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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Odebrecht, a República Nova é sua

Uma das maiores alegrias de ser professor ou pesquisador é quando o aluno ou a criatura (pesquisa) superam o nome do mestre. É o que vemos na operação Lava Jato, a criatura está a superar os criadores. Elaborada, possivelmente, como uma das maiores farsas, da nossa história brasileira, de combate a corrupção, ela avança e se torna quase incontrolável pelos seus atores ao se espraiar por vários partidos .
A história de combate a corrupção tem capítulos celebres, recordarei apenas dois emblemáticos e fazem parte da memória coletiva do mais do mesmo no Brasil. A primeira a do jingle “varre, varre, vassourinha, varre a corrupção” da Campanha de Jânio Quadros, em 1960. A outra, do caçador dos marajás Fernando Collor de Mello (1990 – 1992). Não é preciso dizer que estes projetos ocultavam interesses outros.
Talvez uma das maiores permanências em nossa história político-partidária seja a corrupção e farsa de combate a mesma. Mas, o tom de denúncia varia conforme os interesses e o modelo de denúncia de acordo com a época.
O ponto a que chegou a Lava Jato, com a lista de 108 nomes do Ministro Edson Fachim, fez com que os denunciadores se tornassem possíveis réus. As denúncias abundam contra os principais opositores, o PSDB e o PMDB, do Partido dos Trabalhadores, alvo primordial da investigação.
Engolidos pelo próprio projeto e a denúncia não cessa e neste ponto duas falas dos Odebrecht fizeram ouvir o rugido do leão pelas planícies da política e pelas tocas dos partidos. A primeira de que não há candidato e/ou campanha sem caixa dois; e, a segunda, de que o dinheiro da Odebrecht irrigava os projetos de políticos desde a década de 1980.
A diferença da década de 1980 para o século XXI é que na primeira etapa a corrupção era viabilizada pelas obras locais aos políticos da nação e, no século XXI, foi construído um departamento para garantir a “lisura” do imposto de renda, o Departamento de “Operações Estruturadas”. Recordo que operações estruturadas diz respeito a combinação de instrumentos financeiros para potencializar oportunidades no mercado e minimizar os riscos financeiros. Não por acaso uma das rubricas de pagamento de propina era “concessões e privatizações” que tanto marcaram a presidência do PSDB e do PT.
Neste quadro retornamos ao último Presidente da Ditatura civil-militar João Figueiredo (1979-1985) e chegamos aos dias atuais. De um projeto que era negociado no plano local com o nacional passamos para a Organização do Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht negociando com os políticos da nação. Esta a marca da República Nova.
Mas, mais que isto, é bom pensar na pujança da farsa que engole o criador. De projeto restrito a denúncia do Partido que naquele momento histórico controlava e explorava a nação, o PT. Passa engolir o denunciante, PSDB, e principal favorecido, o PMDB, que se tornaram aliados em favor do capital que não mais se contentava com concessões e privatizações, “apenas”.
Neste quadro chegamos ao marco do aniversário do Impedimento da Presidenta Dilma Roussef (2011-2016), dia 17 de abril, que foi em boa medida financiado pelos partidos e pela FIESP e demais instituições congêneres aliadas que hora são engolidos pelo seu projeto de poder via judiciário em meio às panelas da classe média anti-petista. Abordamos ao primeiro ano do Impedimento com uma certeza, a grande vitoriosa nestes anos de República Nova Democrática foi a rubrica “concessões e privatizações” com o nome de projeto neoliberal via Organização Odebrecht na trajetória do pai e do filho, onde a Constituição Cidadã, 1988, foi um tropeço no percurso histórico.

