quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Obama em Cuba: as pontas de lança do capitalismo

Não há como negar que a história das Américas é marcada pelo cristianismo. Todavia, a cruz que marcou os EE.UU, não foi a mesma dos demais países. E, dentre estes, a Igreja que se implantou na primeira missa, no Brasil, era a mais retrógrada. Neste ponto, não há como não recordar o tipo ideal de M. Weber, criticado como estereotipia e preconceito pelos o opositores deste célebre pensador, quanto ao papel de protestantes e católicos no que diz respeito aos “avanços” do comportamento capitalista no Ocidente.
Enquanto a Europa via ruir o modelo de padroado – onde a Igreja era um departamento de Estado com privilégios cartoriais, como o de religião oficial que garantia a pertença à nação e ao Estado -, o Brasil o implantava em clara aliança entre Estado e Igreja. Dos tempos coloniais à “República Democrática” em que vivemos, a igreja saiu de departamento de Estado a Estado com a colaboração de B. Mussolini. A política realizada, até então, enquanto modo de influência passou a ser uma chancela diplomática onde o Núncio Apostólico desenha cenários em conformidade aos interesses católicos.
Se, no século XIX, o oponente máximo da Igreja era o mundo moderno, o liberalismo e seus representantes mais “discretamente visíveis”, a maçonaria e a ciência. Realizadas as devidas alianças, no final das monarquias, nos berços da República que aspirava a democracia, o novo oponente privilegiado passou a ser, no século XX, o comunismo.
Nos braços do “capitalismo republicano democrático” via-se a Igreja amparada no seu afã de proselitismo. A liberdade do liberalismo lhe parecia, então, melhor que o controle Estatal de outrora, embora o gosto pela monarquia ainda lhe deixasse saudades nos príncipes da Igreja.
Assim, uma Igreja livre num Estado livre, o que equivale a não haver qualquer tipo de restrição – seja doutrinárias ou fiscais e, sobretudo na rede escolar privada confessional – foi um acordo razoável para Igreja apoiar os políticos republicanos que não tinham a “linhagem sagrada dos nobres”, então descartados no jogo do poder de Estado explicito.
Figurou, deste modo, no horizonte do Estado e da(s) Igreja(s) um oponente comum: o comunismo, primeiro na URSS e depois em Cuba e China. No caso da Rússia a ascensão da Igreja Russa Ortodoxa é visível no pós-comunismo. No caso da China as barreiras ao cristianismo são marcadas, e até certo ponto, inflexíveis ao não avanço desta vertente religiosa. E, no caso de Cuba?

O fato do Vaticano ter operado no campo diplomático com destaque demonstra que em breve teremos um documento oficial entre Igreja Católica e Cuba. Em geral, o primeiro passo é a retomada das antigas propriedades seguida da liberdade de culto e ensino. Em outros termos, seguindo os caminhos históricos a Igreja o ocupará espaço privilegiado na educação das elites (econômicas) locais e distribuirá bolsas de estudos a elite intelectual (e pobre). Com isto, fará, na média, em vinte anos, uma transformação cultural com precedentes históricos; como o do Brasil - que no final do Império tinha uma tendência anticlerical, para, nos anos 1930 ver a saída do presidente do Estado do Palácio do Rio de Janeiro onde tomou o poder G. Vargas, pelas mãos do Cardeal Leme. E, mais que isto, viu re-implantar um tipo de neo-cristandade (“novo padroado”).
Deste prisma, por meio de ação humanitária e na defesa das crianças – ponto em que não há grandes discordâncias entre os Estados das Nações Unidas – a Igreja avançará transformando as mentalidades cubanas sobre as noções de igualdade, aborto, propriedade, pecado, ordem, e, como fato final do oponente principal do século XX, que ainda sobrevive no século XXI, derrubará a vertente dominante de matriz cultural socialista.
Não por acaso a Igreja anunciava, no final de outubro de 2014, após 55 anos, a construção do primeiro novo templo católico no País. Pobres indígenas, digo, cubanos. Mérito não apenas do atual Papa, mas da política do Vaticano, já com os papas anteriores, com destaque para Bento XVI, o papa emérito.

