sexta-feira, 14 de abril de 2017

Odebrecht, a República Nova é sua

Uma das maiores alegrias de ser professor ou pesquisador é quando o aluno ou a criatura (pesquisa) superam o nome do mestre. É o que vemos na operação Lava Jato, a criatura está a superar os criadores. Elaborada, possivelmente, como uma das maiores farsas, da nossa história brasileira, de combate a corrupção, ela avança e se torna quase incontrolável pelos seus atores ao se espraiar por vários partidos .
A história de combate a corrupção tem capítulos celebres, recordarei apenas dois emblemáticos e fazem parte da memória coletiva do mais do mesmo no Brasil. A primeira a do jingle “varre, varre, vassourinha, varre a corrupção” da Campanha de Jânio Quadros, em 1960. A outra, do caçador dos marajás Fernando Collor de Mello (1990 – 1992). Não é preciso dizer que estes projetos ocultavam interesses outros.
Talvez uma das maiores permanências em nossa história político-partidária seja a corrupção e farsa de combate a mesma. Mas, o tom de denúncia varia conforme os interesses e o modelo de denúncia de acordo com a época.
O ponto a que chegou a Lava Jato, com a lista de 108 nomes do Ministro Edson Fachim, fez com que os denunciadores se tornassem possíveis réus. As denúncias abundam contra os principais opositores, o PSDB e o PMDB, do Partido dos Trabalhadores, alvo primordial da investigação.
Engolidos pelo próprio projeto e a denúncia não cessa e neste ponto duas falas dos Odebrecht fizeram ouvir o rugido do leão pelas planícies da política e pelas tocas dos partidos. A primeira de que não há candidato e/ou campanha sem caixa dois; e, a segunda, de que o dinheiro da Odebrecht irrigava os projetos de políticos desde a década de 1980.
A diferença da década de 1980 para o século XXI é que na primeira etapa a corrupção era viabilizada pelas obras locais aos políticos da nação e, no século XXI, foi construído um departamento para garantir a “lisura” do imposto de renda, o Departamento de “Operações Estruturadas”. Recordo que operações estruturadas diz respeito a combinação de instrumentos financeiros para potencializar oportunidades no mercado e minimizar os riscos financeiros. Não por acaso uma das rubricas de pagamento de propina era “concessões e privatizações” que tanto marcaram a presidência do PSDB e do PT.
Neste quadro retornamos ao último Presidente da Ditatura civil-militar João Figueiredo (1979-1985) e chegamos aos dias atuais. De um projeto que era negociado no plano local com o nacional passamos para a Organização do Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht negociando com os políticos da nação. Esta a marca da República Nova.
Mas, mais que isto, é bom pensar na pujança da farsa que engole o criador. De projeto restrito a denúncia do Partido que naquele momento histórico controlava e explorava a nação, o PT. Passa engolir o denunciante, PSDB, e principal favorecido, o PMDB, que se tornaram aliados em favor do capital que não mais se contentava com concessões e privatizações, “apenas”.
Neste quadro chegamos ao marco do aniversário do Impedimento da Presidenta Dilma Roussef (2011-2016), dia 17 de abril, que foi em boa medida financiado pelos partidos e pela FIESP e demais instituições congêneres aliadas que hora são engolidos pelo seu projeto de poder via judiciário em meio às panelas da classe média anti-petista. Abordamos ao primeiro ano do Impedimento com uma certeza, a grande vitoriosa nestes anos de República Nova Democrática foi a rubrica “concessões e privatizações” com o nome de projeto neoliberal via Organização Odebrecht na trajetória do pai e do filho, onde a Constituição Cidadã, 1988, foi um tropeço no percurso histórico.