Não se revezaram no poder partidos políticos, entre eles com destaque para o PSDB, PT e PMDB. Mas, vimos a permanência da Odebrecht no controle dos representantes do poder de Estado. Assim, cabe a pergunta se a Odebrecht mantinha o controle da “Ordem e Progresso” qual instituição que teria financiado a tomada do poder com o impedimento da presidenta Dilma Roussef e a conseguinte “amenização” do poder da Odeberecht na República? Qual seria a empresa que se beneficia com a “saída” da Odebrecht da cena dominante política da propina? Seriam as Igrejas Evangélicas e seu baixo clero parlamentar visto que parte significativa dos membros da Lava jato são desta ética religiosa? E aí, você ainda tem um político corrupto favorito e continua batendo panelas seletivamente contra a corrupção? Ou já percebeu que os políticos do País tendem a não ter valores, mas, antes de tudo, preço sendo mercadoria comprada pelo capital?
Seja como for a Constituição Cidadã é que está em jogo com todos os direitos que consagrou. O poder do capital não se contenta mais “simplesmente” com as concessões e privatizações”, agora exigem o fim dos direitos trabalhistas, via reformas da Previdência, Trabalhista e Terceirização; e reforma político-eleitoral para expurgar os grupos sociais em ascensão que cada vez elegem mais representantes . Mas, o ponto em questão é a Constituição que deverá ser abalada a ponto de se convocar uma nova constituinte que não deixe parar dúvida de que entramos em um novo momento história da República que busca no judiciário a legitimação de seus projetos de ampliação da dominação, controle e exploração do que foi um dia a cidadania.
A república que de nova nada tem sendo mais a República da Cloaca ou a República do Caixa 2 a serviço do capital via saque do dinheiro público encontra uma fala basilar do que sempre foi e ainda quer ser. A fala singular do Presidente em exercício Michel Temer: “Deixarei o judiciário trabalhar”. Esta frase foi dita em resposta a um repórter que perguntou, em voz alta, ao presidente em exercício, como ficava a situação do País e de seus Ministros denunciados  com a Lista de Fachin.

Ora, Senhor Sresidente, pelo que sabemos ainda estamos em um República Democrática, visto que a versão de golpe é negada pelo poder instituído. Destarte, se os poderes são separados não vos cabe deixar o Judiciário trabalhar. É dever de autonomia do mesmo processar o caso. Vossa Excelência não está acima da lei, embora para garantir os interesses do Capital tenha retirado direitos históricos da nação via discurso do medo com apoio do Congresso, se posicionando acima da sociedade e dizendo que o congresso, digo o projeto vencedor via impedimento, não pode parar, apesar da criatura engolir o criador.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Meu corrupto favorito ou o Brasil de sempre manda lembranças