Wlaumir Souza

sábado, 13 de dezembro de 2014

Bolsonaro e seus aliados, não passarão?!

Bolsonaro e seus aliados, não passarão?!

Uma das formas mais primitivas de dominação, exploração e controle são as relacionadas às relações de gênero. Debater o papel do masculino e do feminino, do homem e da mulher, do hetero, do bi e do homossexual entre outras possibilidades é tema acalorado até os dias de hoje.
Dois parceiros históricos da demanda de igualdade de gênero são o laicismo e a democracia. Não há igualdade de gênero possível sem o questionamento dos papéis históricos construídos a cada sexo pelas religiões e pelo Estado. Quanto mais autoritário o Estado ou a religião em questão maior a desigualdade de gênero: da violência verbal à física, da violência patrimonial à simbólica, dos direitos reconhecidos à despersonalização e invisibilidade e a exclusão social.
Neste ponto abordar o tema Bolsonaro e sua posição quanto a estupro é debater o papel do Estado e do laicismo. Se Bolsonaros há que podem se arvorar em público é devido ao fato de representarem não poucas pessoas. O fato complexo de um homofóbico, misógeno e defensor da ditadura estar deputado, em uma democracia, demonstra que os valores democráticos tem não poucos oponentes e, por vezes, com alicerces históricos.
Assim, saídos de uma ditadura, oficialmente, não poucas são as continuidades institucionais com o regime negado: homofobia, misogenia, assassinato sistemático dos mais pobres e dos negros, crimes sem apuração ou investigação, abuso do poder, constrangimento e negação dos Direitos Humanos são uma rotina que estupram o Brasil cotidianamente.

Se, Bolsonaro fala em público, e no cargo oficial de representante do povo brasileiro, é devido ao fato de representar não poucos e, com isto alardear a fraqueza das instituições em defender os tradicionais sujeitos históricos vítimas de assédio moral.
Pior que isto é ver que mesmo pessoas que lideram instituições que deveriam primar pelas práticas democráticas e laicas e com grupos de estudos de gênero avançadíssimos “chafurdarem” quase ao lado de Bolsonaro. Assim, para o “reitor da USP, denunciar estupro na USP é ação inquisitorial”.
Ação inquisitorial é o estupro que sobrevive no século XXI como marca da masculinidade que se põe infensa as demandas dos femininos e dos feminismos. Ação inquisitorial é ver a cortejo de corpos em meio a laudos que não confiam na palavra do denunciante, visto e tratado como sujeito de terceira categoria, como se os Direitos Humanos não houvesse isto resolvido. Ação inquisitorial é ver um grupo de homens fazendo piadas das demandas de mulheres e gays e afins. Ação inquisitorial é o descaso com a educação sobre a sexualidade e as demandas por igualdade de gênero. Ação inquisitorial é ver quantos no ambiente profissional ou pessoal denigrem a imagem de mulheres e gays como se fosse uma ação válida do ponto de vista ético e com a cumplicidade silenciosa dos que não denunciam.

Wlaumir Souza

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Água, AIDS e despolitização.

Durante as eleições, e atravessando um dos períodos de maior seca, quase tudo que se viu, na campanha eleitoral, foi um trabalho de desconstrução do adversário politico e a desmobilização do eleitorado para além de qualquer gesto que não fosse o de ir às urnas. Neste ponto chamou atenção o fato da despolitização em diferentes níveis do eleitorado.
O primeiro e mais notório nos últimos anos é o fato da campanha girar ao redor do MKT profissional que quase nada incrementa no debate político para além de um País da propaganda onde todos gostariam de viver, pois, bem diferente do mundo cotidiano do real. Neste ponto a questão da água, no Estado de São Paulo, mas, não só por aqui, foi alarmante.
Em um processo contínuo de despolitização atribuía-se a falta de chuvas a S. Pedro e outros fatores mágicos. Mais que isto, a cena de políticos em nascentes ou represas com “curandeiros” fazendo à dança da chuva, digo, as rezas para chover. Quantos séculos retrogradamos?
Ao invés de se ter um debate sobre o meio ambiente e a legislação recentemente aprovada e seu impacto negativo nas precipitações em termos de crise e segurança hídrica, apelava-se para o pensamento e os atos mágicos que nos colocou no mesmo patamar que as tribos. Isto para o Estado que ainda se pensa a locomotiva do Brasil.
A despolitização realizada pelos agentes do Estado e por uma mídia cúmplice com um dos lados em questão, não para neste ponto.

