sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

 

“É dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado.”: Bolsonaro - 2020

 

A música/oração cristã (católica? de São Francisco de Assis) muito bem sintetiza a cultura política patrimonialista do Brasil e a valida em contornos espirituais. Legitima a ordem ao mesmo tempo que subalterniza as frações de classe abandonadas pelo capitalismo. É dando obediência, submissão e cumplicidade ao patrimonialismo que se recebe cesta básica, emprego e acesso aos recursos do Estado.

Tanto PSDB, PT e agora Bolsonaro não abandonaram esta técnica de poder para manter a ordem política, econômica, social e cultural da Terra Brasilis.

Bolsonaro, visto por muitos como palhaço, ignorante, limitado e doentio, conseguiu fazer com que seus opositores cometessem o maior ato de ingenuidade nas lides políticas. A de considerar seu opositor “inofensivo ou subjugado ou vencido antes do combate”.

O palhaço ou o bobo da corte é aquele que diz anedoticamente o que está no campo da realidade, e que dito de forma nua e crua seria ofensiva ou criminosa, pra não dizer pecado. Não por acaso os ditos e feitos  mais medonhos de Bolsonaro foi encaixado, ingenuamente, como palhaçada. Como se não bastasse esse equívoco na consideração do opositor, ainda o chamam de doente. Sendo doente, aprofunda-se a consideração acima e retira dele a responsabilidade pelo que diz e faz. Sendo doente não cabe responsabilidade ou condenação, mas, antes, apoio terapêutico. Visto como coitado, o mito venceu.



Neste imbróglio da oposição que afirma a “ingenuidade ignorante” de um Bolsonaro, se vê crescer seu poder no segundo biênio de seu mandato. E, até aqui, parece que não será o último, diante do apoio que o mito, que tuto diz e fala inocentemente, ainda tem no eleitorado.

Uma das articulações de Bolsonaro que foi de mestre, e o cacifa para a eleição presidencial de 2022, está posto, em princípio e em tese, na eleição do Presidente do Senado e da Câmara dos Deputados que acena com a possiblidade de ampliar o seu poder sobre o Congresso e as oligarquias políticas e seus caciques.

Usando o lema do “É dando que se recebe. É perdoando que se é  perdoado” conseguiu aliar-se ao Centrão, que foi tão criticado durante a Campanha e parte do primeiro biênio do governo Bolsonaro. Este sabe que não se governa no Brasil diante de três problemas: a oposição do centrão; a investigação e condenação de corrupção; e a não cooptação de votos por meio de verbas, cargos e outras formas mais.

Neste campo do poder e resolvido a governar o aceno para a governabilidade foi dada no dia 7 de outubro de 2020. Em evento público disse: - “Acabei com a Lava-Jato porque não tem mais corrupção no governo”. Não por acaso que neste evento, no Palácio do Planalto, o Presidente foi aplaudido pelos presentes. O projeto de congraçamento estava mais que lançado, oficializado. O lançamento do projeto se deu com a exclusão de Sérgio Moro do Governo de Bolsonaro, em 24 de abril de 2020.

Com esta frase - “Acabei com a Lava-Jato porque não tem mais corrupção no governo” - o Presidente chancelava a passagem histórica e histriônica de Romero Jucá “do grande acordo nacional com o Supremo, com tudo”, em 2016. “Com tudo”  inclui os oponentes. Acabar, ou inviabilizar, com a Lava-Jato, ato feito por Bolsonaro, aliançava direita, esquerda e centro. E punha fim a Sangria desejada pelo PSDB no momento em que o mesmo partido poderia entrar na mira da Lava-Jato.

Não por acaso que 1)a pá de cal na Lava-Jato foi realizada logo após a eleição dos Presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, no início de fevereiro  de 2021. O congraçamento foi pautado pelo Centrão, entre liberação de verbas, cargos e outras coisas mais. Quais outras coisas mais, entre elas pode-se citar Ministérios, novos ou já existentes. 2) O fiel da balança legislativa, o Senado, teve seu Presidente eleito com votos de todos os espectros políticos.