Chegamos a um ponto no Brasil que o passado é mais presente que o futuro desejado pelas massas que aspiram cidadania, justiça e transparência e são transformados a fórceps em consumidores comuns, se tanto.
Quase invariavelmente, parte significativa das elites históricas do País estiveram ligadas ou mantidas no poder pela criminalidade. Palavras e conceitos pomposos foram destilados para manifestar, e simultaneamente ocultar aos iletrados, a corrupção em suas nuances: mandonismo, coronelismo, filhostismo, compadrio, clientelismo entre tantas outras formas assumidas pela devassidão do uso privado do que deveria ser público. Enfim, uma amarra sem fim com a criminalidade corrupta e corruptora do poder e do dinheiro públicos. Uma forma histórica de privatização que agora se torna lema do neoliberalismo.
Manifestações que eclodiram no Brasil, em junho de 2013, e que questionavam o aumento de vinte centavos na tarifa, rapidamente se transformaram em denuncia sistemática da corrupção e da transformação do cidadão em consumidor. A cidadania demandava direitos sociais e questionava a qualidade dos serviços públicos em precarização diante da corrupção e o modo de fazer política tradicionalmente no Brasil, ou seja, pessoalizada e corrupta no uso privado da República..
A mensagem era clara, Dilma experimentava queda na aprovação de seu governo e a oposição, ávida por poder há mais de uma década, iniciou uma inovação sem precedentes no modo de fazer política, mas herdeiro do modo Collor de caçar marajás, pela honestidade na política. Era a caça aos políticos não mais feita por militares, mas por juízes e promotores que, ao que tudo indica até aqui, foram seletivos nas denúncias e investigações.
Estes senhores da toga que, apesar da questão da transparência, permanecem com salários e benefícios sob sigilo, na grande maioria, mas, ganhando mais que o limite legal, foram trazidos à frente de batalha pela campanha pela honestidade, transparência e prestação de contas. Assim, descartavam-se os aliados tradicionais na manutenção do topo da pirâmide, o padre, pelo pastor; o policial e o delegado estadual, pelo plano federal, preferencialmente por juízes.
A massa cheirosa foi às ruas capitaneada por movimentos que se diziam sociais, mas, eram apêndices de partidos de “direita” e da classe dominante, que se diziam preocupados com o modo de fazer política corrupta. A batalha contra a corrupção fez o nome de juízes federais, passando pelo STF, serem conhecidos e discutidos por um circulo muito mais amplo que o jamais visto no País. E, as poucas cortes que não tinham suas sessões televisionadas ficaram gratas por não serem expostas ao vexame do projeto em curso.
Nos aproximamos do aniversário do Impedimento da Presidenta Dilma Rousseff com a evidência de que os que tomaram o poder não eram melhores no quesito que acusavam a derrotada e seu partido. Mas, o projeto fundamental se mantinha. A elite não pagaria o pato das custas financeiras da crise política-econômica defragada pela luta contra a corrupção, mas, atergiversação entre dinheiro público e patrimônio privado perpetuaria-se, mesmo que para isto tivessem que sacrificar alguns dos homens mais ricos da América Latina: Marcelo Odebrecht e o ex-Super X, Eike Batista.
A autofagia se tornou necessária e não poucos seriam sacrificados do pequeno circulo do poder em nome da manutenção da ordem tradicional mascarada de transformação histórica sem precedentes. Tudo ia bem enquanto isto atingia seletivamente o PT e seus financiadores. Mas, não tocava os que tomaram o poder e seus aliados e financiadores que desejavam que o povo pagasse o pato da crise.
Assim, coube a Temer reestruturar a posição planetária do Brasil em meio ao neoliberalismo. Deixar a mão de obra brasileira mais barata e longeva para a exploração internacional é a marca do governo. Reforma da previdência, da educação e trabalhista se incumbirão disto transferindo a conta para o povo trabalhador – inclui você com patrimônio menor que cinco milhões – ao mesmo tempo que liberará recursos públicos para serem emprestados como investimento subsidiado ao verdadeiros multimilhonários do Brasil e do exterior.
Todavia, é um governo que tem pressa. Tudo a toque de caixa: primeiro, por estar limitada a dois anos – se mantida a ordem constitucional; segundo, imprime velocidade por medidas provisórias, uma infinidade se comparada aos antecessores; terceiro, quer fazer dos juízes e promotores os candidatos ou apoiadores virtuais das próximas eleições pela construção de narrativas jurídicas do social e do político, deixando para o passado médicos e comunicadores sociais.
Todavia, teriam de combinar com os russos, digo, com os delatores. Nem entro na questão de quem é o novo financiador de votos que torna possível o azeitar da máquina com recursos e cargos. Seja como for o ponto que nos encontramos é o do “meu corrupto favorito”. Ou seja, os meus e os que apoio ideológicamente são honestos e inocentes até que se prove o contrário materialamente; e os seus e seus aliados são corruptos notórios e culpados por indução de testemunho, colaborativo.

Mas, citando André Perfeito, um dos entrevistados por várias vezes pela Globo News, como explicar que “Um processo é movido por um partido para impugnar a chapa rival por uso de caixa 2 e o inquérito descobre que o partido que moveu o processo recebeu caixa 2 e que o atual presidente, vice da chapa rival que foi acusada inicialmente por aquele partido, recebe hoje apoio do partido que moveu o processo sendo que se for provado que houve caixa 2 na chapa rival cai o governo onde o partido inicial tem ministros de estado.”
Coisas do velho Brasil, da velha política fazendo o futuro do País em conformidade aos interesses do grande capital no presente, que mesmo defenestrado, continua no poder e não pagará o pato. Mas, os que seguiram o pato de borracha amarelo na rua não ficarão infensos ao pagamento compulsório. E, pior, a escravização é tamanha, em louvor e defesa do capital do mercado, que nem de seus próprios filhos têm piedade, jogando-os à previdência privada – que tende a falir no futuro – transformando mais um direito de cidadania em serviço.
Mas, culpado é quem mostra ao escravizado que ele encontra-se na situação de escravizo. Ou que seu corrupto favorito também é um reles corrupto, apesar do português hermético da ciência e das leis dos crimes de colarinho branco feitos na imensa maioria por homens e mulheres brancos.

