sábado, 21 de julho de 2018

Temer e “O Brasil voltou vinte anos em dois”


Em maio de 2018 o (Des)Governo Temer queria vangloriar-se dos seus feitos que retrocederam direitos sociais dos trabalhadores e cidadãos brasileiros e, com isto, cunhou, desastrosamente, o lema “Brasil voltou, vinte anos em dois”. Rapidamente o brasileiro reagiu e retirou a vírgula o que fez traduzir a realidade de que “O Brasil voltou vinte anos em dois”, em nome de um mercado que consegue fazer a grande mídia chamar de centro o que seria direita, e de centrão, o que seria o núcleo do fisiologismo no Brasil atual.
A anedota dos vinte anos em dois de retrocessos nas políticas públicas e sociais é semelhante àquela da chegada da Família Real ao Brasil, em 1808, quando um PR de Príncipe Regente era afixado nas casas que seria utilizadas pela nobreza e demais asseclas do reino recém chegados em fuga de Napoleão Bonaparte. O carioca, sagazmente, em resposta irônica apelidou o PR de Ponha-se na Rua.
Chegado ao limite de seu desmando, quando o Presidente governa, mas não administra o País, momento em que ocorrem as prévias às eleições presidências, os dados não deixam dúvidas do quão desastroso foi o processo político e social que levou ao impedimento de Dilma Rousseff que consolidou a legislação da delação premiada.
Aqui mais uma semelhança com o Brasil Imperial. Assim como a assinatura da Lei Aurea, pela Princesa Izabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon e Bragança, que fez a libertação formal do escravizados, foi a pedra de toque da queda da Monarquia; a consolidação, por Dilma Rousseff, da legislação da delação premiada que fez a Lava Jato avançar com seu projeto político-jurídico de forma sem precedentes, foi a gota d´água para fazer o fim do governo federal do PT.
Isto em nome de fazer sangrar o governo, na fala do candidato a Vice Presidente de Aécio Neves em meio ao processo de não aceitação do sufrágio de Rousseff. Esta perspectiva foi aprimorada, por outro lado,  para evitar a sangria dos políticos corruptos que não fossem, principalmente, do PT, na perspectiva de Jucá, em julho de 2017, num acordo “com o Supremo, e tudo”

Estado e mercado previam a geração de 100 mil empregos este ano de 2018; já rebaixaram para 80 mil e os dados de junho remetem ao aumento do desemprego. Ocorreu o aumento de mortes de neonatais, e as causas estão diretamente relacionadas ao aumento da pobreza, do recuo da atenção básica em saúde por falta de verbas e gestão. O dólar só faz subir e já é encontrado a quase cinco reais. O mesmo vale para a gasolina.
As dissidências eleitorais de 2013 consolidaram a crise econômica do País e passamos, de 2014 a 2018, patinando no avanço do atraso e da extrema pobreza. Metade dos brasileiros não recebem mais de três salários mínimos em meio a preços que só fazem subir. Há choro e ranger de dentes pelo País a fora e a República e seus representantes políticos não se constrangem, pelo contrário fazem aprofundar a distância entre os dois brasis em suas diversas formas. O Brasil e o Brazil; o Brasil branco e o Brasil negro; o Brasil dos donos do mercado e do Estado e o Brasil dos trabalhadores e dos cidadãos aviltados.
Em meio a esta realidade as convenções partidárias se realizam e o discurso onírico de seus candidatos a Presidência da República só faz lembrar as eleições de 2013. Muita propaganda enganosa e pouco debate das questões da economia e da sociedade real. Muitos acordos por cargos e nenhuma coerência programática. Muita divisão da sociedade entre os polos vermelho e azul, direita e esquerda. E, a dura realidade de quem sangra de verdade é o pobre.