O Congraçamente está em curso. Resta saber se incluirá a “inocência de Lula” a ser decidida em breve. E, afinal e ao cabo, os maiores condenados serão Sérgio Moro e seu cúmplice(?) Dallagnol por terem servido, a seu tempo, aos interesses imediatos das oligarquias políticas. Mas, descartados por se oporem a Ordem e  Progresso patrimonialista do Brasil? Visto que os interesses imediatos das oligarquias políticas, são descartáveis, assim com seus atores, o que não se diz dos de longa duração, qual seja, “É dando que se recebe”.

Assim, Bolsonaro vai se viabilizando para seguir mais quatro anos além dos quase dois que ainda restam.

O povo? A classe média? Ora o povo! Que assista bestializado entendendo apenas do pão e circo. Circo, aliás, substituído por igrejas. E, o pão, por socorros emergenciais. Numa polarização fictícia que só faz ampliar a fome e o ranger de dentes dos mais pobres.  Ora a classe média! Começa a perceber que em meio a um governo liberal está iniciando a naufragar e que vivia bem melhor nos governos “socialistas” do PT e do PSDB, sobretudo no primeiro. Mas, a ausência de identidade de classe faz fingir a si e aos demais da mesma classe média para não de dizer pobre e em maior empobrecimento.

Leitor. Este texto é apenas mais uma hipótese para se pensar além da polarização.

 

 

 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Bolsonarismo e a inserção subalterna no globo


Dentre os tantos temas e abordagens políticos, econômicos e sociais que separam o projeto de Bolsonaro e de Lula para o Brasil está o modelo de inserção internacional de nosso país e nação na globalização.
Enquanto o projeto da esquerda l tinha como meta uma inserção igualitária no plano internacional,  a ideia de Bolsonaro é de se fixar como país dependente do apoio das grandes potências para sobreviver até o final do mandato, se tanto.
O lulopetismo tinha um projeto de investimento  em educação superior de qualidade associado ao modelo de pesquisa ,com bolsas no estrangeiro, para viabilizar a tomada de conhecimento avançado dos grandes e médios centros de pesquisa internacionais para garantir os avanços da soberania nacional.
O Bolsonarismo, por outro lado, vê na ciência um agente a se combater por seu modo crítico de pensar e produzir novas interpretações da realidade. Para além disto, desmonta o ensino superior de qualidade por meio de cortes de verbas. Soma-se a isto críticas incautas, para dizer o mínimo, do fenômeno de fake News, que permanece como mote de sobrevivência eleitoral, no que diz respeito aos Campi universitários.
Assim, enquanto um se apoiava no avanço da ciência via educação superior; o outro, quer se manter no poder baseado em um moralismo barato que nada acrescenta de positivo aos avanços do projeto iluminista ou humanista sancionado majoritariamente pelo Ocidente e pelos países centrais do capitalismo ocidental.
A enquanto para um a meta é inserção autônoma, para o outro a inserção subalterna é a resposta. Esta tendência se ancora não apenas na matriz de exportação agrária, característica do Brasil desde a Colônia – e agora chamada de agronegócio – mas, também, no patriarcado – combatido pela maioria das universidades via teoria de gênero – na religião, que se encontra cada vez mais limitada em seu discurso mágico face aos avanços da ciência para as camadas mais altas e único refúgio ao desespero dos mais pobres face ao desmonte das políticas; e no velho e bom patrimonialismo, via militares e judiciário, para garantir a ordem exploradora.
Para garantir a inserção subalterna, portanto, é necessária a alta do dólar, a redução da educação para o nível técnico, com salários e direitos trabalhistas baixos para assegurar a exploração das massas brasileiras pela potências internacionais, ou seja, redução do valor do salário do brasileiro no contexto global.
Destarte, mais do que ganhos para o brasileiro médio, o que se acena é com a redução do valor agregado da mão de obra brasileira para garantir, via subserviência, a exploração maciça do povo brasileiro.
 Na outra frente deste projeto, está a classe média, não aquela que recebe menos de dez mil reais por mês; mas, aquela que economiza milhões e se põe como intermediária entre o capital internacional e o nacional e há muito deu as cotas as frações inferiores com as quais tem de interagir no cotidiano do trabalho.