Não se revezaram no poder partidos políticos, entre eles com destaque para o PSDB, PT e PMDB. Mas, vimos a permanência da Odebrecht no controle dos representantes do poder de Estado. Assim, cabe a pergunta se a Odebrecht mantinha o controle da “Ordem e Progresso” qual instituição que teria financiado a tomada do poder com o impedimento da presidenta Dilma Roussef e a conseguinte “amenização” do poder da Odeberecht na República? Qual seria a empresa que se beneficia com a “saída” da Odebrecht da cena dominante política da propina? Seriam as Igrejas Evangélicas e seu baixo clero parlamentar visto que parte significativa dos membros da Lava jato são desta ética religiosa? E aí, você ainda tem um político corrupto favorito e continua batendo panelas seletivamente contra a corrupção? Ou já percebeu que os políticos do País tendem a não ter valores, mas, antes de tudo, preço sendo mercadoria comprada pelo capital?
Seja como for a Constituição Cidadã é que está em jogo com todos os direitos que consagrou. O poder do capital não se contenta mais “simplesmente” com as concessões e privatizações”, agora exigem o fim dos direitos trabalhistas, via reformas da Previdência, Trabalhista e Terceirização; e reforma político-eleitoral para expurgar os grupos sociais em ascensão que cada vez elegem mais representantes . Mas, o ponto em questão é a Constituição que deverá ser abalada a ponto de se convocar uma nova constituinte que não deixe parar dúvida de que entramos em um novo momento história da República que busca no judiciário a legitimação de seus projetos de ampliação da dominação, controle e exploração do que foi um dia a cidadania.
A república que de nova nada tem sendo mais a República da Cloaca ou a República do Caixa 2 a serviço do capital via saque do dinheiro público encontra uma fala basilar do que sempre foi e ainda quer ser. A fala singular do Presidente em exercício Michel Temer: “Deixarei o judiciário trabalhar”. Esta frase foi dita em resposta a um repórter que perguntou, em voz alta, ao presidente em exercício, como ficava a situação do País e de seus Ministros denunciados  com a Lista de Fachin.

Ora, Senhor Sresidente, pelo que sabemos ainda estamos em um República Democrática, visto que a versão de golpe é negada pelo poder instituído. Destarte, se os poderes são separados não vos cabe deixar o Judiciário trabalhar. É dever de autonomia do mesmo processar o caso. Vossa Excelência não está acima da lei, embora para garantir os interesses do Capital tenha retirado direitos históricos da nação via discurso do medo com apoio do Congresso, se posicionando acima da sociedade e dizendo que o congresso, digo o projeto vencedor via impedimento, não pode parar, apesar da criatura engolir o criador.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Temer temerariamente contra as mulheres do século XX e XXI

Que Temer é um conservador não há o que discutir. O que o Dia Internacional das Mulheres desvelou é que ele é mais que isto, é um retrógrado. Ou para, além disto, ele tem problemas quanto a questão é mulher independente, livre e emancipada que a Constituição de 1988 tornou uma realidade legal, respondendo as demandas feministas por uma realidade de paridade de poderes entre homens e mulheres no espaço público e privado. Talvez isto tenha haver com sua origem étnica.
A matéria da Revista Veja, de abril de 2016, com o título “Bela, recatada e do ´lar`” era um prenúncio do que assistiríamos a partir do Impedimento da Presidenta Dilma Roussef no que diz respeito a questão da mulher e do feminino. De lá para cá temos descido ladeira abaixo no que diz respeito às políticas públicas e ao empoderamento das mulheres e a problemática das violências que sofrem: econômica, política, social, simbólica entre outras além da invisibilização de dados patrocinada pelo Estado.
O projeto de redução da visibilidade da mulher iniciou-se pela nomeação dos ministérios, todos homens e apenas um homossexual assumido, o que fez alguns pensarem equivocadamente que ele seria um gay-friendly. Mas, este aparato de Estado ainda era pouco para conter os avanços das últimas décadas democráticas. Bem mais que isto, era preciso um projeto arrojado de exclusão da mulher, do feminino e dos pobres, de modo geral.
Para tanto se tornou necessário o controle das mentes e para isto a reforma do ensino com a transformação das disciplinas obrigatórias de Sociologia, Filosofia e História, principalmente, em conteúdos transversais faz parte do modelo “patriarcal” de poder. Estas disciplinas têm o poder de contextualizar e interpretar o poder, o capitalismo e as políticas e, para além disto, seus conteúdos com a visão de baixo, dos excluídos, dos invisibilizados podiam tornar possível a tomada de consciência de homens e mulheres sobre a violência de gênero retomada como estratégia de controle, exploração e dominação, tema tão temido por conservadores, retrógrados e legitimados por várias igrejas e crenças sociais misóginas.
Inviabilizar a reflexão sobre a questão da mulher e do feminino, e não apenas, mas, também do negro e outros excluídos do poder, como LGBTTT, fez-se urgente nesta ideação de poder masculino e branco.