quarta-feira, 20 de junho de 2018

A Copa do Mundo e a mulher russa – não “apenas” a russa


Os esportes de competição fazem parte de um longo processo histórico de reeducação do homem e de sua masculinidade. Em boa medida os esportes substituíram a guerra como exercício contínuo da masculinidade que se auto representava como uso da força, da violência, da virilidade, da capacidade de impor a própria vontade em desprezo das outras opiniões.
Ao longo dos séculos o esporte passou a ser o novo campo de batalhas onde os homens tentam se afirmar como força viril que a tudo controla e penetra. Não à toa que o goleiro que pega as bolas está entre os mais insultados além do juiz da partida que põe limites a agressividade pelo gosto da vitória. Talvez, mais importante que isto, a imposição da derrota como humilhação pública, de onde se depreende os apelidos afeminados ou submissos que se dá ao derrotado, como o celebre “chupa”.
É uma cena entre o exercício “civilizado” da violência e o sexo como humilhação que se repete rotineiramente. Destarte, o esporte falhou aotentar inviabilizar a violência física cotidiana. Parte dos torcedores ingleses se notabilizaram pra demonstrar que não foi um alvo acertado. Não à atoa são os torcedores ingleses, afinal vêm do maior Império que o planeta viu.
O caso da mulher russa loira violentada e/ou constrangida verbalmente revela as disputas masculinas internacionais por superioridade, força e poder. Se nas guerras do passado, e mesmo do presente apesar de ser crime – oficialmente – o estupro dos e das derrotadas era parte do sague das riquezas.
Neste campo de ideias machistas, sexistas, misóginas, patriarcais os homens envolvidos nada mais esperavam que a aprovação social por revelar os valores que a duras penas mulheres e tantos outros grupos minoritários e movimentos sociais têm trabalhado para conter e reeducar.

Mas a resistência dos opressores é histórica. Afinal de contas se na copa anterior um homem ilustre representante da meritocracia brasileira branca de classe média alta puxou o coro em estádio e televisionado para o planeta com o “Dilma via tomar no c...” que problema teria em fazer algo como gritar em público pelo órgão sexual feminino em terras estrangeiras onde os direitos femininos e homossexuais são diariamente contidos pelo Estado Russo que oficializa o machismo, o sexistmo, a misoginia, o patriarcado e a homofobia?
Ledo engano, a resistência existe e ela persistirá mesmo diante de um Estado governado por Temer que negocia os direitos de muitos em troca de uma governabilidade capenga que finge ser democrática e legítima. A vergonha é nacional por revelar ao mundo que se quer “civilizado” como no cotidiano mulheres, em especial as mais pobres e negras, além de homossexuais são destratados no Brasil e para além dele.
E, não basta dizer e se fosse sua irmã, filha ou esposa, pois no patriarcado que permanece vivo nestas práticas e no imaginário, estas pessoas são propriedades do homem e eles tudo podem fazer com elas, por isto a violência contra a mulher inicia em casa e se expande para as ruas. A violência do pai, do irmão, do esposo são as mais notadas.

Basta pensar que uma mulher é morta a cada duas horas, em geral, por algum conhecido e em casa no Brasil. E um gay, em geral afeminado ou travesti, é morto por dia em uma população que não chega a 10% da população. O massacre é visível. A guerra contra o feminino e a mulher está declarada desde a colonização.
Gritar em público para humilhar e constranger a mulher para esses homens brancos, que se apresentam como heterossexuais, e se pensam de elite, nada mais é que uma brincadeira...
Para nós é reveladora da mais crua e dura realidade hipócrita que só se move pelo Direito Humano diante do colapso da falsidade documentada internacionalmente do machismo, sexismo, patriarcado e misoginia brasileiras. Para piorar, a bancada religiosa, agrária e da arma  (Boi, Bala e e Bíblia) dizem que não há necessidade de educação de gênero nas escolas.  Mais que isto, todo o movimento para retirada de Dilma do poder legítimo de Estado tinha por base a luta conta a educação de gênero nas escolas. Revelador de que lado estão e o que realmente defendem parte significativa da nação e para estes tudo não passará de repercussão exagerada.