Com isso, o velho e bom papel da religião para garantir a subserviência, onde ver a dor , sofrimento, doença e miséria como provas a se resignar torna-se, não apenas necessária, como urgente.
Mas, os títeres desse projeto sabem que a mão Divina pode não ser o suficiente para segurar as massas que podem, em um sobressalto de wattsapp, invadir as ruas diante da fome que se aproxima. Diante disto faz mister a ameaça do chicote via AI-5 tanto pelo pimpolhos do Presidente como por parte do Ministro da Economia, o maios responsável pela inserção subalterna, como do Presidente que o faz “brincando” com fogo.
Todavia, o Presidente dos EEUU quer mais que isto. E, para tanto, não medirá esforços para fazer do Brasil uma colônia sem direitos alguns, quer para o pobres ou para a classe intermediária. Bangladesh que se cuide, Bolsonaro quer para o povo o seu lugar na economia global para sustentar um crescimento pífio baseado na exportação, no baixo salário, ausência de direitos trabalhistas e sociais, e quiçá, políticos.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Notáveis da Justiça


Ao longo da história várias personalidades notabilizaram-se pela contribuição que deram ao direito. Mais que isto, para além de aplicadores da lei, construíram leis ou fizeram interpretações jurídicas sem precedentes que influenciaram o futuro de uma nação ou da civilização. Estes advogados e juristas são denominados de notáveis da justiça por sua grande contribuição á humanidade, à dignidade da pessoa humana, aos direitos subjetivos e fundamentais.
Para falarmos dos notáveis da justiça temos o caso dos Estados Unidos onde o debate, que deu origem à Constituição da República Democrática,  realizou-se por meio dos jornais deu origem ao livro clássico “Os artigos federalistas (1787-1788)”, onde se reúnem os artigos que discutiram a construção da primeira nação contemporânea democrática e republicana. Os notáveis deste debate eram james Madison, Alexander Hamilton e John Jay. Thomas Jefeerson fez a seguinte consideração sobre estes textos “O melhor comentário jamais escrito sobre princípios de governo.”

Quanto ao Brasil, um notável da justiça é Ruy Barbosa de Oliveira (1849-1932). Com todo o seu saber em direito construiu a Primeira Constituição  Republicana do Brasil. Com o poder de seu intelecto brilhante foi coautor, da Constituição da Primeira República, em parceria com Prudente de Moraes. Dentre seus ideais destacava-se o federalismo, a defesa dos direitos e garantias individuais.



Alguns exemplos históricos são possíveis de serem encontrados representados na arte, como o caso do Julgamento de Nuremberg (1945-1946). oficialmente Tribunal Militar Internacional vs. Hermann Göring et al.  Terminada a Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945) foi ajuizada a questão da culpabilidade dos Nazistas no que seria conhecido por crimes de guerra. Para além disto, influenciaram as práticas científicas com seres humanos ao influenciarem os princípios para a pesquisa que ficou conhecido como o Código de Nuremberg (1947). Ou seja, suas atitudes jurídicas ultrapassaram as esferas dos tribunais e do encarceramento histórico tradicional, ao punitivismo, e geraram uma nova disciplina e entendimento no que tange ao direito e seus sujeitos. Fizeram, ancorados na história da humanidade, interpretações jurídicas que ultrapassaram sua época e geraram uma nova Era Jurídica e que deu origem ao Tribunal Penal Internacional , com sede em Haia.
Os impactos do Julgamento de Nuremberg podem ser vistos ainda hoje no trato entre as nações em guerra ou em paz, no respeito ao ser humano em pesquisa que passou de um ser passivo a um ser ativo, ou seja, voluntário consciente. O Julgamento de Nurembeg teve impactos políticos, sociais, éticos, científicos e sociais para a história – mesmo que paire a crítica de ser a justiça dos vitoriosos.
Em geral, os membros das Supremas Cortes dos Países são considerados por seus pares como notáveis, todavia, para serem notáveis da justiça precisam, no exercício da função, dar tal contribuição à sociedade e a civilização que torne real o que deles era esperado quando de suas indicações para os cargos: contribuição histórica das garantias fundamentais. E, como não poderia deixar de ser, grandes feitos recebem além do reconhecimento, grandes críticas.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Versos e Reversos do Amor – Livro de poesias