A cereja da concepção retrógrada foi a fala do Presidente em homenagem a mulher no seu Dia Internacional de luta pela igualdade de gênero. Os afazeres domésticos, com destaque para as compras no supermercado, são uma das maiores contribuições da mulher à sociedade e ao Estado, disse o presidente TEMERário.
Não seria preciso criticar isto se não fosse poucos entre os dominados que com ele acordaram, inclusive a Primeira Dama por introjetar o dominador como certo, bom e valente, eufemismo para violento.
Tempos Temerários nos cercam e a questão da mulher e do feminino é apenas um em meio a um plano de exclusão sem precedentes na História Republicana Democrática do Brasil para consolidar a exploração capitalista. O verdadeiro ideal que os move é o patriarcal escravocrata com salários baixos e trabalho até a morte associados a privilégios de Estado, a famigerada estadania tão idolatrada no Brasil burocrático patrimonialista.

E. como se não bastasse o desenho nacional misógeno encontrou um parceiro forte em Donald Trump nesta visão reacionária que se diz, no púbico, para salvar os pobres da miséria, vemos um processo organizado de retomada do poder pelo tradicional dominador: o homem, branco, heterossexual.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Meu corrupto favorito ou o Brasil de sempre manda lembranças

Chegamos a um ponto no Brasil que o passado é mais presente que o futuro desejado pelas massas que aspiram cidadania, justiça e transparência e são transformados a fórceps em consumidores comuns, se tanto.
Quase invariavelmente, parte significativa das elites históricas do País estiveram ligadas ou mantidas no poder pela criminalidade. Palavras e conceitos pomposos foram destilados para manifestar, e simultaneamente ocultar aos iletrados, a corrupção em suas nuances: mandonismo, coronelismo, filhostismo, compadrio, clientelismo entre tantas outras formas assumidas pela devassidão do uso privado do que deveria ser público. Enfim, uma amarra sem fim com a criminalidade corrupta e corruptora do poder e do dinheiro públicos. Uma forma histórica de privatização que agora se torna lema do neoliberalismo.
Manifestações que eclodiram no Brasil, em junho de 2013, e que questionavam o aumento de vinte centavos na tarifa, rapidamente se transformaram em denuncia sistemática da corrupção e da transformação do cidadão em consumidor. A cidadania demandava direitos sociais e questionava a qualidade dos serviços públicos em precarização diante da corrupção e o modo de fazer política tradicionalmente no Brasil, ou seja, pessoalizada e corrupta no uso privado da República..
A mensagem era clara, Dilma experimentava queda na aprovação de seu governo e a oposição, ávida por poder há mais de uma década, iniciou uma inovação sem precedentes no modo de fazer política, mas herdeiro do modo Collor de caçar marajás, pela honestidade na política. Era a caça aos políticos não mais feita por militares, mas por juízes e promotores que, ao que tudo indica até aqui, foram seletivos nas denúncias e investigações.
Estes senhores da toga que, apesar da questão da transparência, permanecem com salários e benefícios sob sigilo, na grande maioria, mas, ganhando mais que o limite legal, foram trazidos à frente de batalha pela campanha pela honestidade, transparência e prestação de contas. Assim, descartavam-se os aliados tradicionais na manutenção do topo da pirâmide, o padre, pelo pastor; o policial e o delegado estadual, pelo plano federal, preferencialmente por juízes.
A massa cheirosa foi às ruas capitaneada por movimentos que se diziam sociais, mas, eram apêndices de partidos de “direita” e da classe dominante, que se diziam preocupados com o modo de fazer política corrupta. A batalha contra a corrupção fez o nome de juízes federais, passando pelo STF, serem conhecidos e discutidos por um circulo muito mais amplo que o jamais visto no País. E, as poucas cortes que não tinham suas sessões televisionadas ficaram gratas por não serem expostas ao vexame do projeto em curso.