No mês em que se marca uma data de combate internacional à AIDS, primeiro de dezembro, assiste-se ao mesmo fenômeno em novos parâmetros. O crescimento de portadores do vírus HIV, sobretudo entre pessoas dentre 15 a 24 anos, é atribuída ao fato de que a nova geração não viu morrer artistas e demais pessoas célebres em decorrência das complicações causadas pelo vírus. Nada mais pueril e despolitizante que isto.
Sim, como canta Cazuza, “Meus heróis morreram de overdose (AIDS)”, foi um marco que levou o próprio Cazuza à morte pela CIDA. Sim, isto colaborou para o processo educativo daquela geração. Mas, o ponto máximo não foi apenas o terror de se morrer em pouco tempo, foi o fato de se investir nos mais diferentes processos educativos de combate ao vírus.
Havia investimento de campanhas educacionais e publicitárias, nos mais diferentes espaços, da escola, passando pelos profissionais da saúde, à televisão, rádio, jornais e revistas. Mais que isto, houve um combate ao pensamento mágico que queria restringir tudo que diz respeito ao sexo e a sexualidade ao espaço privado das consciências e do controle do pecado.
A geração que conta entre 15 a 24 anos é a maior vitima da despolitização em nome de doutrinas políticas e religiosas que querem ocultar o real em nome de um mundo que só existe no imaginário de seus defensores que tem triunfado na Terra Brasilis.
Assim, são vítimas os jovens do crescimento do poder religioso sobre a sociedade, a política e na decisão dos rumos da educação, por consequência. Estas decisões silenciam a educação que foi e é o maior mecanismo sistemático de combate a qualquer forma de doença física ou social, os preconceitos e discriminações.
Esta geração, de 15 a 24 anos é vítima de uma despolitização continuada que fez da progressão continuada a “progressão automática” que aliada a meios de divertimentos cada vez mais baratos e hipnóticos, realizados em farto mercado virtual – de computadores a celulares -, se vê sequestrada do direito a informação, sem censura prévia de conteúdo, de modo sistemático na educação.
Sim, é possível dar combate o HIV, mas, não só pela morte dos “Heróis da AIDS”, mas, por um processo decisório de educação que faz da rememória politizada dos “Heróis mortos pelo vírus” instrumentos educativos preciosos, sem que se passe pelo conteúdo como quem dorme a beira da estrada por uma progressão sistemática de paisagens que nada diz ou transforma devido a meta “coronelesca” de despolitizar e mistificar das políticas.

Wlaumir Souza.

sábado, 22 de novembro de 2014

Corruptos trópicos ou a mediocridade por mérito?

Wlaumir Souza
A maior realidade das eleições de 2014 não foi a corrupção banalizada pelos meios de comunicação de massa ou pelas mídias sociais e judiciário, polícia federal e promotoria idem. Foi o quanto somos uma sociedade medíocre, digo, uma classe média, mediana no que diz respeito a compreensão da realidade política do País e para além dele.
Embevecidos num dualismo simplista e maniqueísta que faria a Idade Média iluminada pelos holofotes da razão brasilis – do senso comum à universalidade, digo, universidade. Para todos os lados, da esquerda à direita, com raras exceções dos que desejavam um centro deslocado pela elipse do sistema partidário, se viu um ataque pueril e estéril de que o outro é corrupto, corruptor, conivente e ditador. Para os PSDBs o outro são os Petralhas. Para os PTs o outro são os Tucanalhas. Numa linguagem vulgar, mas com efeito publicitário imediato, muito se falou e atacou e denunciou o outro sem que a Justiça se arriscasse a dançar com qualquer um dos convivas com um dos olhos fechados sequer.

