercam demonstram que somos uma “democracia colonial”, em uma linha interpretativa tradicional, poderia ser designada de teoria da dependência de FHC. Neste campo, entre o patriarca dono de escravos – empregados sem direitos trabalhistas, sem segurança no emprego ou condições dignas de trabalho em meio a precarização crescente e a dependência do favor da família para manter-se – e o líder partidário do século XXI, vemos renascer o coronel truculento nas práticas legislativas e no judiciário e o patrão que quer controlar o voto de seus “apaniguados”, como se isto não fosse suficiente, em meio aos aplausos dos que defendem a “liberdade” em via pública.
Mas, por livre, leia-se e entenda-se liberalismo pós-neoliberal econômico temperado pelo sentimento patriarcal colonial escravocrata, ou seja, redução de direitos sociais e civis onde as primeiras vítimas serão os pobres, as mulheres, os negros, os homossexuais e tantos outros capazes de exercer a liberdade social para além da econômica – enquanto liberdade face ao destino dos costumes. Assim, os que defendem a liberdade na praça pública nada mais querem que o retorno do antigo privilégio de serem os únicos atendidos por recursos do Estado a juros ínfimos enquanto ao povo nada caberia se não o trabalho.
Nesta sopa de ideias e ideologias vemos o quanto as ideias estão fora do plano real. O discurso de combate a corrupção visa apenas a ampliação dos lucros da iniciativa privada, em especial do grande capital, sobretudo daquela alijada pelos atuais “donos do Estado” questionados em sua legitimidade de poder. A meta é apossar-se dos recursos do Estado para outro grupo, aquele fora do poder de Estado, com outra concepção de Estado e Sociedade, mesmo que o preço seja o golpe contra democracia legítima via judiciário como esteio de evidências legitimadas.
No mesmo plano, a fala de Lula de que o combate a corrupção – até aqui limitada quase exclusivamente ao PT e aliados, onde a lista com mais de duzentos nomes ocultada pelo sigilo de processo é apenas meio para se por sob suspeita, ainda maior, a impessoalidade da aplicação da lei – seria a responsável pela crise econômica não reconhece dois fatos, em nome das ideias que controlam as mentes e corações. A paralisia econômica deve-se a nossa dependência do mercado internacional, em crise desde 2008 – crise que colocou fim ao neoliberalismo, mas o que se inaugurou ainda não se configurou de forma explícita em termos de doutrina econômica – e isto consolidaria a teoria da dependência de FHC –  que seria a única política-econômica que nos caberia.

Outro elemento explicativo da crise não é a investigação da corrupção, mas a crise da rotina da corrupção. A corrupção vista como fato social, no Brasil, quer dos políticos ou das iniciativas privadas indo do grande ao pequeno capital em conformidade ao poder político que a circunda, demonstrou-se uma prática suprapartidária que coloca em questão a própria república e seus representantes, de liberais a socialdemocratas. A rotina da corrupção posta em cheque, sobretudo diante da leniência do grande capital, colocou os empresários atônitos ao contágio coletivo que poderia causar e os fez cessar no investimento produtivo, mesmo dizendo que tudo se deve aos altos impostos, apenas; como se fosse apenas?
Assim, a economia não parou apenas pela dependência internacional, mas por fatores próprios ao Brasil, naquilo que o torna Brasil, as ideias abstratas de que partidos poderiam corresponder a quadrilhas e políticos, possivelmente, a criminosos organizados, foram materializada fazendo o escândalo para inglês ver. A rotina da corrupção fazia as engrenagens andar de forma azeitada por todos os naipes políticos e do grande capital, “cessada” esta rotina que ia do mensalão, para se votar no “projeto Brasil do PT”, às obras públicas, restou ao país encolher economicamente com milhões de famintos desempregados.
O que coloca outra questão, e decisiva no que torna o Brasil, Brasil; a disputa é pelo fim da corrupção ou pelo monopólio da corrupção ou pela alternância na corrupção? As ideias fora da realidade demonstram que o importante não é o combate a corrupção, mas, a imposição de seu projeto social-político-econômico em detrimento do outro, sem que com isto, se extirpe a rotina da corrupção? A Itália de Berluscone, após mãos limpas, que o diga. E, não apenas. A questão é qual corrupção interessa investigar e qual preocupa manter os olhos da justiça fechdados?
Para ficar apenas em mais uma tese típica dos cientistas políticos do PSDB, a defesa da ideia de que a condições econômicas determinam a eleição está posta em cheque neste terceiro turno, uma vez que até o segundo turno a crise não se demostrava com a força que agora notamos pelos números negativos inegáveis face a crise econômica-política da corrupção. Resta saber se combinaram com o povo que não aparece em todo seu fulgor nas ruas. Ah! Sim! O povo é apenas mais uma ideia fora da realidade!
E tudo isto confirma apenas uma tese: o grande capital, este orbita ao redor dos governo federal e alguns estaduais, não se envergam perante o Estado, compram tudo que lhes interessa de reeleição presidencial com reforma Constitucional a partidos e candidatos que se lançaram como baluartes da ética e da defesa do povo brasileiro?
Que os juízes e os políticos honestos nos salvem!          