Nos aproximamos do aniversário do Impedimento da Presidenta Dilma Rousseff com a evidência de que os que tomaram o poder não eram melhores no quesito que acusavam a derrotada e seu partido. Mas, o projeto fundamental se mantinha. A elite não pagaria o pato das custas financeiras da crise política-econômica defragada pela luta contra a corrupção, mas, atergiversação entre dinheiro público e patrimônio privado perpetuaria-se, mesmo que para isto tivessem que sacrificar alguns dos homens mais ricos da América Latina: Marcelo Odebrecht e o ex-Super X, Eike Batista.
A autofagia se tornou necessária e não poucos seriam sacrificados do pequeno circulo do poder em nome da manutenção da ordem tradicional mascarada de transformação histórica sem precedentes. Tudo ia bem enquanto isto atingia seletivamente o PT e seus financiadores. Mas, não tocava os que tomaram o poder e seus aliados e financiadores que desejavam que o povo pagasse o pato da crise.
Assim, coube a Temer reestruturar a posição planetária do Brasil em meio ao neoliberalismo. Deixar a mão de obra brasileira mais barata e longeva para a exploração internacional é a marca do governo. Reforma da previdência, da educação e trabalhista se incumbirão disto transferindo a conta para o povo trabalhador – inclui você com patrimônio menor que cinco milhões – ao mesmo tempo que liberará recursos públicos para serem emprestados como investimento subsidiado ao verdadeiros multimilhonários do Brasil e do exterior.
Todavia, é um governo que tem pressa. Tudo a toque de caixa: primeiro, por estar limitada a dois anos – se mantida a ordem constitucional; segundo, imprime velocidade por medidas provisórias, uma infinidade se comparada aos antecessores; terceiro, quer fazer dos juízes e promotores os candidatos ou apoiadores virtuais das próximas eleições pela construção de narrativas jurídicas do social e do político, deixando para o passado médicos e comunicadores sociais.
Todavia, teriam de combinar com os russos, digo, com os delatores. Nem entro na questão de quem é o novo financiador de votos que torna possível o azeitar da máquina com recursos e cargos. Seja como for o ponto que nos encontramos é o do “meu corrupto favorito”. Ou seja, os meus e os que apoio ideológicamente são honestos e inocentes até que se prove o contrário materialamente; e os seus e seus aliados são corruptos notórios e culpados por indução de testemunho, colaborativo.

Mas, citando André Perfeito, um dos entrevistados por várias vezes pela Globo News, como explicar que “Um processo é movido por um partido para impugnar a chapa rival por uso de caixa 2 e o inquérito descobre que o partido que moveu o processo recebeu caixa 2 e que o atual presidente, vice da chapa rival que foi acusada inicialmente por aquele partido, recebe hoje apoio do partido que moveu o processo sendo que se for provado que houve caixa 2 na chapa rival cai o governo onde o partido inicial tem ministros de estado.”
Coisas do velho Brasil, da velha política fazendo o futuro do País em conformidade aos interesses do grande capital no presente, que mesmo defenestrado, continua no poder e não pagará o pato. Mas, os que seguiram o pato de borracha amarelo na rua não ficarão infensos ao pagamento compulsório. E, pior, a escravização é tamanha, em louvor e defesa do capital do mercado, que nem de seus próprios filhos têm piedade, jogando-os à previdência privada – que tende a falir no futuro – transformando mais um direito de cidadania em serviço.
Mas, culpado é quem mostra ao escravizado que ele encontra-se na situação de escravizo. Ou que seu corrupto favorito também é um reles corrupto, apesar do português hermético da ciência e das leis dos crimes de colarinho branco feitos na imensa maioria por homens e mulheres brancos.