No dia 24 de agosto de 2019, às 16h, lancei o livro de poesias Versos e Reversos do Amor  na Livraria Travessa do Ribeirão Shopping.
Todos os livros disponibilizados na Livraria foram vendidos incluso os volumes de minha reserva pessoal.  Ao todo 100 livros comercializados num final de semana.
Foi uma festa de amor ao reencontrar tantas pessoas queridas e que fizeram e fazem parte de minha história em Ribeirão Preto e Região. 
O livro versa sobre o amor nas suas idas e vindas, nas suas contradições entre a realidade e o desejo, entre as possibilidade de ser e seus obstáculos existenciais. Em suma, fala da vida como sendo uma obra de amor construída diuturnamente nas escolhas existenciais que fazemos, quer consciente ou inconsciente, e as demandas que esta liberdade nos impõe para amar e ser amado.

Versos e Reversos do Amor é um convite ao leitor destemido do primeiro quarto do século XXI para refletir intimamente como nossos sentimentos podem ser contraditórios e amo mesmo tempo gerar gozo e esperança. É um apelo à resiliência de amar a vida em tempos tão árduos, repletos de ditos e não ditos que nos conduzem pelo labirinto da existência e seus significados.
Mais que pensar o amor romântico, embora este se faça presente, é pensar o amor e seus avessos como projetos de vida e de significados caleidoscópios, visto que até mesmo o “ódio, que poderias chamar de avesso ao amor, nada mais é que o amor que adoeceu” (Chico Xavier)
Convido para a leitura do livro que está disponível no site da Editora Chiado que tem sede em Portugal e distribuirá o livro para os países lusófonos.
Ou, para quem desejar, diretamente com o autor: wlaumir@hotmail.com 
Caso queira um autógrafo ou falar de poesia, basta convidar o autor para um café.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