domingo, 20 de março de 2016

“O negócio do impeachment”: os últimos dias do governo Dilma

Apenas para lembrar alguns traços históricos; nos EUA os presidentes tendem a ser assassinados quando rejeitados socialmente e pelos políticos; no Brasil, a tendência seria o suicídio ou a renúncia, além de se perpetuar no poder por acordos?
Parto do princípio que todos os corruptos devem ser investigados, julgados com isenção – palavra tão linda de significado profundíssimo e tão banalizada nas práticas brasileiras, do jornalismo à ação de juízes e promotores, além de professores e pesquisadores acadêmicos – e condenados a penas compatíveis com as evidências dos crimes. Mais que isto, sou favorável à ampliação da pena por crime conexo, do tipo, desvio de hospital, deve ser julgado por assassinatos; e assim iria. Os crimes de corrupção no Estado e do Estado deveriam ter as penas mais severas e exemplares.
Assim, não me coloco a questão das possibilidades de corrupção via PT, DEM, PMDB ou PSDSB e os possíveis bilhões desviados, isto é lugar comum, ao menos para os minimamente críticos e não cegos pela militância ou por defesa de ideais outros que no plano da realidade são incompatíveis com a corrupção?
Coloco a questão das razões, dos determinantes sociais, para além da corrupção, que levam ao impedimento da Presidenta Dilma, dos valores ou interesses que podem guiar alguns dos principais atores deste processo histórico que poderá vir a ser impar, se expandido para todos os partidos – o que até agora não ocorreu; e marcar um novo capítulo da história.
A FIESP, e suas parceiras, por exemplo, mais que o impedimento da presidenta, deseja o avanço da flexibilização das leis trabalhistas e a reforma da previdência. No que diz respeito a primeira questão, leia-se redução dos direitos trabalhistas e mesmo, se for possível, a inexistência de leis que protejam o trabalhador. No segundo quesito quer-se a ampliação da idade de aposentadoria que teria duplo fim: após investir anos de aperfeiçoamento profissional a pessoa pode se aposentar, em média, aos 55 anos; é muito cedo para a lógica da exploração capitalista. Após anos de investimentos, e com o avanço da indústria farmacêutica e médica a pessoa vivendo mais anos, deveria ser igualmente explorada por mais anos. Nada de “ócio criativo”; deve-se aposentar quando se for uma espécie de “bagaço humano”, sem possibilidades de investir em projetos pessoais outros que não o servir o patrão de modo assalariado. Ou pior, do ponto de vista da exploração capitalista, aposentar uma vez e continuar trabalhando o que possibilitaria algum tipo de acúmulo de renda o que não caberia aos trabalhadores, detentores apenas da força de trabalho. Neste ponto Dilma tergiversou e ofereceu a carteira de trabalho em proposta teórica para reforma e com ela a idade de aposentadoria. Mas, foi pouco.
Com as togas o que mais preocupava os atores da justiça era a demanda por transparência e teto salarial nos cargos. A transparência salarial com sua publicidade ampla a irrestrita, não incomoda apenas a toga, mas servidoress públicos em geral e políticos, pois, causa escárnio o salário de alguns poucos marajás do serviço público, que gozam ainda do direito a aposentadoria integral e auxílios mil diante da média salarial da iniciativa privada que sustenta o Estado. Em outros termos, aqueles que deveriam ser servidores, mas são nobres em um Estado que deveria primar pelos valores republicanos e democráticos, para muito além do entendimento da liberdade, igualdade e fraternidade maçônica. Para muitos ver o salário estampado nas redes sociais é motivo de perseguição pois, afinal, seguem a regra, primeiro o meu; depois o teu, no caso, o direito a educação, saúde e segurança, entre outros elementos, de forma pública e gratuita e de qualidade. E, na contramão desta noção, sobretudo os professores se vêm com salários indignos da humanidade que são e que representam e constroem, no presente para o futuro, sem contar as péssimas condições de trabalho.

Num outro vértice, vem o embate das consciências entre o religioso-político que tanto primou até ao final da Inquisição e o político-religioso que propõe as liberdades do Estado laico e liberdade ecumênica de religião. Entre as gravações tornadas públicas da Lava-jato, uma fala chama atenção neste quesito, a do prefeito do Rio de Janeiro com Lula que diz: “Eles (investigadores da Lava-jato?) são todos crentes”. Temos, neste ponto, outro projeto paralelo ao do Estado laico (político-religioso), na demanda pelo Estado “Teocrátio”, espero que seja entre aspas (o religioso-político). Assim, o projeto ganharia para a cena o presidente da Câmara dos Deputados, principal homem preocupado com o impedimento da presidenta, e seria uma derrocada para muitos avanços das mulheres, das religiões milenares de tradição africana, e para os LGBTs. Ficarei apenas no quesito mulher, dentre as relações de gênero. Vencendo o impedimento, seria aprovada nova lei de atendimento a mulher estuprada e esta passaria mais uma vez a ser duas vezes vítima, pois, teria, antes de ser atendida no serviço de saúde pública, de provar que foi estuprada. Além disto, a pílula do dia seguinte teria sua comercialização proibida. Entre outras questões propaladas por algumas religiões.
A aprovação da CPMF, por sua vez, equivaleria a quebra de sigilo bancário e facilitaria ao Imposto de Renda comprovar as fraudes nas declarações. Mais que isto, faria com que Igrejas, Institutos e Fundações, além de ONGs e OSCIPs, entre tantas outras formas de organizações que se isentam de impostos, contribuíssem. Em meio a imposto obrigatória e a impossibilidade de se furtar ao imposto de renda, sem ser pego na malha fina, todas  as grandes fortunas e mesmo as médias e pequenas foram contra mais um imposto em meio ao oceano de corrupção.