Para fechar basta lembrar o relato colaborativo de Marcelo Odebrecht esta semana de que repassou, por meio de caixa dois, para as campanhas do PSDB, Aécio Neves, que pede a cassação da chapa no poder; de Eduardo Campos e Marina Silva, então do PSB. E, o mensalão do outro partido seletivamente fica no fundo da gaveta enquanto a Lava Jato segue.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Projeto neoliberal e o retorno à situação análoga a escravização no século XXI

Um amigo neoliberal indiano de Perry Anderson, então consultor do Banco Mundial, disse-lhe, em 1987, no Rio de Janeiro, que o problema do Brasil na presidência de José Sarney (1985-1990) não era a taxa de inflação alta, mas a falta de uma hiperinflação que rompessem os diques sociais para que o povo se submetesse a medidas drásticas deflacionárias: o neoliberalismo.
A política contra a inflação notabilizou-se nos governos seguintes, de Fernando Collor (1990-1992), passando por Itamar Franco (1992-1995) a Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) com agendas que defendiam reformas de tendência neoliberal. Reforma era a palavra mágica que parecia tornar o Brasil o Eldorado do novo século para os investidores, palavra dócil para exploradores de oportunidades altamente lucrativas e que se iniciou com a celebre frase de Collor de que o carro no Brasil era uma carroça. Estava dada a largada para modernização neoliberal via “abertura” de fronteiras à globalização.
Com Fernando Henrique Cardoso a inflação enfim estava “controlada”, fato recorrente em diversos outros países à época, como o Peru que tinha uma inflação superior a 1000%, mas para mantê-la nos níveis desejados, as reformas neoliberais deveriam avançar ainda que lentamente em meio ao processo democrático – um luxo histórico para o Brasil e, grosso modo, para a América Latina. Muitos chegaram a se perguntar se as reformas empreendidas por FHC teria posto no passado o Estado de Vargas que organizou as leis trabalhistas num período que o mesmo ocorria em várias outras nações. Hoje a resposta é clara.
Para postergar a aceleração destas reformas o povo foi ás urnas e sufragou Luís Inácio Lula da Silva (2003-2011) e Dilma Roussef (2011-2016). Ao menos no discurso estes não era neoliberais, mas, também eram liberais, ainda que de tendência “keynesiana”. Todavia, a inflação foi se impondo, no mesmo momento em que ocorria a inflexão da crise internacional que estourou em 2008. O Brasil não tinha como sobreviver tão largo tempo sem o apoio internacional. Como diria FHC acadêmico, sinal de nossa dependência.
Como se isto não bastasse a derrota da elite neoliberal nas últimas eleições nacionais fez com que o ressentimento crescesse e o País se manteve dividido após as eleições. A parcela da elite que se via cada vez mais posta a margem do poder de Estado não conseguira, fazendo o discurso da legalidade, da transparência e da honestidade os votos necessários. Foi obrigada a recorrer ao povo em larga escala, mesmo a contra gosto, ainda que momentaneamente.
As manifestações surgiram solicitando melhorias nos serviços públicos. Multiplicaram-se numa enxurrada diante do Estado e um governo incapazes de resolverem as demandas, em 2013. Mas, ainda faltava um amalgama que unisse as manifestações de modo concertado. O ritmo foi obtido pelas mãos da governante Dilma Roussef que sancionou a Lei 12.850/2013 – Delação Premiada. Neste ponto Dilma pode ser comparada a Princesa Izabel que ao libertar os escravizados assinou a pena de morte do Império.
Foi impossível ao governo manter-se no poder diante de tantas denúncias reiteradas face ao discurso fácil da oposição de honestidade na coisa pública ao mesmo tempo em que acenavam ao povo com vantagens que lhes eram negadas pelos liberais Lula e Dilma. As pautas bombas foram num crescendo deslegitimando o papel da Presidenta e o maior aceno dado ao povo que ia para as ruas foi a reforma da previdência com a “regra 85/95 progressiva”, em novembro de 2015.
Fazia-se o jogo das sombras. Desequilibrava os cofres do governo ao favorecer a incapacidade de controle da inflação em meio a produção da crise política e aos avanços da Lava Jato, ao mesmo tempo que dava ao povo a impressão de que poderiam ser bem mais benfazejos a estes.
Ledo engano. A produção da crise tinha por alvo o retorno ao neoliberalismo. Se a inflação sozinha não dera condições ao avanço pleno destas reformas, (com Sarney) a crise sem precedentes históricos de um congresso contrário a presidência da República de Dilma, aprovando Leis que desestabilizam o País parecia ser o caminho.
O Impedimento da Presidenta era uma necessidade urgente diante da agenda da elite no ostracismo do poder de Estado e de suas verbas e congraçamentos em nome da honestidade e dos direitos do povo.
Uma vez no poder Michel Temer (2016) logo tentou revelar-se acima da sociedade, desligando-se do povo dos movimentos que o promoveram à presidência ao dizer que popularidade não era uma de suas preocupações.
E de fato tem dado provas disso ao nomear tantos ou mais investigados que os do período anterior. O discurso da honestidade, da transparência e dos direitos do povo caíram por terra e deram lugar a “Razão de Estado” a serviço dos grandes investimentos internacionais e acima da sociedade.