domingo, 20 de maio de 2018

“Mito do bom ladrão” e a política


“Mito do bom ladrão” e a política

O “mito do bom ladrão” é uma antiga tradição e agrada aos da direita e da esquerda, os vermelhos e os azuis, de longa data. Esta tradição  tem entre os seus diletos  membros São Dimas – aquele que morreu  crucificado ao lado de Jesus Cristo , segundo o Evangelho de São Lucas, e se arrependeu nos últimos instantes de sua vida no ano 30 -33 d. C., no Calvário em Jerusalém. Dimas significa o que nasceu no por do sol. No último momento.
De lá para cá o “mito do bom ladrão” teve diversas interpretações, entre as quais pode-se destacar a de Robin Hood, século XII ou XIII, também conhecido em Portugal por Robin dos Bosques, sobre o qual não há confirmação da existência, mas é, na Inglaterra, um dos maiores heróis havendo um festival que o celebra. Seria contemporâneo das Cruzadas e do Rei Ricardo, Coração de Leão. Era um dentre os muitos habitantes do Bosque de Sherwood. Há diferentes versões, mas o ponto central é que roubava dos nobres para doar aos pobres.
Em hipótese, pode-se falar ao menos de dois “bons ladrões” no Brasil: Paulo Maluf que tende a gradar a direita e os azuis, de um lado, e de outro Lula da Silva, que alarga-se no lado vermelho ou da esquerda.

Maluf se tornou tão celebre que ganhou expressão própria no malufismo. Neste as suas virtudes destacava o “rouba, mas faz”, uma crítica às avessas de políticos outros que roubavam e nada faziam. Para além disto, e por isto mesmo, privilegiava os mais ricos em plena Ditadura Militar.
Lula, por seu turno, tornou-se uma ideia por, mesmo que roubando, o que ainda não foi devidamente comprovado, salvo as interpretações jurídicas que o condenaram, distribuiu renda ao povo por meio de políticas públicas de seu governo que tiveram continuidade no governo Dilma.
Assim, o povo compara os “bons ladrões” de nossa política para escolher em quem votar. Fica a cor vermelha ou azul no limiar de quem o “bom ladrão” privilegiará na distribuição dos recursos do Estado, e com isto, apesar da negativa de muito,s nos tornamos o País da propina desde que bem intencionada e para o lado certo: o que o “eu” julgador está.
Tanto faz se ladrão ou não, na prática se votará em quem colaborar com a linha de pensamento azul ou vermelha. O verde e amarelo pertence aos dois.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

O Desemprego no (Des)Governo Temer(ário)

As premissas do Governo Michel Temer estão equivocadas no que dizem respeito ao bem estar do povo trabalhador assalariado. Ao alinhar-se ao (neo)liberalismo o desemprego passa a ser uma das ferramentas de controle da inflação via redução de consumo e, mais que isto, diminui a pressão por aumento salarial ou direitos trabalhistas. O resultado não poderia ser outro: desemprego em alta.
Outro fator que colabora para este desemprego é a ausência de investimento de longo prazo do setor privado. Não o fazem no Governo Temer, como não o fizeram em governos outros anteriores. Isso por um cálculo simples ganha-se mais e com menos riscos investindo no sistema financeiro brasileiro, um dos mais lucrativos e menores riscos do planeta. Ao fazer grandes obras só as realizam se for via investimento público o que é uma porta entreaberta para o corrupto e o corruptor, em hipótese.
Apesar dos discursos dos (neo)liberais afirmarem que a Reforma Trabalhista traria aumento nas vagas de trabalho formal, no Brasil, após a Reforma o que vemos neste primeiro trimestre de 2018 é exatamente o contrário. Somamos entre o Governo Dilma Rousseff  e Michel Temer chegamos a cifra de mais de treze milhões e setecentos mil desempregados. Assim, há um vácuo de realidade entre o discurso (neo)liberal e a prática nua e crua da fome e do desalento crescentes.
Rodrigo Maia antes da Reforma Trabalhista asseverava que ao dia seguinte da aprovação haveria reação do mercado com crescimento do emprego no Brasil. Após a aprovação da Reforma, que foi sancionada pelo Presidente em julho de 2017, a retomada não ocorreu. Isto levou Maia a afiançar, em dezembro,  que 2018 seria de mais emprego no Brasil.  Não ocorreu. Até aqui e a equação é simples, os esforços levado a termo pelo governo privilegia o capital e não o trabalhador. Deste prisma faz-se um discurso e outro é o resultado na prática.