Passadas as eleições o maniqueísmo eleitoral dos cidadãos, que ignora a tradição mais forte e longeva da história do poder no País – o adesismo a posse do poder de Estado (isto mesmo bem ao estilo patrimonialista com arrepios à sociedade de classes que demanda por participação e representações outras) – se depara com um PSDB e um PT que até aqui só fizeram ampliar as contas de contribuintes ao Senhor Estado – água, juros, gasolina, energia e outras “maldades” que estão no por vir.
Falta sair do egocentrismo político “adulto” que vê o outro como bandido nato e inato e a si mesmo como o supra-sumo do bagaço da honestidade e da reputação ilibada e enxergar a realidade que anjo e demônio todos os partidos têm e outros seres também. Mais que isto, se desejamos uma democracia avançada precisamos de uma Justiça que supere, sobretudo no STF, o fato de ser um local de apadrinhados, digo, eleitos políticos e que passem a fazer o que poucos fizeram neste país e onde o caso máximo da regra é o do Juiz que se pressupõe ser Deus e vence na carteirada ou no corporativismo patrimonialista dos doutores.
Entramos num abismo de postagens de pessoas e instituições onde apenas o outro é culpado e quase nada se vê de uma análise que demonstre o quanto nossas instituições estão carcomidas, de um lado e de outro, desde as frases celebres de Machado de Assis e Rui Barbosa, entre outros, sobre a situação do País e do Estado e dos políticos. Precisamos criticar os dois ou mais lados e buscar a condenação de quem quer que seja por comprovada culpa.
Urge-se postagens múltiplas que desmascare as facetas de PTs e PSDBs e que se clame por decência na coisa pública e no modo de administrá-la, e não só nesta, mas, também, nas instituições privadas. Necessitamos que se veja o ataque do neoliberal sobre o Petróleo que foca na Petrobrás como meio para se garantir lucros infindos a iniciativa privada em troca da “honestidade e competência” da administração privada. A mesma administração privada que corrompe em nome do sucesso das empreiteiras e que deixa na espera pacientes de planos de saúde ou telefone mudos no século XXI.


Carecemos de mais, neste país, que postagens sistemáticas apenas contra o outro, necessitamos de uma crítica radical que coloque os corruptos de ambos e de todos os lados onde eles merecem estar: numa jaula de ferro e condenados a pobreza e não apenas a devolução de parte do que subverteu do público. "Sinceridade" premiada não é sinônimo de honestidade. A semana se encerrou, talvez, com a maior verdade dita num arremedo de defesa – tipo aquela dos nazistas que apenas obedeciam ordens – pelo advogado: para todos os locais públicos há corrupção, da incorporadora bilionária ao prestador de serviços pagos em RPA. (?)
Corruptos trópicos... a mediocridade meritocrática do crime contra a coisa pública e em favor do privado lhe serve de coroa? Assim, fica ação dialética - a coisa pública corrompe o privado e o privado corrompe a coisa pública? O último dos honestos, por favor, acenda a luz!

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Os “Dois Brasis” eleitorais ou a contradição que interessa?

Wlaumir Souza
Durante a campanha eleitoral de 2014 vi, ouvi e li muitas manifestações dos que estavam na oposição a reeleição de Dilma R., que contradiziam um dos principais pontos do pensamento de K. Marx – a dialética. Assim, assisti, impressionado, ao fato de que não poucas pessoas – do cidadão comum, passando por políticos profissionais a acadêmicos (de universidades públicas e privadas) que condenavam a posição de contrapor “ricos e pobres”, a classe dominante e a dominada e afirmavam que neste ponto o Partido dos Trabalhadores faziam um desserviço à nação. Mais impressionado fiquei ao notar que alguns destes acadêmicos provinham das mesmas faculdades que outrora legitimaram ou trabalharam para o “bom governo militar”.
Outro ponto que me chamou a atenção foi os não poucos cidadãos que ao se manifestarem via redes sociais diziam ter ido à rua, no meio do ano passado, para a “mudança”. Não poucos destes entendendo a mudança como o sufrágio do candidato Aécio Neves que historicamente representa, via PSDB, o Estado neoliberal. Assim, numa amnésia quase que coletiva esqueciam-se que as manifestações iniciaram exigindo o transporte livre e gratuito o que remete a maior intervenção do Estado na economia e nos avanços das políticas públicas de distribuição de renda pelos mais diferentes canais não de cidadania via consumo, mas, antes de cidadania social. Os acima citados, trabalhavam pelo ocultamento das contradições sociais e políticas buscando construir o candidato Aécio N. como o porta voz da unidade nacional sem as “disputas” de classe democráticas.