Para encerrar este texto uso a frase do Paulinho da Força Sindical, também pego em gravação, “O impedimento só ta acontecendo por causa do Eduardo Cunha” – contra o qual não tem nenhuma denúncia até o momento?. A outra frase é lapidar para entender-se o processo histórico: “Tem muita gente querendo financiar esse negócio do impedimento”. Neste contexto de pessoas honestas e valores altos, de alto poder e renda (não conta você que recebe menos de 15 mil por mês e não tem patrimônio superior a cinco milhões), sou apenas mais um estre muitos que vive numa residência tão pequena que para eles, os corruptos, poderia ser comparada a casinha dos cachorros e, pior que isto, nem seria, eu, o professor com doutorado da iniciativa privada, o cachorro, mas os restos por este deixado, tamanho o fosso deixado entre nós, os humanos comuns, e estas fraudes que nos desafiam a construir um novo Brasil.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Zika, Chicungunha e Dengue: a apoteose do aquecimento global a partir do Ebola

Não foi por mero acaso que terra, sol (calor, fogo), água e ar foram elementos eleitos pelos filósofos da natureza, na Grécia Antiga, para explicar a vida, sua força e seus limites. O mesmo vale para místico, alquimistas e bruxas. Eles e elas observaram, sentiram ou intuíram, conforme a filiação à filosofia, ao misticismo, a alquimia ou a bruxaria, o quanto estes elementos eram necessários para suportar a vida, seu florescer e fenecer.
Séculos depois estes perderiam o posto legítimo de explicação do mundo para químicos, biólogos e suas áreas conexas ou reflexas da ciência, sem, contudo, conseguir se fazer valer sem o apoio em alguns conhecimentos daqueles que negavam a validade do saber.
Chegamos ao século XXI e, este conhecimento explicativo da vida ganhou novas formas na tabela periódica, nas pesquisas acadêmicas-científicas e na consciência coletiva; todavia, não podemos negar que sem o planeta terra, sem o sol, sem água e sem o ar não podemos sobreviver. Mais, que isto, nossa interferência no planeta altera as relações estáveis forjadas ao longo de milênios.
Assim como para existir vida no planeta foram preciso condições especiais na relação entre terra, sol, água e ar, do mesmo modo, se alterarmos a relação com um ou mais dos elementos fundamentais podemos colocar em risco a vida ou em declínio: o aquecimento global.
O conceito de aquecimento global é da década de 1970, momento em que se realizava certo consenso de que ocorria aquecimento do planeta por influência humana. O aquecimento global nada mais é que alterarmos a relação da terra, do ar e da água com o calor por via da intervenção humana na natureza, o que ocorre de modo decisivo com o implemento da economia capitalista pós Revolução Industrial. Esta se utilizando primeiro do carvão, e agora do petróleo, contribuiu para o desequilíbrio do planeta com seus elementos fundamentais e fundantes.
Estas mudanças climáticas vêm sendo denunciadas há décadas e o reconhecimento de que é o modo de vida humana que tem colaborado para esta transformação é desta década, mais que isto, ano a ano temos o aumento da temperatura e da sensação térmica. Basta pensar que o ano de 2014 foi o mais quente desde que a temperatura é medida; e o ano de 2015 superou o ano anterior.
Com estas transformações não é só o clima que de altera, mas o que dele depende para permanecer em equilíbrio ou inofensivo. O aumento da temperatura propicia condições especiais climáticas para vírus e bactérias se proliferarem ou se transmutarem, além de outros seres, e até faz com que limitações regionais de sobrevivência e reprodução sejam alteradas e expandidas. Transpondo isto para a saúde e o clima, ou se preferir para a doença e o clima, na mesma década em que se iniciou o consenso ao redor do conceito de aquecimento global, e não por acaso, ocorreram os primeiros surtos de Ebola.