Assim, aquilo que os uniu ao povo agora é um empecilho histórico: direitos trabalhistas e previdência. Reforma-los passou a ser o centro da agenda pondo uma pá de cal na quimera do 85/95, mas mais que isto colocar o povo de baixo de tal jugo que a morte será mais certa, sobretudo no norte e nordeste – locais que decidiram as eleições pró Dilma – do que o paraíso da aposentadoria que garantia não o estar aposentado, mas, antes, a configuração de renda suficiente para a família.

O que a inflação não fez, a crise política com os discursos do ódio e do medo parecem ter tornado possível, o regresso a Lei do Sexagenário... via reformas do Estado.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Dr. Valter De Paula (1943-2016): uma vida dedicada à aprendizagem

Foi uma HONRA trabalhar, conhecer e conviver com D. Valter de Paula no Centro Universitário Barão de Mauá. Mesmo escrevendo honra com negrito, itálico e sublinhado ainda é insuficiente para dizer as qualidades deste ser humano nos esforços pela qualidade das relações humanas no ambiente de trabalho e pessoal.
Dr. Wlater era amigo de todos e todas. Sempre tinha uma palavra amiga, um conselho profissional ou um estímulo para se avançar no processo de ensino-aprendiagem, da dodiscência que tão bem analisa Paulo Freire.
Atento a todos e todas, as necessidades de professores, alunos e funcionários não media esforços para fazer do Centro Universitário Barão de Mauá, nos 40 anos que se dedicou a instituição, para fazer dela um reflexo, no presente, dos ideais defendidos por seus fundadores, em especial o Spinelli: um espaço democrático, mesmo diante de tantos autoritários; um espaço diverso, ainda que em face de tantos que gostariam de negar a essência da Universidade, no caso de Centro Universitário, um universo de diversidades de etnia, de gênero, de classes e de ideias e práticas.
Era mais que um administrador, era um cientista do cotidiano que fazia do sonho quase impossível uma possiblidade real.