Encerradas as eleições o sonho de uns se realizaram e o pesadelo de outros se iniciava. E, com isto o foco da contradição que interessa. Neste ponto, a quem mais interessava a contradição vem a convocação para a “harmonia” das classes. Os que outrora queriam a “massa indiferenciada” clamam pela diferença ontológica. Nada como o tempo e o espaço para o desvelamento dos interesses e das auto representações demonstrando que o que parecia pensamento crítico se torna ideologia e alienação e o que poderia ser ideologia e alienação busca se tornar pensamento crítico? Assim, a diferença entre o Brasil que se pinta na campanha depende de se estar no poder ou na oposição a este.
Assim, findas as eleições o PT fez um chamamento para o diálogo – dialética – para se chegar a uma síntese de governabilidade, o que, poderia ser, mais uma vez entendido, como a abertura de mão dos trabalhistas de sua agenda programática histórica em favor da manutenção do poder pelo poder que se legitima via parcas políticas sociais de distribuição de renda sem alterar de fato a pirâmide social visto que foi regiamente financiado pela capitalista financeiro e corporativo.

Do ponto de vista dos tucanos vencidos, a contradição que irrompeu foi aquela de Jacques Lambert em Os dois brasis (1957). Ironia do destino, exatamente isto que o PSDB e o DEM negaram durante seu reinado, digo, governo federal. Esquecendo-se de que Aécio N, fora derrotado em seu berço político e no Rio de Janeiro (local preferido para os passeios rotineiros do ex-candidato a presidente) querem assinalar a vitória num binarismo simplório entre o norte/nordeste pobre financiado pelos “bolsas” do governos federal e o sul/sudeste “rico e intelectual que pugna pela honestidade e transparência”. Aliás, estas podem ser vistas no Estado de São Paulo que não vê  avançar as denúncias contra o governo? Por outro lado, esquecem-se que tudo o que fizeram no passado foi tentar apagar do Brasil a Belíndia descrita por Edmar Lisboa Bacha.


Neste ponto entramos na contradição suprema que revela a vitória parcial das manifestações do ano passado? Enquanto as agências internacionais “humanitária” aplaudem o sucesso das “bolsas” os agentes do capital internacional não cessam os ataques à bolsa e ao dólar no Brasil visto que tudo que interessa é o neoliberal do “sula maravilha”? Isto sem contat o racismo nada cordial que irrompeu numa revelação de que temos muito o que fazer pelos "Dois Brasis".

sábado, 18 de outubro de 2014

Eleição presidencial ou a corrupção por mote?

Wlaumir Souza
O poder corrompe ou o poder revela? Estas são questões que remetem às questões, respectivamente, filosóficas, de Rousseau – nascemos bons e a sociedade nos corrompe – ou, em Hobbes, o Homem é o lobo do homem. Estas teses até hoje não chegaram a uma síntese que satisfaça o pensar e o viver, a teoria e a prática, o dominante ou o dominado.
Todavia, as eleições de 2014 colocaram em relevo um fato inequívoco. A corrupção graça à direita ou à esquerda, mesmo estando estes conceitos mais que esgarçados pelas alianças políticas que, do ponto de vista histórico, seriam impensáveis há pouco mais de uma década, devido ao grau de espúria que remeteria.