Para fechar basta lembrar o relato colaborativo de Marcelo Odebrecht esta semana de que repassou, por meio de caixa dois, para as campanhas do PSDB, Aécio Neves, que pede a cassação da chapa no poder; de Eduardo Campos e Marina Silva, então do PSB. E, o mensalão do outro partido seletivamente fica no fundo da gaveta enquanto a Lava Jato segue.

terça-feira, 29 de março de 2016

As ideias fora da realidade ou a corrupção e fraude na excelência do impeachment

A tradição lusa relegou como herança ao contemporâneo algumas das características que tornaram o Brasil, Brasil: educação metafísica e patriarcado.
A primeira tornou-nos um povo dado a teorias, princípios em abstrato, a teses desencarnadas do plano do real, do material. Importa muito mais as “belas ideias” que suas possibilidades práticas, discursos efêmeros com poucas práticas eficientes e eficazes. O amor à teoria de belas explanações e possibilidades infinitas de um paraíso irrefletido nas práticas.
A segunda herança fez com que em nome dos ideais fossemos capazes de nos lançar aos mais algozes poderes do pai, do chefe, do branco, do homem, do heterossexual, do capital. Diante deste poder inconteste do patriarca e de seus desejos nos submetemos a ordem idealizada de família hierarquizada para sobreviver em meio a uma realidade múltipla e em devir majoritária no plano real e minoritária no plano das ideias; e aos negócios escusos do chefe em nome da ordem. Cativos do senhor de escravos o empresariado do grande capital tornou-se donos dos corpos e das mentes no lar e para além dele, nos remetemos a ideias e ideais que apenas amenizam nossas dores cotidianas de explorados e expropriados via legal e por corrupção.
Este o ponto onde o passado encontra o presente ou o futuro com o passado no atual embate entre liberais (PSDB, DEM entre outros) e os que tentam ser socialdemocratas (PT e outros mais) aflora a corrupção com listas que parecem metralhadora giratória que põe a nú a realidade da corrupção tornada rotina burocrática, como o fora o extermínio nazista da Segunda Grande Guerra.
Os fatos que nos cercam demonstram que somos uma “democracia colonial”, em uma linha interpretativa tradicional, poderia ser designada de teoria da dependência de FHC. Neste campo, entre o patriarca dono de escravos – empregados sem direitos trabalhistas, sem segurança no emprego ou condições dignas de trabalho em meio a precarização crescente e a dependência do favor da família para manter-se – e o líder partidário do século XXI, vemos renascer o coronel truculento nas práticas legislativas e no judiciário e o patrão que quer controlar o voto de seus “apaniguados”, como se isto não fosse suficiente, em meio aos aplausos dos que defendem a “liberdade” em via pública.
Mas, por livre, leia-se e entenda-se liberalismo pós-neoliberal econômico temperado pelo sentimento patriarcal colonial escravocrata, ou seja, redução de direitos sociais e civis onde as primeiras vítimas serão os pobres, as mulheres, os negros, os homossexuais e tantos outros capazes de exercer a liberdade social para além da econômica – enquanto liberdade face ao destino dos costumes. Assim, os que defendem a liberdade na praça pública nada mais querem que o retorno do antigo privilégio de serem os únicos atendidos por recursos do Estado a juros ínfimos enquanto ao povo nada caberia se não o trabalho.
Nesta sopa de ideias e ideologias vemos o quanto as ideias estão fora do plano real. O discurso de combate a corrupção visa apenas a ampliação dos lucros da iniciativa privada, em especial do grande capital, sobretudo daquela alijada pelos atuais “donos do Estado” questionados em sua legitimidade de poder. A meta é apossar-se dos recursos do Estado para outro grupo, aquele fora do poder de Estado, com outra concepção de Estado e Sociedade, mesmo que o preço seja o golpe contra democracia legítima via judiciário como esteio de evidências legitimadas.
No mesmo plano, a fala de Lula de que o combate a corrupção – até aqui limitada quase exclusivamente ao PT e aliados, onde a lista com mais de duzentos nomes ocultada pelo sigilo de processo é apenas meio para se por sob suspeita, ainda maior, a impessoalidade da aplicação da lei – seria a responsável pela crise econômica não reconhece dois fatos, em nome das ideias que controlam as mentes e corações. A paralisia econômica deve-se a nossa dependência do mercado internacional, em crise desde 2008 – crise que colocou fim ao neoliberalismo, mas o que se inaugurou ainda não se configurou de forma explícita em termos de doutrina econômica – e isto consolidaria a teoria da dependência de FHC –  que seria a única política-econômica que nos caberia.