Lembro-me do sorriso sempre afável com que ele nos recebia para atender, mais do que para ouvir, as demandas do cotidiano e do futuro da instituição. Em meio a estas memórias quero lembrar uma especial: a institucionalização do Grupo de Estudos e Pesquisas e Metodologia da Oralidade (NEPMO) pelo Centro Universitário Barão de Mauá.
Tivemos uma conversa informal, no corredor da instituição de ensino e pesquisa Barão de Mauá, sobre o meu desejo de formalizar o grupo, que já funcionava há uns dois anos, no curso de História, como extensão gratuita aos alunos e alunas de todos os cursos.
Dois meses depois ele me chamou à sua sala e me entregou o certificado de institucionalização do NEPMO e disse-me trabalhe tranquilo e continue estimulando nossos alunos a seguirem novos e mais belos projetos ao longo de suas vidas.
Assim era ele. Um patrocinador do ideal da aprendizagem. Por mais que esvreva será insuficiente para dizer a HONRA, a ALEGRIA  de ter podido conviver e ter sido um de seus alunos.
Não foi apenas, nós, os amigos e colegas de trabalho do Centro Universitáiro, além de seus maravilhosos filhos, que perdemos esta pessoa maravilhosa, foi a educação de Ribeirão Preto e do Brasil que se despede de um homem expetacular.
Ficam os ideais, as palavras e ações que tanto contribuíram para o avanço da aprendizagem plural de tendência universalista que tanto defendeu.
Siga paz!

OBRIGADO! OBRIGADO! OBRIGADO! 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Donald Trump: Cada nação tem o Temer que merece

Uma das características do neoliberalismo é a polarização social. Neste quesito Brasil e EUA estão igualados pelas últimas eleições presidenciais. Tanto em um como em outro País o neoliberalismo conseguiu recriar o medo da insuficiência de recursos para todos da nação. Não que isto tenha desaparecido do planeta que produz mais do que suficiente para não haver fome e miséria, mas, se acentuou a diferença e a distância entre as camadas sociais.
O Estado de liberalismo neoclássico que intervinha e tinha no Estado um dos produtores de classe média entra em declínio e, pior que isto, a ideia de redistribuição de renda via serviços públicos passa a ser propalado não como investimento, mas, antes e, sobretudo, como gasto. Neste ponto resta a classe média a desesperação do desamparo uma vez que, sobretudo no Brasil, os salários são insuficientes para a manutenção da posição de camada intermediária no mercado de trabalho privado.
Neste ponto a metáfora da barata e do inseticida ganha força e aterroriza os brasileiros que aspiram ser brazileiros.

A ascensão de Temer ao poder por meio de “golpe jurídico-parlamentar” legitimada pelas massas que aspiram aos píncaros do consumo, mais do que a cidadania, que saíram às ruas e militaram pela internet - característica esta que é compatível com o neoliberalismo que não precisa da democracia para reproduzir-se e, sim, da liberdade suprema do capital aos limites impostos pelo Estado defensor de sua nação. – é a outra face da moeda da eleição de Donald Tramp. Enquanto na Terra Brasilis a baixa qualidade da democracia permite o uso de instituições formais para retirar presidenta legitimamente sufragada; nos EUA, a eleição a eleição legítima tende a ser respeitada pelo congresso e judiciário.
Note bem, isto não quer dizer que Trump poderá fazer tudo o que reverberou durante a campanha. Em geral, um é o candidato e outro o administrador. Some-se a isto o fato de que o presidente eleito não detém o apoio amplo do partido pelo qual se candidatou. Mas, no Brasil isto causou furor nas redes sociais. As camadas médias foram pegas de surpresa, afinal, faria com elas Tramp o que faz Temer com as camadas abaixo das medianas?
E, assim, a metáfora da barata e do chinelo ganha outra conotação. Agora ameaçadora.
Para aqueles que não conhecem as “piadas” das baratas, vamos a elas. Se chinelo fosse partido a barata votaria nele. A barata festejando a invenção do inseticida.
Claro a barata é sempre uma camada abaixo. O problema é quando o inseticida ou chinelo está camadas acima.