O Zica, por sua vez, descoberto na Floresta do Zica, na África, em 1947, não causava grandes preocupações devido aos sintomas leves que causavam: coceira, febre e manchas pelo corpo. E, ao fato de estar circunscrito a uma determinada região. Foi se alastrando aos poucos ao estilo “virose”. Com as transformações climáticas, sobretudo nos dois últimos anos, encontrou cenário ideal para se expandir por vários países, o mesmo caso da Chigungunha.
O zica, via aedes aegyppt, hoje se espalhou por vários continentes e encontrou clima favorável, o hospedeiro, para se expandir pelas Américas e ponto de preocupar os EUA que diante do aquecimento global também passa a ter condições climáticas favoráveis para a proliferação do mosquito portador dos vírus em questão.
Neste campo de interpretação, o problema do Ebola, em um extremo, e do Zika, do Chicungunha e da Dengue são apenas os sinais das doenças provenientes do clima pelo aquecimento global que propicia maior espaço de alcance e de reprodução. A temperatura torna-se ideal para a proliferação tanto por um período maior, quanto em maior extensão geográfica – do Brasil aos EUA.
São apenas os primeiros sinais das doenças climáticas que nos assombram se nada for feito para deter o aquecimento global. É um alarme sério visto que vírus detidos em espaços geográficos determinados e inofensivos ao ser humano podem evoluír para formas letais, como o Ebola, ou que comprometem as futuras gerações, como o Zika – suspeita do aumento de microcefalia.
É a natureza respondendo ao ser que se notabilizou por ser o maior predador a ponto de por em risco a vida planetária? Deste ponto de referência aquelas viroses que os médicos não dizem ou não sabem o nome poderiam evoluir para formas mais letais, com nome conhecido e efeitos assustadores?
Mas, não se preocupe cara pessoa leitora, este é apernas um artigo de ensaio hipotético, sem grandes compromissos com a realidade.




quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

BBB ou o “zoológico humano” no século XXI

O “zoológico humano” não é um fato novo. Existiu em diferentes formatos desde antiguidade e sua última exposição, no formato tradicional, ocorreu em 1956, na Bélgica, na cidade de Bruxelas. Estes “zoológicos humanos” contemporâneos eram populares na América do Norte e na Europa onde a população branca os visitava para comprovar a “teoria evolutiva” onde o negro, o esquimó e o indígena seriam os elos humanos entre o macaco e a pessoa branca. Um misto de animal com ser humano.
Eram indígenas, africanos ou esquimós – entre outros – que serviam a sanha europeia ou norte-americana de construir o eu e o outro de forma etnocêntrica, ou seja, colocando-se como modelo superior e perfeito de civilização em oposição às demais, o outro. O eu, branco, civilizado, educado ou ainda o homem, heterossexual era construído em oposição ao outro, não branco, selvagem e sem educação e ainda a mulher e o homoafetivo. Postos em jaulas,- esquimós, africanos e indígenas -  estes outros, exibiam seus comportamentos em ambientes construídos para recuperar seus locais de existência. Nada diferente do que vemos ainda hoje em zoológicos com animais classificados como irracionais ou, no caso do BBB, com os animais ditos racionais.
O BBB é uma jaula devidamente construída com as novas tecnologias – espelhos, paisagens, câmeras, microfones e produtos à venda –  e não por acaso foi comparado a um campo de concentração, por uma dos participantes desta edição de número 16, pois era o local onde as pessoas iam aos poucos definhando e eram observadas rigorosamente pelos algozes que se consideram superiores – antissemitismo. Por vezes eram utilizados como cobaias de experimentos sem qualquer dimensão ética. No plano ainda dos campos de concentração o extermínio é feito em paredões numa dissimulação da morte simbólica do perdedor.
O mesmo ocorre com o “zoológico humano” BBB em seu décimo sexto ano. O ambiente foi produzido para causar conforto – no lugar de jaulas o confinamento recebe o nome de casa – um eufemismo de péssimo gosto para quem está internado na “Fundação Casa”. Por vezes são dados estímulos para provocar comportamentos e medi-los em sua radiância. Por outra, dão se “Prêmios” para tornar a estadia mais suportável e estimular a competição entre os pares, e dá-lhe entorpecer das consciências via drogas lícitas para demonstrar ao público o comportamento humano sem reservas.
Os preconceitos e atitudes mais comezinhos podem ser assistidos em todos os naipes produzido, no caso do BBB16, pela pessoa mais simples, passando pela burguesia repleta de bens e que desfruta do ócio do capitalista ao portador de doutor em filosofia, todos equiparados pela realidade do humano, exageradamente humano. Assim, as estruturas sociais de dominação da mulher por ser mulher é o que mais apareceu até a presenta data com a “macholândia”.
Claro que ninguém se identificará em alto e bom som como um machista típico; afinal a função do machismo é unir os machos em detrimento das fêmeas que serão utilizadas para o avanço dos homens sem que as mesmas notem sendo exploradas e dominadas. Assim, vemos o espetáculo do preconceito e da discriminação realizada pelo galã loiro, passando pelo negro ao intelectual chancelado pelo título de doutor ao “bicho grilo”.
“Fantástico” observar como os atores sociais – os personagens da vida real do BBB – se comportam em meio as estruturas socias artificiais do zoológico televisio cultural do machão.
As mulheres por seu turno, também se uniram, “sem nada dizer ou nada notar” da dominação masculina disfarçada em “reinado do quarteto masculino”. Assim, para não combinar voto de forma explícita determinaram apenas votar nos líderes. Interessante como as mulheres para sobreviver a séculos de patriarcado conseguem fazer acordos quase silenciosos para sobreviver em meio a dominação e exploração que sofrem; mas que também podem reagir, desde que seguindo certo código imposto pelo patriarcado: a docilidade disfarçando o poder.
Não deu em outra: um paredão de homem contra mulher ou seria de mulher contra homem? A vitória não poderia ser mais típica da sociedade patriarcal e machista brasileira: vitória do homem branco heterossexual.