Outro elemento explicativo da crise não é a investigação da corrupção, mas a crise da rotina da corrupção. A corrupção vista como fato social, no Brasil, quer dos políticos ou das iniciativas privadas indo do grande ao pequeno capital em conformidade ao poder político que a circunda, demonstrou-se uma prática suprapartidária que coloca em questão a própria república e seus representantes, de liberais a socialdemocratas. A rotina da corrupção posta em cheque, sobretudo diante da leniência do grande capital, colocou os empresários atônitos ao contágio coletivo que poderia causar e os fez cessar no investimento produtivo, mesmo dizendo que tudo se deve aos altos impostos, apenas; como se fosse apenas?
Assim, a economia não parou apenas pela dependência internacional, mas por fatores próprios ao Brasil, naquilo que o torna Brasil, as ideias abstratas de que partidos poderiam corresponder a quadrilhas e políticos, possivelmente, a criminosos organizados, foram materializada fazendo o escândalo para inglês ver. A rotina da corrupção fazia as engrenagens andar de forma azeitada por todos os naipes políticos e do grande capital, “cessada” esta rotina que ia do mensalão, para se votar no “projeto Brasil do PT”, às obras públicas, restou ao país encolher economicamente com milhões de famintos desempregados.
O que coloca outra questão, e decisiva no que torna o Brasil, Brasil; a disputa é pelo fim da corrupção ou pelo monopólio da corrupção ou pela alternância na corrupção? As ideias fora da realidade demonstram que o importante não é o combate a corrupção, mas, a imposição de seu projeto social-político-econômico em detrimento do outro, sem que com isto, se extirpe a rotina da corrupção? A Itália de Berluscone, após mãos limpas, que o diga. E, não apenas. A questão é qual corrupção interessa investigar e qual preocupa manter os olhos da justiça fechdados?
Para ficar apenas em mais uma tese típica dos cientistas políticos do PSDB, a defesa da ideia de que a condições econômicas determinam a eleição está posta em cheque neste terceiro turno, uma vez que até o segundo turno a crise não se demostrava com a força que agora notamos pelos números negativos inegáveis face a crise econômica-política da corrupção. Resta saber se combinaram com o povo que não aparece em todo seu fulgor nas ruas. Ah! Sim! O povo é apenas mais uma ideia fora da realidade!
E tudo isto confirma apenas uma tese: o grande capital, este orbita ao redor dos governo federal e alguns estaduais, não se envergam perante o Estado, compram tudo que lhes interessa de reeleição presidencial com reforma Constitucional a partidos e candidatos que se lançaram como baluartes da ética e da defesa do povo brasileiro?
Que os juízes e os políticos honestos nos salvem!          

domingo, 7 de junho de 2015

Pior que perder... é ganhar e não levar ou da extinção do pensamento político romântico