Assistir o PT unido a Fernando Collor, Paulo Maluf, José Sarney (entre outros); ou o PSDB unido a Marina Silva – que só perde em personalismo político, hoje, para LLulla e FFHH –,  Eduardo Jorge (entre outros); é no mínimo constrangedor para quem não abandonou o programático em nome do pragmático.
Mais que isto, evidencia que a corrupção no país atingiu um nível suprapartidário pela demanda do poder ou o nível suprapartidário atingiu a corrupção pela demanda do poder? Em outros termos, o corrompido e o corruptor se confundiram numa simbiose onde o colorido partidário perdeu qualquer acento possível?
A pasta rosa, o mensalão, o metrô paulistano, o mensalão, o nepotismo... e, infelizmente, quase que um etc faria sentido nesta frase .Se no primeiro turno vimos um desfilar de acusações mútuas entre os que ocuparam/ocupam cargos eletivos, no segundo turno, inimigos aparentemente irreconciliáveis, devido as denúncias que se fizeram e as bandeiras que agitavam,  se uniram numa amnésia estarrecedora das denúncias alardeadas em cadeia nacional e em horário nobre - onde o público alvo era a classe média em diante.
Estas denúncias de parte a parte parecem ter como fim a banalização da corrupção uma vez que nenhum dos denunciantes é visto às voltas com promotores e juízes demandando por justiça, salvo, o raro caso do mensalão. Mais que isto, parece uma discussão de compadres políticos em meio a possibilidade remota de uma cisão de fato e não só de direito.

Há um misto de mal estar na sociedade atônita com o fato de que tanta lama possa correr em meio a campanha e tão pouca justiça se veja cumprir – inclusive pelo sucateamento do aparato do judiciário que vem desde o Império – com cumplicidade singela ao pensamento e a prática dominante na conformação das consciências.
E, em decorrência da banalização do mal da corrupção organizada, vota-se quase apático nos membros das elites partidárias que representam o estereótipo do poder partidário, ao se candidatarem. Os candidatos e seus partidos são votados não devido a cumplicidade real do povo com a corrupção, antes pela ausência visível de candidatos com programas capazes de representar a demanda social por justiça e dignidade. A vertente explicativa que quer culpar a vítima do sistema pelo sistema diz que o povo tem o governo que merece, mas, muito pelo contrário, o governo que o povo tem é o que a elite permite ter, quer seja econômica e/ou partidária. Vergonha das vergonhas visto que todos, neste ponto, querem ser os meritocráticos da ética e da conduta ilibada.
Melancólico trópico onde a denúncia fica quase vazia gerando um tipo de denuncismo desconstrutor da democracia. Não visa a justiça ou a real representação das aspirações populares como aquelas advindas de julho de 2013, as denúncias.
Da maneira que andam os debates presidenciáveis – ter-se-á de escolher entre "meritocracia com corrupção” ou "distribuição de renda com corrupção”, pois, não há outro modo de votar. O sufragado será o mais votado visto que o povo não pode invalidar a eleição por maioria de votos brancos e nulos. O povo vítima, depois, será o culpado do sistema nos alardes da elite que controla as mídias e, em parte, as mentes dos corpos sofredores das conseqüências eleitorais, quer de um grupo pela "tolerância" com a inflação, quer de outro pelo "choque de desemprego".


A manifestação da indiferença (voto em branco) ou inconformismo (voto nulo) pode ocorrer, mas, o sistema foi criado para andar sem estes num arremedo de voto oligárquico onde, por vezes, a minoria envolvida por parentescos mil, apaniguados outros, aparelhamentos os mais diversos, interesses privados tantos, votam e tão poucos sustentam o devir democrático onde o saber permanece como poder.

sábado, 11 de outubro de 2014

Carta aberta ao PT ou das possíveis razões do declínio eleitoral

Wlaumir Souza
Afinal, qual o discurso que vence a eleição - o dito ou o não dito? O realizável ou o irrealizável? Estes parecem ser os dilemas que resolverão a eleição presidencial de 2014.
Nas eleições de 2012, o machismo, o patriarcado e o personalismo fizeram a maioria crer que Fernando Haddad fora eleito prefeito da cidade de São Paulo pela influência pessoal de Lula. Não foi. Apesar do apoio de Lula, apenas a entrada na campanha de Marta Suplicy garantiu os votos necessários. Marta S. – por barganha política em nome de um Ministério? – arregimentou os votos dos pós-modernos, dos gays, das feministas e outras categorias relacionadas a gênero que não tinham para onde ir, diante dos outros nomes “conservadores” que disputavam o pleito.
Nas eleições de 2014 o quadro não é tão diverso.