Vajamos o exemplo da Reforma da Previdência alardeada por Temer e Maia. Enquanto era o Governo Dilma Rousseff mais que ser contra de uma possível reforma que favorecesse a estabilidade, fizeram ajustes que priorizavam o trabalhador em detrimento da realidade dos cofres públicos do País. Uma vez no poder, não precisando, ou achando que poderia colocar o povo fora do jogo político, queria impor uma reforma sem precedentes na redução de direitos dos futuros aposentados e atuais trabalhadores.
Nesta equação pesou também o desemprego. Como conjectura pode-se  pressupor que o governo esperasse que o desalento dos desempregados minguasse as reações à reforma. Assim, os números negativos para o cidadão assalariado eram positivos ao governo e seu projeto de reformas estruturais sem precedentes para acabar com o Estado inspirado em Vargas.
O quadro real coloca o governo Temer na lona: apenas 33 milhões de empregados formais sendo treze milhões e setecentos mil desempregados. Os trabalhadores informais somam dez milhões de setecentos mil pessoas. Os menores índices desde 2012. Quatro milhões a menos de pessoas com trabalho. Um golpe na dignidade da pessoa humana de um governo que se dizia vir para resolver a crise que ele mesmo gestou como meio de assumir o poder. A crise política-econômica tornou-se maior que seus fomentadores. O resulto é mais do mesmo os pobres cada vez mais empobrecidos e aviltados; os ricos cada vez mais indiferentes a situação do povo culpando-o por sua situação que não encontra espaço na estruturas de Estado e de mercado.
Wlaumir De Souza

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A palavra do ano de 2017: RETROCESSO