Mas, como de todas as mazelas a menos dita – mesmo por quê criminalizada – é o racismo. Assim, a presa mais fácil tornou-se aquele que agiu de forma explícita diante do que a macholândia determinou e como única vítima no altar da vida simples e sem intenções é visto como alvo certo e frágil; afinal, quantos negros morrem antes do final do filme? Quantos chegaram a reta final de qualquer BBB? A presença negra é só cumprir “cotas”?

Assim, podemos ver muito em um BBB deste ano ou dos anteriores, mas, em especial um espetáculo, o do capital. Até onde se vai por mais de um milhão diante de uma emissora que lucra centenas de milhões com um zoológico contemporâneo? A pesquisa  por amostra simbólica dos costumes capitalista está no ar com a pergunta: “até onde você iria”?.
Pensando no cotidiano: até onde iria por e para manter um emprego? Até onde iria para conseguir um aumento, projeção ou promoção?
Mas, a Globo não está sozinha neste espetáculo de exploração capitalista; O SBT tem programa em outro formato que lembra o mesmo, afinal, quem não se lembra do "quem quer dinheiro" e doa aviõezinhos de dinheiro que fazia a massa se digladiar por alguns reais?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O planeta e o petróleo ou a crise das ações

Não é devido ao fim da escravidão formal que não temos mais escravizados no século XXI. Pelo contrário, nunca houve tantos seres humanos em escravidão ou situação análoga à escravidão. Mesmo em Ribeirão Preto já vimos várias denúncias contra a construção civil e seus incorporadores. O trabalho escravizado ainda rende lucros mesmo quando descoberto e punido pelo Estado.
Não é devido ao fim do patriarcalismo que o sistema patriarcal se desfaz - aquela que permitia a punição de esposas, filhas, ou mulheres, em geral, com a pena de morte por infligir a vontade do macho. A Lei Maria da Penha e os casos cotidianamente denunciados pela imprensa evidenciam o tamanho do problema apesar da igualdade perante a lei entre homens e mulheres. Ou seja, o tipo de crime leva a impunidade diante pena menor praticada por juízes homens.
Não foi devido ao fim da era do carvão que este deixou de ser utilizado pelo capitalismo. Pelo contrário, a China o usa em larga escala e as carvoarias, não raro, estão entrelaçadas com o trabalho escravizado, mesmo no Brasil. O lucro do carvão mantém seres humanos aprisionados e soterrados em minas.
Com o caso do Petróleo não é diferente.
A queda no preço do barril no planeta não coloca fim ao seu uso, pelo contrário, o implementa como último suspiro de um modelo energético. Isto não quer dizer que pararemos de utilizar o petróleo como base de energia produtiva, no planeta, ainda esta década, mas, que, não há espaço para ele no futuro do século XXI. Ao menos da forma escancarada com que vimos no século XX.
Se, 2014 foi o ano mais quente da história da humanidade desde as primeiras medições realizadas; não deixa de ser alarmante que o ano de 2015 já tomou o prêmio indesejado do ano de 2014. O aquecimento do planeta se acelera, superando as expectativas dos cientistas. O alarme soa cada vez com maior e com urgência se faz necessária uma resposta.
Face ao aquecimento global, os maiores investidores do planeta, que não estão infensos a esta realidade que desembocará em impostos e taxas cada vez mais caras para os produtos que têm em sua pegada produtiva o uso de tal energia, do carbono em geral, iniciam o desembarque desta matriz energética na bolsa de valores não só do Brasil, mas do planeta.
Aquilo que os Estados não foram capazes de fazer pela COP 21 (novembro a dezembro de 2015) será feito esta semana, com a reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos? As questões que se farão sentir nas entrelinhas do debate econômico neoliberal são: clima e petróleo. As maiores fortunas planetárias se reúnem em meio a Chefes de Estado e suas comitivas para decidir o que farão do planeta, para além das decisões das Nações Unidas, e mesmo de Estados isolados, diante das práticas e saberes neoliberais que não querem ver seus lucros minguarem diante de taxas e impostos. Não por acaso o tema de Davos, em 2016 é a “Quarta revolução industrial”.
Para o Brasil, esta realidade se materializa de forma contraditória. Embora o petróleo esteja com o preço em queda no plano internacional –  e isto atinja em cheio o valor das ações da Petrobrás, mas, não só dela, de toda e qualquer petrolífera e seu complexo produtivo, –  devido a demanda por redução de carbono e o possível direcionamento das grandes fortunas para energias limpas, em médio prazo, é um fato no mínimo embaraçoso diante dos projetos da camada do pré-sal.  