O melhor sintoma não é a votação expressiva de Bolsonaro, Feliciano entre outros, mas o impacto que teve na campanha de Marina Silva, em sua primeira versão de “Plano de Governo”, a questão gay com uma plataforma “nunca antes vista neste País”. Mais importante que o dito, foi o não dito. Com a retirada da pauta LGBTTs a candidata perdeu parte de sua credibilidade e de votos espalhados pelo Brasil. O discurso dito foi o da candidata evangélica que poria em risco o Estado laico. O não dito, a questão de gênero é um fator decisivo das eleições em detrimento do pensamento, discurso e práticas retrógradas de tantas igrejas em meio ao arcabouço machista que defendem.
Por outro lado, a Presidenta Dilma Rousseff e Aécio Neves tentam passar ao largo da questão, num tipo de postura subliminar que não fira ou atice os ânimos quer de progressistas ou retrógrados das questões e agendas de gênero. Todavia, entre um candidato e outro qual seria o mais palatável para o público pós-moderno, os gays, as feministas e outras categorias relacionadas a gênero que não têm para onde ir face aos “conservadorismos” da cena política em meio a uma coxia irrequieta e um público com o entusiasmo a flor da pele?
Algumas pistas já foram dadas.
Aécio em primeira aparição em público para o segundo turno fez a arte do patriarcado: bom pai, bom esposo e bom provedor – apesar de todos os comentários de sua vida pregressa nas noites e madrugadas cariocas? Mais uma vez o não dito é mais forte que o expresso? Ou seja, votem em Aécio que nada mudará na vida familiar: vida pública com foto de família de margarina e vida privada a “Providência dará”? Ou seja, tudo ficará no muro?

Dilma, surgiu sozinha para dispor-se ao segundo turno, como a vitoriosa que abriu mão do “protetor” Lula. Este uma espécie de padrinho e damo de honra das virtudes de divorciada que vive como uma viúva virtuosa e assexuada, em nome da competência pós-moderna da mulher poderosa e executiva. Todavia, as práticas de seu governo para as agendas progressistas de gênero não foram palatáveis a alguns de seus principais atores ou ao(a) cidadão(ã) comum.
Neste ponto, os trabalhistas parecem devedores do patriarcado machista e classista. Se sentem muito classe média após mais de uma década no governo e não arriscam em questões que vão para além da moral medíocre, digo mediana. E, por isto mesmo, abre espaço à direita que nada fará. Nada por nada, qual a razão de se apoiar a continuidade que pouco acrescentará? Não por acaso o lema da campanha dá a mão à palmatória e propõe um novo governo com novas ideias, algo do tipo medianamente conservador, ou seja, modernização conservadora - se transforma para permanecer o mesmo.
Quanto ao patriarcado, exigem da Presidenta a postura de assexuada e enquanto tal deve ficar longe daquela que seria sua redentora eleitoral, Marta Suplicy? Não precisaria que a ex- do ex-Senador (e por isto mesmo punida e execrada do Partido?)  – que não se comportou como assexuada, fazendo jus a sua biografia (idem?) – fizesse grandes discursos para ganhar a eleição. Bastaria aparecer em público dizendo do apoio urgente e necessário. Isto bastaria para que os progressistas entendessem e acorressem. Mas, como dizer isto a um partido que “nasceu e cresceu” de certa forma na sacristia da Teologia da Libertação e ganhou espaço com uma linha eleitoral baseada no voto religioso que despertou a Hidra Religiosa para o poder que tem de dizer, por exemplo, “Crente vota em crente”?
E, afinal, se apenas o apoio personalista de Lula em campanha não resolver o pleito e como último suspiro for recorrer ao legado de Marta Suplicy, num tipo de personalismos feminista, o que esta mereceria? A casa civil? Seria demais para uma mulher que faz questão de ser Mulher? Ou o mínimo para quem mesmo sem dizer quase nada, diz quase tudo?