O fim da Era dos Direitos: Bolsonaro e o desmonte da classe média trabalhadora


Como excelentemente descreveu e analiso K. Marx, ao sistema capitalista mais que trabalhadores, interessa manter uma quantidade de trabalhadores sem trabalho para que não ocorresse pressão sobre salários e direitos. A isto ele denominou exército de reserva. Este seria de maior ou menor monta dependendo de ser um dos países centrais do capitalismo ou periférico, nesta ordem, crescente o número de pessoas atinentes ao exército de reserva para equilibrar o mercado de trabalho, em conformidade ao interesses capitalistas liberais.
Não por acaso o economista John M. Keynes, ao criticar o sistema liberal ancorado em Adam Smith, assevera que este não leva em consideração o desemprego na sociedade, pois, este faria parte do jogo em favor da classe capitalista.
Com a Quarta Revolução Industrial, a globalização e o neoliberalismo, todos em sintonia a ampliação da exploração do trabalhador em favor do capital, far-se-á ampliar o exército de reserva para além das demandas de equilíbrio do mercado de trabalho capitalista nos moldes liberais. O que se tem agora, é um excedente de trabalhadores que compõem, ainda, uma pressão para a não demanda de direitos e melhores salários, mas, para além disso, são os desempregados estruturais, que só fazem crescer na sociedade neoliberal globalizada da Quarta Revolução Industrial chegando a atingir parte das camadas médias.
Os avanços tecnológicos aliados á globalização da economia fizeram com que ocorresse uma competição, ainda mais acirrada, por investimentos de capital, e com isto os países periféricos, alinhados com o neoliberalismo, Caso de Bolsonaro, precisam depreciar o preço e o valor de seus trabalhadores, enquanto média salarial, sobretudo, pra se fazerem atraentes a este capitalismo em nível planetário.
A primeira etapa é o desemprego estrutural com o seu consequente número crescente de desalentados. Com isso sede a pressão nos salários e os direitos outrora defendidos passam a ser visto como risco à empregabilidade diante do discurso do medo propalado pelos neoliberais. Não por acaso Bolsonaro assevera que suas reformas – com destaque até aqui para  a previdência e a nova reforma trabalhista em tramitação, chamada de Reforma da “Liberdade econômica”. Sim, liberdade econômica de explorar mais profundamente  o trabalhador sem que o trabalho detenha resquícios da era dos direitos trabalhistas. – são para que haja algum emprego.
A segunda etapa, e que entra em vigor com a Reforma da Previdência, é a efetivação do Estado do necropoder, a necropolítica. Os trabalhadores indesejados são empurrados para a morte precoce pela ausência de direitos não só trabalhistas, mas sociais e de políticas públicas como saúde e educação. Privatizar saúde e educação com o desmonte do SUS e da Universidade Pública são os passos seguintes. E, neste ponto o trabalhor realiza suas funções até a exaustão do corpo e sem meios de acesso a saúde e repouso remunerado tende a morrer mais jovem, assim, e como quase sempre na história do capitalismo, financia a aposentadoria dos mais ricos uma vez que pela necropolítica está condenado a morrer antes da expectativa de vida alongada pelas frações de classe mais privilegiadas.
Toda a estrutura de saúde montada pelas universidades públicas e pelo SUS é ainda mais precarizado e, depois, privatizados, conduzindo a morte de milhões de trabalhadores que não mais eram contabilizados nas estatísticas de desemprego por serem desalentados ou  desempregados estruturais. São os indesejáveis do sistema uma vez que não cumprem nem o papel de exército de reserva.

       Mais que isto, até a fração de classe média aliada sistemática da classe capitalista se vê abandonada a própria sorte uma vez que a Era dos Direitos não mais é necessária e as Universidades Públicas que lhes garantiam privilégios pelo saber é desmontada. São igualados assim a frações de classes mais subalternas pela perca de direitos históricos ao qual tendiam a se posicionar contra por pensar como capitalista embora não o sejam. A classe média é abandonada a própria sorte também, pois com a Quarta Revolução Industrial não mais é necessário um grupo numericamente significativo com pensamento crítico.
Por isto a primazia não estaria mais no Estado Democrático de Direito, mas, antes, pura e simplesmente no Estado Capitalista de Direito. Com isso juízes passam a julgar não em conformidade com a lei, mas, antes, orientados pelas decisões políticas calculadas em custas. Não por acaso o avanço da ausência de concursos para professores na Educação Básica, onde o concurso é substituído por Organizações Sociais e ONGs na prestação de serviço ao Estado, o que garante certo controle ideológico da atuação do professor precarizado e temporário, tem avançado sem que, até agora, o judiciário se posicione contra.
É o desmonte da sociedade na qual cresci e me eduquei. É o neoliberalismo selvagem que, por hora, faz seu discurso de que só há crescimento econômico se não houver direitos e, até aqui, só perdemos direitos trabalhistas, sociais e de cidadania sem que haja crescimento econômico que era esperado para julho, segundo o Ministro da Economia Paulo Guedes. Estamos em agosto.
Diante da realidade neoliberal de descontrução de empregos via Quarta Revolução Industrial e Globalização, já diz, o mesmo ministro que não será fácil a retomada econômica. Que retomada? Afinal para o sistema neoliberal selvagem, do qual faz parte o atual presidente, não se planeja ou prevê pleno emprego, como era almejado por Keynes, alcunhado no Brasil de Comunista, uma vez que foi implementado pelo Partido dos Trabalhadores.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Moro, Dellagnol e a denúncia do The Intercept Brasil: de Lava-jato a Vaza jato