A era do petróleo chegou ao fim antes mesmo que pudéssemos fazer do lema “O petróleo é nosso” em uma realidade de redistribuição de renda via royalties para a educação. Esta a característica de terceiro mundo, de país atrasado ou em desenvolvimento que não conseguimos deixar para trás: quando estamos próximos ao modelo dominante de produção, este se esgota diante de uma nova vertente ou matriz.
Deste prisma, a queda do preço do petróleo e do valor das ações das empresas petrolíferas e seus complexos visam a não expansão da estrutura em preparação a sua substituição. Em seu último suspiro dominante o petróleo será viabilizado ao maior número possível de agentes econômicos e sociais para garantir até o último centavo de lucro. Enquanto este modelo de carbono não se torna antieconômico e merecidamente ilegal em nome das gerações futuras ele será utilizado, mas seu complexo produtivo será limitado cada vez mais – este o problema maior para o pré-sal.
Assistimos aos estertores do petróleo e tornar antieconômica a extração do pré-sal é apenas um dos sinais irreversíveis deste processo histórico onde ou deciframos o aquecimento global ou seremos pelo planeta dizimados por catástrofes climáticas cada vez mais gigantescas: enchentes, secas, nevascas, furações, perda de lavouras, doenças... onde as pragas do Antigo Egito parecerão brincadeira de criança diante dos desalojados e famintos do clima.

E, deste prisma havia razão para o Estado investir em pesquisa de ponta para tornar o pré-sal cada vez mais viável do ponto de vista se ele será cada vez mais condenado do ponto de vista ambiental? Seria o tempo de darmos um passo adiante e investirmos no que temos também em abundância: sol, ventos e marés? Ou seria necessário dois passos além para entrarmos no século XXI?

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Além do tempo - a arte enquanto drama do mundo

O tema central da novela “Além do Tempo”, da Rede Globo,  não é o amor romântico na sua interpretação da alma gêmea. Na doutrina espírita kardecista constam as almas afins, em mesma sintonia, em níveis semelhantes de aprendizados, de interesses, de saberes entre tantas outras modalidades de pluralidade de ser e estar no mundo dos encarnados ou desencarnados – este um tema não analisado (como foi outrora na novela “A viagem”).
                Lívia e seu conde não são o centro da trama, mas uma das relações possíveis entre os viventes (encarnados) deste mundo. Não são almas gêmeas como aspira ao amor romântico numa salada de frutas que envolvem de Platão aos platonismos passando por doutrinas outras espiritualistas e reencarnacionistas.
                Centro da questão ali posta é como o amor e seu oposto – o ódio, este uma das variantes das formas do amor doente – influenciam a vida dos que nos foram confiados, os filhos.
                 Sim! O tema central é como a vida amorosa ou de desamor dos pais influencia a vida dos filhos. A expressão mais acabada disto é Anita que nega o amor de casal em nome dos avanços da ciência pela concepção in vitro. Superado o trauma do desafeto dos pais retorna o amor em sua construção lúcida.
                Assim, são postas as relações de causa e efeito, tão típicas das ciências do século XIX – e ainda hoje nas ciências ditas da natureza e exatas – e que influenciaram o espiritismo kardecista  na demonstração das relações entre a vida anterior, entre o amor e a paixão – mais uma variante das formas de amar – enquanto (des)aventura que viveu com Roberto.
                A pergunta de fundo da trama evocada é “os filhos pagam pelos pecados dos pais”? Parece que sim! – segundo o folhetim televisivo. Mas, podem se libertar destas amarras e viver o esplendor do destino próprio em meio as suas interconexões de sentidos e trajetórias.
                No caso do menino Francisco, não é diferente. O tema é como o amor dos pais ou vivência da morte destes podem influir em seu destino, em sua trajetória de vida. O mesmo com Bianca e sua irmã Felicia e todas as demais crianças e adolescentes da trama. E, como cereja do bolo, o caso do menino Alex que sofreu em outra vida a desventura da perda dupla do pai. A primeira pela perda simbólica do pai incapaz de adotar o filho diante da calúnia de não ser fruto biológico.
             Desta maneira, é posta a trama que alcança muitos pais. A paternidade como a maternidade, exigem um ato de adoção daquele que nasce. Não basta ser biologicamente filho, tem de ser desejadamente filho para se ter um pai ou mãe presentes e afetuosos, é um movimento de adoção afetiva. Filipe, assim, não viveu a paternidade em plenitude na vida de Conde. Nesta, enquanto vinicultor, a vive independente da questão biológica – são as superações do amor entre pais e filhos – tema central da novela.
             A segunda perda do pai da parte de Alex foi o assassinato de Felipe por Pedro, o que lhe rende marcas vividas em sonho nesta vida. 
Por outro lado, a condessa que manipula o filho Bernardo em nome de um amor possessivo, onde só há espaço para o egoísmo do espelho – amo-te somente se fores igual ao que desejo, igual ao que me represento – e, neste ponto, o filho com sequelas mentais é inadmissível no convívio social e deveria ser sepultado em vida num manicômio – prática tão comum nas famílias abastadas ou medianas para esconder filhos gays, desvirginadas, e tantos outros outrora classificados como loucos. 
Mas, aquela que se pretende antítese da Vitória Condessa é o espelho de ponta cabeça da mesma realidade com Lívia nas duas vidas. Tanto em uma vida, como cigana artista, ou nesta, como abastada empresária de sucesso, Emilia é o reflexo da possessão dos filhos manipulados por dores próprias e mágoas outras dos pais.
Alberto se vingando da Condessa Vitória que lhe negou a paternidade no último suspiro, nesta, numa relação de causa e efeito produziu o ódio em Mili , negando àquela a maternidade em vida. Mas, quem paga todas as contas é a filha que precisará a tudo superar. Ou, nas palavras de Lívia – tudo pode ser perdoado. Heis a heroína.
Neste contexto, para iniciar os desfechos da novel,a o primeiro amor que se expande é o do capataz Bento, sendo nesta vida enteado de Vitória, se depara com a realidade dos erros do pai (des)herói que assassinou a mãe. Diante da realidade e do perdão tudo se resolve e os nós se desatam em uma trama de liberdades ilimitadas e de possibilidades novas para Bento.