Adeus  lúgubre 2016. Que venha 2017 com novas possibilidades.

domingo, 4 de setembro de 2016

Tempos TEMERários

Assisti admirado o avançar do processo de impedimento da Presidenta Dilma Rousseff. Não tanto pelas acusações de pedaladas – fato recorrente na política brasileira e agora legalizado pelo sistema – mas, pelo modo como ficou claro a baixa qualidade de nossa democracia. Mais que isto, o quanto está posto, em pleno século XXI, as condições para aplicação e expansão do pensamento autoritário em nome do vil metal.
A igualdade tornou-se um insulto propalado em alto e bom som por uma parcela significativa da direita que quer ter o direito de voltar a dizer piadas racistas, como se não lhes bastasse as piadas homofobias, misóginas e xenófobas, entre outros quilates de preconceitos e discriminaçõess como esteio da exploração econômica e marginalização social.
Vi espantado o desfecho do impedimento. A plataforma básica é a ampliação da subjugação do povo com a exploração máxima, ao ponto de restar apenas o bagaço humano sugado pelas engrenagens capitalistas de usurpação da dignidade da pessoa humana. Aposentadoria por volta dos setenta anos nos iguala a condição de escravizados libertos pela lei do sexagenário. Para quase nada adiantava para a massa de escravizados negros e mesmo para os septuagenários pobres que nasceram formalmente livres nos séculos que vivemos será algo quase inatingível - o direito de retorno de seu trabalho feito pelo bem do País.
Pior que isto, para sustentar a pirâmide dos privilégios dos altos postos do Estado e de empréstimos com incentivos fiscais e crédito subsidiado aos capitalistas cortará direitos sociais que por esta paragem chegou há menos de duas décadas. Pouco o povo desfrutou do fato irrefutável de que a maior riqueza de uma nação é seu povo e logo será jogado à indigência de políticas famélicas, tão tradicionais na Terra Brasilis, ao gosto dos autoritários de que naipa político seja da América Latina.
Vivo desolado com o triste fato de sobeviver a ponto de passar por tempos temerários onde o direito pode tornar-se uma exceção, concedida aos partidários, aos burocratas e aos financiadores do último golpe parlamentar que ainda não se assumiu com tal. Ainda vivemos sob uma democracia formal que aos poucos vê apagar as chamas da igualdade, da liberdade e da hipótese da fraternidade.


Vemos um golpe que se revela aos poucos, insinuando-se qual sedução vista em sinais sóbrios, porém soturnos. A maior marca de Caim pode ser vista avultar-se logo após o fechamento do ciclo iniciado em 17 de abril: as prerrogativas de advogados sendo pisoteada pelas botas de diferentes modos: apanhando no meio-fio; impossibilitado de se comunicar com as vítimas presas em manifestações contra o presidente;  detido em nome da ordem. Trieste tempo onde a OAB sente na própria pele as dores de ter aderido a nova ordem por meio do apoio ao impedimento parlamentar formalmente estabelecido.
Assim, vejamos, quanto tempo será gestado para que, como na Ditadura, se escancare a realidade com frese semelhante a do Ministro do Trabalho e da Previdência Social Jarbas Passarinho, na reunião, em dezembro de 1968, que aprovava o AI-5: "Sei que a Vossa Excelência repugna, como a mim e a todos os membros desse Conselho, enveredar pelo caminho da ditadura pura e simples, mas me parece que claramente é esta que está diante de nós. [...] Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência”.
Até mesmo o pensamento autoritário precisa de uma preparação para ser implementado. Entre nós o ponto de partida seria o slogan espalhado pelo Brasil a fora “Não pense em crise. Trabalhe”? Síntese de um projeto ao qual interessa corpos trabalhadores, escravizados e sem a interferência do Estado no mercado via leis trabalhistas, e com mentes vazias de ideias e ideais democrático-sociais viabilizados pela educação formal, visto que esta seria controlada pela “Escola sem partido” que seria a de partido único, a do opressor-explorador-dominador pautada pela patrulha ideológica do básico ao universitário?

Apesar do dia triste que foi o do impedimento... a democracia vencerá os tempos de temerários e a chama da justiça será vista brilhando nos luzeiros das estrelas como esperança se concretizar nos mais triviais dos dias aos de mais temor.