Não poucas vezes ouvi que “o melhor defensor ou acusador é amigo do juiz”. Esta frase corriqueira, nos bastidores do poder jurídico e na sociedade, tem diversas interpretações possíveis. São estas interpretações e implicações que o  The Intercept Brasil tem feito ecoar ao denunciar as relações impróprias (Ilegais? Imorais? Antiéticas? Espúrias?)entre Sérgio Moro (o que julga) e Deltan Dallagnol (o que acusa), entre outros, durante os processos contra Lula e não só este.
Max Weber (1864-1920), sociólogo reconhecido internacionalmente, escreve sobre as formas legítimas do poder e, com isto, ilumina a interpretação que podemos empreender sobre a frase “o melhor defensor ou acusador é amigo do juiz” e suas decorrências na à Lava-jato à Vaza-Jato.
Weber assevera que o poder legítimo para a sociedade é aquele exercitado em função da dominação tradicional, do carisma ou da dominação racional-legal. Para este texto levarei em conta a legitimidade tradicional e a racional-legal.
A dominação tradicional consegue sua legitimidade pela longevidade das relações sociais e está baseada nos usos, costumes e tradições. Não diferencia o espaço público do privado e, com isto, utiliza-se do bem público, da República, como se privado fosse. Para que isto ocorra realiza o culto da personalidade de seus grandes personagens políticos, econômicos ou judiciários onde o funcionário público é um fiel servidor dos partidários que o apoiaram para ingressar no cargo de Estado e nele se manter. Possíveis processos de seleção são realizados com cartas marcadas pela fidelidade ao lado político dominante ou no controle do poder de Estado. Na dominação tradicional não é raro que o que julga e o que acusa no processo sejam aliados. Este o modelo predominante na Europa do Antido Regime e, no Brasil até o final da Primeira República, explicitamente.
Por sua vez, a dominação racional-legal adquire sua legitimidade baseada nos estatutos, regulamentos e decretos legais que devem ser racional, técnico e administrativamente impessoais. A base de acesso ao cargo público deve ser o concurso público, sem cartas marcadas, e ingressar mediante comprovação da competência técnica e de ter os pré-requisitos legais de formação educacional para a função – títulos e diplomas. A burocracia, assim, estaria acima das relações pessoais e a pessoa que julga está separada do que acusa.
Embora a dominação tradicional esteja em decadência, não se pode afirmar que, no Brasil, a dominação racional-legal se concretizou por completo. Muito da antiga ordem, tradicional, também chamada popularmente de velha política, permanece viva nas entranhas do sistema racional-legal na indicação, sobretudo de cargos de confiança e não apenas e sobretudo nestes e na forma de se configurar os titulares do Supremo Tribunal Federal.
Não poucos funcionários públicos são filiados a partidos, o que é legal, e demonstra o quando a velha ordem ainda vibra em meio a pretensa racionalidade legal do Brasil – destaque ao problema dos militares. Um sistema concorre com o outro. As relações pessoais da dominação tradicional, não raro, são denunciadas como corrupção no sistema raciconal-legal. Visto que privilegia um lado em detrimento do outro e corrompe os princípios fundamentais da administração pública racional-legal: legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade.
Aplicando estas noções a frase celebre de que “o melhor defensor ou acusador é amigo do juiz”, na velha ordem, na velha política, significa que os aliados serão sempre inocentados, pois, o juiz, o promotor e todo o aparato jurídico encena o teatro da aparente legalidade para legitimar a ordem pessoal e personalista de seu líder que ou o colocou no cargo, ou a ele providenciará a promoção devida, como recompensa pelos serviços de lealdade política pessoal.