Enquanto para o senso comum, via votação pela internet, a palavra do ano é corrupção, defendo que a palavra do ano acadêmico é retrocesso, bem como para as políticas públicas, as relações de trabalho, a igualdade de gênero e de etnias tudo isto devidamente azeitado pelo pensamento e governo conservadores, para não dizer retrógrados. O atraso teima como parte de nossa matriz cultural política e um governo conservador do PMDB só fez crescer esta vertente cultural face aos progressivas quer na arte, na política(s) ou na economia.
Enquanto na Europa, do século XVI, o velho pacto entre Igreja Católica e Estado estava no início de sua lenta e progressiva decadência face ao secularismo e a laicização patrocinadas pelas raízes da ciência e até mesmo pela reforma protestante de Martinho Lutero, 31 de outubro de 1517; no Brasil, o velho modelo religioso de origem medieval era patrocinado via padroado. Este era um acordo político entre Roma e o Rei de Portugal onde caberia ao Estado o mando e o patrocínio sobre a Igreja local do Brasil.
Na Europa este tipo de acordo, que andava de mãos dadas com a compra de indulgências para salvar as almas, era criticado por aquilo que se chamaria depois, ao longo da história, por liberalismo construído em boa medida por burgueses e intelectuais laicos. A Europa mercantilista que se baseava no metalismo encontrou uma nova força para a sua prosperidade, a burguesia e o protestantismo, e iniciava o abandono das forças então retrógradas da nobreza aliada a Igreja e suas superstições que depreciavam o saber acadêmico, quando não o perseguiam.
A burguesia enquanto classe ainda não se fazia presente, mas seus germes eram em favor da dinamicidade econômica que se demonstrava cada vez mais viável via expansão marítima e da educação. Mas, para conseguir tal feito era necessária a aliança com a nobreza retrógrada, sobretudo no que tangia às colônias que deveriam ser profundamente exploradas em sua alma e corpo, e com as igrejas que controlavam os colégios via mosteiros e conventos. Mas, muito mais que isto, a burguesia precisava do que se chamaria depois de classe média – pessoas que sabiam ler, escrever e contar e para esta expansão o protestantismo foi fundamental ao defender a livre interpretação das escrituras que pressupunha o saber ler. Ou seja, em boa medida o protestantismo não se destinava aos mais pobres e ignaros.
Neste sentido, embora à burguesia europeia fosse mais proveitoso a aliança com intelectuais laicos e pesquisadores práticos, no Brasil a melhor aliança para a manutenção da ordem escravista e escravocrata era com a Igreja Católica, esta a mãe perfeita para o projeto explorador.
Não se abriram universidades no Brasil Colonial e os poucos afortunados que podiam enviavam seus filhos para estudos em Portugal onde conheciam as ideias burguesas que via de regra não colocariam em prática no Brasil consolidando nosso discurso metafísico do direito enquanto a política prática chafurda com os podres poderes da corrupção.
Para manter o atraso da Colônia o melhor caminho era a aliança com a Igreja que entrava em decadência na Europa, a Católica, face aos protestantes que flertavam em público com o Estado mercantilista, o metalismo, a matemática e o lucro da burguesia como práticas que evidenciavam as bênçãos de Deus. Invertia-se o discurso da Igreja Católica de usura e com isto protestantes colaboravam com os avanços do que se chamaria liberalismo econômico.
Da Colônia ao Império o padroado foi mantido e com ele todos os acordos com a Igreja Católica que garantiam os atrasos das gentes do Brasil e o controle via educação de conventos e mosteiros do pensamento das camadas favorecidas.
Apenas com a República e a tomada do poder por certos liberais e positivistas que a ciência passou a ter maior oportunidade no Brasil e, mesmo assim, apenas na década de 1930 inicia-se o projeto USP no Estado que se considerava a Locomotiva econômica e cultural, São Paulo, mas mantendo o acordo de educação de jovens nos colégios católicos, poucas eram as escolas laicas e secularizadas que poderiam fazer avançar a educação científica e suas práticas e valores.
Nestes moldes do projeto USP que se espraiaria lentamente pelo Brasil via universidades estaduais e federais, o liberalismo oligárquico branco e masculino mantinha-se como fundamento das ações e estratégias de poder da burguesia que fazia uma dicotomia entre a cultura de elite letrada e a popular de corpo religioso. Aos filhos dos bem nascidos economicamente ou mesmo intelectualmente estava destinada uma vida tranquila na academia mantida pelo Estado e na antessala da educação patrocinada pela Igreja Católica. Não por acaso que a única grande universidade privada do Brasil a conseguir fundos do Estado para educação foi a PUC.
Este projeto oligárquico de poder intelectual aliado ao poder econômico não fazia sombra ao velho projeto de dominação e controle social via religião recheada de preconceitos e discriminações implantados na Colônia, mantido no Império e dicotomizado na República. Mas a dicotomia entre os mais pobres educados pra fazer e obedecer e os melhores aquinhoados economicamente e educados para pensar e mandar apenas se aprofundou ao longo dos anos via saber universitário.
A sombra neste projeto de poder foi estabelecida pelo avanço sem precedentes da educação técnica e universitária sem no governo federal do Partido dos Trabalhadores. A expansão das vagas universitárias públicas fez avançar de modo reformado e reestruturado o projeto USP de uma elite intelectualizada e secularizada ultrapassar as fronteiras de classe e com isto vazar para a sociedade mais ampla, em especial, para os mais pobres, negros e LGBTTT.
Isto era e é um risco para o poder tradicional burguês do Brasil que via na religião seu modus operandi de controlar e explorar os mais pobres e o País. Para além das camadas médias que serviam de bom grado às elites em troca da vida tranquila e previsível economicamente, outras ascenderam à universidade e com isto ao pensamento laico e secularizado de padrão historicamente burguês, mas agora, sobretudo buscando romper os laços com o “colonialismo” tergiversado na República.