Para avançar em direção ao remate da novela a pergunta do final do capítulo de Além do Tempo de hoje, 06 de janeiro de 2016, remete ao tema central e suas variações: pode o amor mais que o ódio? Ou, em outra palavras, o ódio, que é uma das variações do amor doente, pode ser superado a que empenho na relação entre pais e filhos? Quais os traumas que se poderá superar e sob que condições de experiência de vida?
Coroando estas relações Melissa traz a tona o drama das separações em todos os tempos, da visão do abandono feminino, típico até quase metade do século XX, ao desafio da mulher emancipada no século XXI. Mas, a resposta dela seria semelhante à de Medéia, da Tragédia Grega? 
Medéia assassinou os filhos para se vingar daquele que se separava dela – Jasão. O primeiro assassinato, do filho Alex, Melissa comete ao dizer que este não é filho biológico de Filipe - mais uma vez o assassinato simbólico do pai aparece na trama. Na continuidade realiza a desconstrução do pai ao filho em meio ao assédio moral nas relações familiares, neste caso, denominado e tipificado como alienação parental, no final do século XX. Mas, chegará Melissa ao assassinato material que já tentara fazer em outra vida com Lívia e consumado por Pedro,mas, agora contra o próprio filho?
Numa sociedade de tantos divórcios violentos ou com casamentos mantidos para não dividir o patrimônio o tema é no mínimo relevante, para não dizer de profundidade salutar para pais e mães e familiares e amigos refletirem sobre como as ações recaem sobre os destinos dos filhos e amigos. E, para além disto, diante de casos como o da Família Nardone – entre tantos outros noticiados em rede nacional de filhos assassinados por pais e vice-versa – o tema é urgente.
Nesta tramas das vidas intimas e pessoais, da vida privada e seus amores e dores as personagens femininas surgem como as mais poderosas e determinantes das histórias. Vitória do patriarcado ao dar a ela o espaço privilegiado do privado? Ao contar a história do amor e do desamor a matéria prima é o feminino diante de homens que circulam ao derredor das determinações sociais? Ou, pelas obsessões que a tantos corroê e muitos outros (des)mobiliza?

sábado, 14 de novembro de 2015

As hierarquias dos projetos ou dos ideais anacrônicos

As hierarquias dos projetos ou dos ideais anacrônicos

Diante de mais uma crise econômica que o País atravessa – e falar em crise no capitalismo é uma redundância – vemos o presidente da Câmara dos Deputados e seus seguidores e escudeiros defenderem projetos que fariam sucesso até a primeira metade do século XX e, assim mesmo, com ressalvas históricas. A marcha à ré nos direitos da mulher face ao estupro, na noção de família, no acesso ao STF de certas categorias religiosas, entre outros ,é de um anacronismo com poucos precedentes.
Isto poderia passar desapercebido se fosse apenas mais um legislador prestando contas a seus eleitores com projetos que atendem demandas específicas na contra mão da universalização de direitos sem a menor condição de viabilizar-se e ser aprovado. Mas, não é. É parte de um projeto antigo e dos mais tradicionais que se arvoram falar em nome de Deus para realizar os poderes do macho em detrimento dos femininos.
Participamos, no Brasil, de um processo de transformação nada silencioso na hierarquia dos projetos a serem atendidos. Apesar do alarido dos progressistas, as bancadas religiosas e da bala, entre outras possíveis designações de mesmo espectro político entre o reacionário e o saudosista lastreado numa pretensa representação da verdade sobrenatural, tem avançado em meio as massas eleitoras via igrejas e associações outras por elas fundadas como esteio de um povo que já retorna para a indigência em meio a crise do País. Os ganhos sociais de 10 anos de governos se evaporam em uma crise de dois anos.
Num arremedo da Syllabus errorum, de Pio IX, só que desta vez via Estado, pretende-se negar não mais apenas o mundo moderno, mas o pós-moderno com todos os avanços científicos que equipararam homens e mulheres e agora avança para o campo da homossexualidade – entre outras possibilidades.
Já Pio IX, em 1864, era um episódio anacrônico visto que se contrapunha as transformações do mundo moderno. O que participamos hoje, face a evangélicos e Bolsonaros, para não falar por hora do Estado Islâmico, demonstram o quanto a história não é evolutiva ou feita apenas de avanços e progressos. Se nas eleições municipais que se aproximam, mais uma vez o papel das igrejas for fundamental para garantir o sufrágio de pessoas que não contam com o apoio real da maioria, o pacto entre Estado e igrejas consolidar-se-á em detrimento da ciência pós-moderna. Pacto avantajado pelo PT que agora perde o “controle da história”.
Neste quadro o episódio do fechamento de escolas no Estado de São, via reorganização geográfica e etária; a possível reforma na carreira de professores das Universidades Estaduais, seguindo o norte dos Recursos Humanos neoliberais – onde não há espaço para todos serem pesquisadores e quebrando o modelo de carreiras estáveis para todos – demonstram o quanto o Estado democrático não consegue dar respostas universalizantes nas terras do Brasil, mesmo sendo o partido que se propõe dos intelectuais, o tucanato.
Assim, a exclusão escolar, a perca do pouco espaço ganho pelas “novas classes médias”, que de medianas quase nada tinham ou dispunham, o desmonte das carreiras universitárias encontra seu casamento perfeito com igrejas que podem solucionar via ritual mágico as agruras da pobreza e da ignorância que o Estado não faz dissolver via política ou políticas.