Chegamos a um ponto na sociedade contemporânea onde o mais relevante não é ganhar, mas, antes, inviabilizar o vencedor. Dilma Rousseff e Josef Blatter são exemplos ímpares. Ambos enfrentaram oposição de grupos significativos e, apesar dos pesares – corrupção e propina – saíram sufragados das eleições.
Dilma Rousseff utilizou de todos os meios ao seu alcance, assim como seu opositor, para vencer. Do discurso da esperança vencer o medo – quando LLulla era candidato – passou-se para a arenga do medo sucumbirá a esperança que raio.
A velha cantilena do medo na política é antiga e tradicional. Pintar o “outro” com tintas fortes faz parte do processo, segundo os marqueteiros e seus aliados. Quem está na oposição trabalha a esperança de novos tempos e o que está no poder adverte do medo, perigo e receio da mudança. Não é fato novo. É mais do mesmo ao longo dos séculos, quer democráticos ou não. Faz parte do romantismo político e seus ideais fraudados no plano real. O discurso do medo advertia para o risco de um choque de gestão. Vencedor o discurso do medo passou a implementar as práticas do ajuste fiscal.
A situação e a oposição sempre se digladiando em suas práticas discursivas – o que para um é choque, para o outro partido é ajuste; o que para um é reforço de caixa, para o outro partido é dinheiro não contabilizado, privatização X concessão... Seja como for, ao final das contas quem pagará à custa dos erros administrativos transformados em dívidas é o cidadão assalariado e quem ganhará sobre os acertos será a elite tradicional financista.

Vencido nas urnas, Aécio Neves demorou-se para reconhecer a derrota a ponto da vencedora quase se antecipar ao traço diplomático das eleições. O vencedor alardeia-se após as congratulações do vencido. O postergar do reconhecimento da derrota eleitoral rra o sinal claro de que o desbarato não aceitara o fato. De lá para cá, tudo o que vimos foi uma oposição organizada para garantir que a vencedora não seja entregue as batatas.
No caso de Josef Blatter o enredo não é diferente. Acossado de todos os lados está em meio à trama de propinas. Ao contrário de Dilma, seu o opositor não só reconheceu de público a derrota, como o fez de modo estamental, renunciando. Ao menos do ponto de vista oficial, pois, a ação remete a outros significados, como a impossibilidade de um embate ético. Mas, a teia em que se encontrava e se encontra matem o interesse em inviabilizá-lo e o conseguiu, a ponto de Blatter anunciar a renúncia. Mas, para o ano que vem. Até lá tudo pode mudar se seus opositores amainarem diante do desgaste da marca FIFA.
O mesmo faz a presidenta ao colocar em primeiro plano para as negociações o vice-presidente – transmutado em primeiro ministro – e o ministro da economia, transformado em embaixador. Sair do foco é a questão de Blatter e Dilma, para que tudo se mantenha como está.
O elemento mais relevante é notar o quanto os denunciados e acossados estão envoltos no enredo da corrupção como elemento que fortalece lucros e dividendos num enredo triste de assassinato público do romantismo republicano e democrático de direito. Nos dois casos, por absurdo que pareça, as investigações conduziram a prejuízos maiores do que o lucro do ressarcimento. Isto coloca uma questão diante do capitalismo anti-romântico: seria a corrupção sistêmica ou simbiótica no capitalismo, na república, na democracia?
Como escreveu Honoré de Balzac “Por detrás de uma grande fortuna há um crime”. No mesmo sentido, ouvi recentemente de um advogado que a melhor expressão para o que ocorre é a frase “está tudo dominado” e, se o Estado quiser fazer algo, deveria legislar para legalizar a joia.
Tristes tempos onde a busca da honestidade, da verdade e da justiça possam causar mais dano social que o benefício de seu ressarcimento numa denúncia banalizadora do sonho romântico da honestidade e da transparência. Tristes tempos estes onde o honesto é inviabilizado e o vencedor não levam as batatas. Afinal, pior que perder... é ganhar e não levar o prêmio. Pior que perder, é fraudar para ganhar.
OU para ficar em um exemplo de movimento social – mesmo que elitizado – como deverá se sentir quem foi às ruas contra corrupção na política do Brasil com a camisa verde e amarela do time brasileiro diante das denúncias contra a FIFA e a copa de 2014?
Machado de Assis (1839- 1908), responde – quer para quem votou em Dilma ou se manifestou pela honestidade – apesar das pequenas corrupções cotidianas – “De tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a rir-se da honra, desanimar-se da justiça e ter vergonha de ser honesto.”

Será o canto do cisne para os ideais políticos românticos de utopias mil? Será a inauguração do planeta a algemas?