O Estado e seu aparato jurídico é usado em favor do poder privado e o público estaria dominado pela hierarquia das relações pessoas personalistas de fidelidade de interesses políticos. E, na complementação do outro lado da moeda, os oponentes do chefão político serão todos condenados baseados na interpretação da lei ao serviço dos interesses privados sem provas cabais. Neste ponto tem-se a politização da justiça, arma poderosa no controle e exclusão das oposição e indesejáveis outros em que o manicômio é parceiro da cela do presidiário. Assim, a frase “o melhor defensor ou acusador é amigo do juiz” tem por fundo a aliança política, onde amigo é sinônimo de alidado.
Na nova ordem, na ordem da República, do bem público, da legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade, ou seja, na dominação racional-legal a frase de que “o melhor defensor ou acusador é amigo do juiz” é crime fragrante de lesa pátria. Pois, usa dos recursos e do aparato burocrático de forma criminosa ao não separar o público do privado e privilegia um grupo político em detrimento do outro. E, com isto, não realizaria a dominação racional-legal, a nova política, mas, antes, a corrupção do sistema que encenaria a farsa da justiça, a velha política.
Outra possibilidade de interpretação da frase “o melhor defensor ou acusador é amigo do juiz”, mas, em favor da ordem racional-legal seria de que ser amigo do juiz significaria conhecer tecnicamente as decisões do juiz, ou seja, saber as decisões anteriores deles e de seus pares, as doutrinas que o guia, as ideais e valores que lhe são caras para construir sua “convicção”. Em outras termos, estaria assentado sobre os estudos pretéritos de suas decisões em casos semelhantes.
É este o embate que nos encontramos como brasileiros. Se somos reféns da dominação tradicional não veremos os crimes do nosso lado político e apenas e tão só os do outro lado. Ou, se, somos universalistas, dentro dos princípios racionais-legais, garantindo o jutos julgamentos para todo e qualquer cidadão independente se ele é um liberal ou neoliberal um sociailista ou Keynesiano.
Estamos diante de ver se o Juiz Moro e Deltan agiram com imparcialidade e impessoalidade, de acordo com a dominação racional legal, ou agiram como uma única acusação sem deixar chances ao réu Lula, em um projeto de dominação pessoal tradicional disfarçado pela toga de racional-legal para, de dentro da burocracia do Estado, garantir o personalismo que inflama os egos e os interesses pessoais da política em detrimento do público e do Brasil. Brasil que aliás todos os dizem representar.
Deste prisma, se houve relações de dominação tradicional ancoradas no papel do líder político toda a encenação da nova política cairia por terra em nome do reino da velha política.

Uma nota neste sentido pode ser depreendida da fala de Bolsonora, no dia 5 de junho de 2019, qual seja, no caso de Sérgio Moro (o que julga) e Deltan Dallagnol (o que acusa) e Lula (o Julgado), “o povo dirá se estamos certos”, ou seja, seria a politização da justiça
Em síntese, mudar para permanecer o mesmo, velha e boa estratégia da elite de Modernização conservadora.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

O palhacismo ou a tragicomédia de si mesmo: Bolsonaro


O palhacismo é uma técnica de controle de corpos e mentes que oculta, enquanto estratégia de poder, na operacionalização do gracejo e da pilhéria política. Ele se traveste de aparente ignorância generalizada, para se fazer de infantil e não temerária. A irresponsabilidade é sua nota de toque onde suas falas agressivas e depreciativas encontram respaldo no engodo dos limites intelectuais cada vez mais estreitos do personagem embasados em preconceitos e discriminações construídas na história do escravismo brasileiro.
No palhacismo de Bolsonaro, a disputa se faz em todas as áreas; até no controle do significado das palavras, que se distorcem e se desdobram com o passar dos embates intestinais mais primitivos do ser humano na busca de poder, controle e exploração. Assim, as falas-práticas desmedias são seguidas de explicações como não sei nada, ou seja, sou inofensivo, não causarei danos, não se preocupe comigo, sou apenas mais um palhaço para divertir a plateia egoísta que se vê no espelho da discriminação que subjuga social, econômica e politicamente.
O centro do palhacismo é a antintelectualidade, a negação da racionalidade propalada como elementos causadores de danos à humanidade. Risco no qual não se incorre na irresponsabilidade do palhacismo. Por isso, ministros são aparentemente atores, que vez ou outra, são depenados em público pelo grande palhaço que não quer o mal, embora o cause como centro de suas políticas.
Intelectual é o risco. O palhaço aliado ao pensamento mágico religioso a cura. A ingenuidade de má fé, que articula nos bastidores e encena o espetáculo via redes sociais, para asseverar sua irresponsabilidade intelectual que tantos danos causam à “liberdade, igualdade e fraternidade”. Destarte, foge da responsabilidade e a terceiriza como forma de escamotear um projeto bem articulado de militarização, exclusão, dependência, exploração, misoginia, racista, homofóbico e especista.