E, para não pensarmos que estamos sós neste episódio histórico que tende a tergiversar com o retrocesso, guardadas as devidas proporções, ao menos por hora, o Estado Islâmico enviou mensagem explícita de terror aos franceses de que a falta de escolas orientadas pelo lema que fundamenta o mundo ocidental contemporâneo – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – viabilizam mãos armadas incapazes de diálogo ou tolerância com a diversidade e a pluralidade laica pós-moderna, e nem mesmo moderna, onde o espaço da mulher e do feminino é a invisibilidade.


Ao caminhar dos debates e alianças políticas no Brasil, o que ainda chamamos de episódio – e que foi inaugurando pelo pastor chutando a Santa de Aparecida em cadeia nacional e condenado, ao menos naquela época, hoje em face ao “Somos todos Charlie Hebdo” e os avanços da interpretação laica, poderia ter resultados diferentes – a uma rotina onde terreiros de candomblé e igrejas católicas depredadas, ou pessoas “apedrejadas” serão uma realidade sancionada pelas novas maiorias, num contra fluxo da interpretação laica?
O aviltamento de uma educação de qualidade para a nação em conformidade aos cânones da ciência, entre elas com destaque para história, filosofia e sociologia, faz com que nem todos entendam que o ataque à França foi um ataque a todo o estilo de vida ocidental  onde ser livre é elemento constitutivo de cidadãos e não de fiéis seguidores doutrinados. O ataque a França é contra a liberdade da mulher e do feminino.  É contrário a ciência e sua liberdade de pesquisa. Em síntese, é o estopim que fez milhares migrar de seus países em busca do sonho europeu lastreado pelos Direitos Humanos, herdeiro e representante direto do lema da Revolução Francesa.
Que pese, e muito a tragédia do mar de lama em Minas Gerais que arrastou muitos à falência, outros à morte, e tantos outros à escassez de água –  e com ele a comparação do mar de lama que envolve os nossos políticos e políticas. É urgente e necessária uma resposta do Estado para além das providências da justiça. E, neste ponto não é isto ou aquilo. O local ou o global. É um e outro num contexto de complexidade pós-moderna.
Sem a França e o peso histórico de seus pensadores históricos, num futuro próximo tudo isto que ocorreu em Minas poderá ser explica pura e simplesmente como vontade de Deus em punição aos pecados. Ou, pior ainda, que o “Efeito estufa” é uma condenação Divina às condutas irreligiosas dos humanos e não resultado dos erros de política e políticas econômicas insustentáveis ecologicamente, mas muito rentáveis no plano dos capitais.
Assim, não deixa de ser contraditório que tantos solicitem orações à França e não atitudes, como as que os próprios franceses evocaram ao cantar o hino revolucionário: às armas cidadãos. A França fundadora do mundo contemporâneo sabe que orações não resolverão a questão, pelo contrário, pode e muito a tornar ainda mais complexa e menos tolerante as questões envolvidas em nome do poder do macho e de seu deus masculino que legitima o controle, da dominação e a explora excludente da mulher, do feminino, da liberdade, da ciência...
Por outro lado, a França da Liberdade, Igualdade e Fraternidade responde militarizando a sociedade para proteger a liberdade castrada ao se limitar o direito de reunião e ir e vir. Tristes tempos onde ainda se faz sentir os ecos  do dilema ético da frase histórica “para que haja paz, é necessária a guerra”?
Anacronismo, bem-vindo ao século XXI e bem na data que comemoramos, 15 de novembro, da Proclamação a República, aquela República que separou Igreja e Estado e fez avanças direitos civis, políticos e econômicos para homens e mulheres, masculino e feminino inspirado nos ideais franceses.