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Os “Dois Brasis” eleitorais ou a contradição que interessa?

Wlaumir Souza
Durante a campanha eleitoral de 2014 vi, ouvi e li muitas manifestações dos que estavam na oposição a reeleição de Dilma R., que contradiziam um dos principais pontos do pensamento de K. Marx – a dialética. Assim, assisti, impressionado, ao fato de que não poucas pessoas – do cidadão comum, passando por políticos profissionais a acadêmicos (de universidades públicas e privadas) que condenavam a posição de contrapor “ricos e pobres”, a classe dominante e a dominada e afirmavam que neste ponto o Partido dos Trabalhadores faziam um desserviço à nação. Mais impressionado fiquei ao notar que alguns destes acadêmicos provinham das mesmas faculdades que outrora legitimaram ou trabalharam para o “bom governo militar”.
Outro ponto que me chamou a atenção foi os não poucos cidadãos que ao se manifestarem via redes sociais diziam ter ido à rua, no meio do ano passado, para a “mudança”. Não poucos destes entendendo a mudança como o sufrágio do candidato Aécio Neves que historicamente representa, via PSDB, o Estado neoliberal. Assim, numa amnésia quase que coletiva esqueciam-se que as manifestações iniciaram exigindo o transporte livre e gratuito o que remete a maior intervenção do Estado na economia e nos avanços das políticas públicas de distribuição de renda pelos mais diferentes canais não de cidadania via consumo, mas, antes de cidadania social. Os acima citados, trabalhavam pelo ocultamento das contradições sociais e políticas buscando construir o candidato Aécio N. como o porta voz da unidade nacional sem as “disputas” de classe democráticas.

Encerradas as eleições o sonho de uns se realizaram e o pesadelo de outros se iniciava. E, com isto o foco da contradição que interessa. Neste ponto, a quem mais interessava a contradição vem a convocação para a “harmonia” das classes. Os que outrora queriam a “massa indiferenciada” clamam pela diferença ontológica. Nada como o tempo e o espaço para o desvelamento dos interesses e das auto representações demonstrando que o que parecia pensamento crítico se torna ideologia e alienação e o que poderia ser ideologia e alienação busca se tornar pensamento crítico? Assim, a diferença entre o Brasil que se pinta na campanha depende de se estar no poder ou na oposição a este.
Assim, findas as eleições o PT fez um chamamento para o diálogo – dialética – para se chegar a uma síntese de governabilidade, o que, poderia ser, mais uma vez entendido, como a abertura de mão dos trabalhistas de sua agenda programática histórica em favor da manutenção do poder pelo poder que se legitima via parcas políticas sociais de distribuição de renda sem alterar de fato a pirâmide social visto que foi regiamente financiado pela capitalista financeiro e corporativo.

Do ponto de vista dos tucanos vencidos, a contradição que irrompeu foi aquela de Jacques Lambert em Os dois brasis (1957). Ironia do destino, exatamente isto que o PSDB e o DEM negaram durante seu reinado, digo, governo federal. Esquecendo-se de que Aécio N, fora derrotado em seu berço político e no Rio de Janeiro (local preferido para os passeios rotineiros do ex-candidato a presidente) querem assinalar a vitória num binarismo simplório entre o norte/nordeste pobre financiado pelos “bolsas” do governos federal e o sul/sudeste “rico e intelectual que pugna pela honestidade e transparência”. Aliás, estas podem ser vistas no Estado de São Paulo que não vê  avançar as denúncias contra o governo? Por outro lado, esquecem-se que tudo o que fizeram no passado foi tentar apagar do Brasil a Belíndia descrita por Edmar Lisboa Bacha.


Neste ponto entramos na contradição suprema que revela a vitória parcial das manifestações do ano passado? Enquanto as agências internacionais “humanitária” aplaudem o sucesso das “bolsas” os agentes do capital internacional não cessam os ataques à bolsa e ao dólar no Brasil visto que tudo que interessa é o neoliberal do “sula maravilha”? Isto sem contat o racismo nada cordial que irrompeu numa revelação de que temos muito o que fazer pelos "Dois Brasis".