Frear tais forças de transformação social demonstraram-se urgente ao projeto oligárquico que se esboroava. Deste prisma, precarizar para desmontar as universidades públicas e as escolas técnicas federais passou a ser urgente para evitar a circulação das elites no Brasil, ao mesmo tempo que se corta a subvenção das faculdades privadas via bolsas de estudos. Havia agora uma massa crítica de doutores capazes de criticar a dependência e a corrupção, a mesma que fez o projeto Dilma Roussef naufragar.
Para tanto foi-se de encontro as forças mais conservados disponíveis na religião de fundo tradicionalista e dos evangélicos, estes mais subproduto que herdeiros do protestantismo, mas, no Brasil, inversamente mais conservadores e menos liberais; e especializados em “vender indulgências”, agora, para salvar o corpo, em paralelo a tudo isto, a aliança com as forças do agronegócio.
Desmontar os avanços da educação crítica, laica e secularizada tornou-se urgente para a burguesia brasileira e seus políticos de plantão uma vez que com a pesquisa avançada via inteligência nacional desconstruíam o poder dominante. Para além disto desmontar a pesquisa de ponta realizada nos laboratórios do Brasil em favor das forças neoliberais a que servem no plano internacional.
Enquanto a Europa buscou e busca avançar na laicização, na secularização e na aliança entre ciência e burguesia, o Brasil parece fazer o caminho inverso tomando a burguesia a ciência como uma opositora ao seu  poder. Talvez, isto se dê pelas premissas diferentes de poder, enquanto os Europeus arduamente buscam manter sua autonomia e protagonismo global via unidade europeia e para isto o investimento na investigação científica é fundamental, o Brasil oligárquico e de caciques políticos parece não conseguir abandonar o colonialismo travestido de dependência. E, para isto a religião em seus moldes tradicionais é fundamental, pois, só acreditando que o sofrimento tem um papel fundamental na existência podemos continuar a nos submeter a super exploração.
Assim, dependência não no sentido defendido por Fernando Henrique Cardoso, mas, antes e sobretudo, no de Ruy Muro Mariane. Pois, enquanto na Europa nos momentos de crise se investe mais em ciência de ponta, por aqui o governo Temer e seus aliados desconstroem o espaço da ciência de qualidade em proveito da religião como forma de explicar o mundo e censurar da arte à escola.

Wlaumir Souza

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

República envergonhada

República envergonhada

Já não são poucas as pessoas que conheço que se arrependeram de ir às ruas contra o Governo Dilma Rousseff. A realidade do governo Temer tem se demonstrado mais temerária que os prognósticos de seus opositores. Espelhado por uma postura imperial que a todos compra não mais com títulos e prebendas, mas com cargos temporários e verbas, ao que tudo indica.
Num espelho fractal do Império, não se contentando em propor uma idade mínima de aposentadoria que nos igualaria a Lei do Sexagenário, Temer agora reelabora a lei de trabalho escravo. Não basta para ele ser trabalho análogo à escravidão. Tem de ser trabalho escravo ipsis litteeris , ou seja, a pior realidade possível onde a coação seja feita por grilhões.
A República se envergonha historicamente de tal Presidente que fará o Brasil ser repreendido pela Organização Internacional do Trabalho. Vergonha diante dos discursos republicanos democráticos que imaginavam-se livre do Leviatã que surge dos mares pobres de Brasília.
Como se não bastasse o retrocesso social, trabalhista e da cidadania, vivemos a realidade do discurso da honestidade na/da política travestido de ideologia - enquanto discurso que encobre a realidade da configuração de possíveis organizações criminosas em partidos políticos. Agora não mais dos que se dizem de esquerda, mas na direita tradicional que aceitou fazer par com a Arena para dissimular a Ditadura.  Neste vértice o retorno de Aécio Neves ao Senado seria o prenúncio da permanência de Temer na Presidência após a denúncia de Janot.

O Lebiatã vai tomando corpo. Sem constrangimento levantando-se do lamaçal de Brasília e seus apaniguados na firme certeza de que fazem o uso do público em nome dos interesses privados dos correligionários. E, mais, de tal forma que parece consolidar a fala de Romero Jucá: “Um grande acordo nacional com o supremo e tudo”. Onde as tentativas de punição seriam a farsa no sistema para consolidar a (des)ordem em favor dos donos na política.