Se o palhacismo está no picadeiro do planalto é devido a seus sufragadores que se comportam de forma idêntica, agindo de forma irracional nas redes sociais, e dizendo que as ameaças articuladas de militarização, exclusão, dependência, exploração, misoginia, racismo, homofóbica e especista não passam de piadas, de força de expressão, de brincadeira. Envergonhados diante da plateia internacional que assiste assombrada o espetáculo da anti-democracia por vias aparentemente democráticas, ocultam-se na pilhéria e no gracejo.
Desta forma, não querem ser responsáveis pelos efeitos de seus votos, esta a essência do palhacismo, a irresponsabilidade com o todo social em nome dos particularismos, de frações de classe dominante, das maiorias de poder, controle e exploração.

Negar o papel fundamental das Universidades e do saber científico é apenas uma gorjeta deste projeto de subjugar as classes trabalhadoras ao modelo de capital neoliberal onde as percas de direitos conquistados arduamente, sobretudo no último século, é a  meta. A intento final é retirar da Constituição da função social do Estado e da propriedade.  Salve-se quem puder diante deste contrato social altamente excludente.
É um baile de máscaras o palhacismo de Bolsonaro e seus seguidores incontestes onde o que é encenado é a farsa de si mesmo, afinando os acordes da regência de interesses ocultos ou inconfessos na esfera pública. Assim foi ao assumir o cargo de Presidente da República quando, a Primeira Dama, encenou a centralidade da mulher e do discurso de libras. Como se fosse um aceno para as minorias em questão. Pouco tempo depois acabou com a institucionalização dos interesses das pessoas especiais. O mesmo vemos agora com a educação superior e básica pública que sofreram cortes que podem inviabilizá-las.
Esta encenação de contenção de gastos oculta interesses típicos do neoliberalismo, única faceta que obliteram: reduzir investimos nos serviços públicos para os sucatear e justificar o avanço do capital privado nesta área. O mesmo capital privado que apoio todo o processo de impedimento de Dilma Rousseff e que agora querem avançar em áreas estratégicas na construção da autonomia da nação.
Que siga o baila de máscaras na Democracia Republicana, posto que foram legitimamente eleitos. Resistam os que não fazem parte da festa, pois, calar é consentir com a orquestração do poder que se quer dissimular em palhacismo para não alardear os incautos eleitores do dividir para governar.
Almeja-se o conflito de instituições, ocultas pelo palhacismo do ator principal e seu asseclas , para esgarçar a democracia e justificar a ampliação do autoritarismo, uma vez que se diz em público que o Brasil é “ingovernável fora de conchavos”. Não os conchavos da democracia, mas, antes e sobretudo, os do autoritarismo militarizado talvez, até sem Congresso, para viabilizar as reformas – dentre elas sobretudo a da previdência e avanço da restrição os direitos do trabalhador –  que nos colocarão de joelhos ao capital internacional financeiro e industrial 4.0. Mas, tudo ao som de uma boa piada discriminatória e preconceituosa ao gosto do palhacismo que já tem dólar a mais de quatro reais, queda em dois meses seguidos de bolsa de valores e crescimento econômico negativo, o que nos coloca mais uma vez à beira da estagnação inflacionária.