Inesperada será uma eleição em 2018 que poderá responder, da forma mais legítima, para negar este pacto de caciques carcomidos pela história das denúncias de corrupção da direita que a classe médica em uníssono silencia panelas em nome da exploração do subemprego nos andares de baixo das camadas sociais.

sábado, 23 de setembro de 2017

Contradições que constrangem o Brasil

Contradições que constrangem o Brasil

Em meio ao processo social que culminou com o impedimento da Presidenta Dilma Rousseff, não poucas vezes, assistimos na poltrona da sala de casa, via televisão ou internet, os maiores abusos contra a dignidade da mulher, e em especial, da Presidenta sufragada, sem qualquer pudor ou consideração.
Destaco apenas alguns momentos emblemáticos. Quando no estádio em meio a Copa do Mundo em coro se mandou a Presidenta Dilma ir tomar no cu. Seguidamente, uma imagem da Presidenta com as pernas abertas fazendo do orifício de abastecimento de combustível como se fosse as partes íntimas sexuais, para serem penetradas pela mangueira de combustível.
Nos dois casos a alusão ao estupro coletivo enquanto corretivo para que ela ficasse no lugar que lhe cabia como mulher, qual seja a vida privada e não o espaço público e com poder. Ou seja, este local não seria a presidência da República.
Tais atitudes abusivas não foram condenadas por parte significativa dos militantes contrários ao governo federal PT. Pelo contrário, fazia-se política ao estilo de Machiavel com todo um discurso da honestidade contra aquilo que se convencionou chamar de esquerda, sendo na realidade Liberal Keynesiano.

Este discurso da honestidade revelou-se, com o tempo, estéril visto que as mesmas forças não se organizaram contra o Presidente Michel Temer acusado pela Procuradoria Geral  da República por duas vezes consecutivas, uma vez inclusive por formação de quadrilha o que desfiguraria por completo a questão do partido.
Assim, vemos o Brasil ser o que é, um País do statu quo onde o que se merece é medido pela origem de classe, raça e gênero. Assim, mulheres, negros e homossexuais e toda plêiade das variantes de gênero são excluídos e culpabilizados pelos males sociais sem clemência, mesmo que para isto use-se meios imorais nas ruas vendo os carros adesivados ou no estádio ou via televisão do coro estuprador.
Neste contexto de moral machista, sexista, patriarcal, racista e classista não é de se estranhar que a exposição “QueerMuseu: cartografias da diferença na arte brasileira” tenha sido na visão da direita boicotada e na visão dos progressistas censurada a ponto de ser fechada pela instituição financeira que a exibia.
Bem aos moldes do que faz o Brasil, Brasil, a manutenção do statu quo em detrimento dos direitos de cidadania, o que mais assustou na exposição foi ver que artistas renomados e, alguns históricos, como Portinari, já haviam se embrenhado pelo mundo Queer quando este ainda nem era pesquisado como manifestação humana livre e sadia desde a infância.
Mais, que isto, escancarava as frestas das portas e janelas para evidenciar que o mundo Queer sempre este aí e um de seus usufrutuários era o homem quase imaculado em sua macheza excludente. Este desvelamento não poderia ocorrer no Brasil do statu quo onde a maior parte dos gays está casada e com filhos, por vezes numa vida dupla onde a mulher é cúmplice por medo de perder o statu quo de casada em uma sociedade machista e patriarcal e sexista.
Romper com o statu quo do/no Brasil seria arrombar com as aparências de uma civilização que não passa de um verniz, de uma doutrinação vazia, uma vez que as maiores vitimas de violência e morte são as mulheres, por seus próprios parceiros, aparentados ou conhecidos; os negros, via polícia na periferia e luta pelo controle de áreas; e os gays sendo sistematicamente assassinados a ponto de nos colocar como campeão mundial de produção de vítimas. É uma guerra civil não declarada onde apenas o homem, branco e heterossexual continua sendo o favorecido e privilegiado.
Neste ponto a posição do juiz que legitima a “cura gay” é apenas a cereja do bolo da discriminação, exploração e controle aviltantes das minorias que merecem todo o respeito na Democracia ou mesmo fora dela, em favor do statu quo que nega a cidadania plena a tod@s @s Cidadãos.
E, por isto mesmo já nos perguntamos: haverá eleições em 2018 com este projeto liberal conservador autoritário em curso crescente?